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Apaixonando-se Novamente
por Manille

Capítulo 1

Isso nunca funciona.

Foi a primeira coisa que veio a minha mente quando acordei num domingo. Como em todos os outros dias antes desse. Simplesmente pensei que nosso casamento nunca funcionou de verdade.

A evidência era aparente assim que abri meus olhos. Ninguém ao meu lado na cama.

Enquanto eu saia da cama king-size, que eu tão egoisticamente dominava sozinha, meu olhos dardejaram na direção do sofá do outro lado do quarto. Meu "marido" deitava ali, ainda roncando, abraçando o próprio travesseiro.

Suspirei pesadamente. Por que eu uma vez pensei que amava este homem? O que fez meu coração esperar por ele anos atrás? O que me fez casar com ele realmente?

Nós costumávamos ser o que devíamos ser - marido e mulher, pai e mãe, dois amantes sob o mesmo teto. Mas após cinco anos de casamento... tudo simplesmente desapareceu, sabe.

Eu me ergui quando os olhos de Yusuke de repente se abriram, como se eu tivesse desejado que ele acordasse de seus sonhos.

Conscientemente desvei o olhar e vagei sonolentamente na direção da porta.

"Ohayo," ele resmungou, espregüiçando-se e inspirando profundamente. Sorriu para mim. "Dormiu bem?"

"Hum... mais ou menos," murmurei baixinho.

Se fosse há cinco anos, eu teria acordado com Yusuke arrastando-se sob nosso cobertor e me dando um beijo suave nos lábios como primeira coisa na manhã. Agora era só um "bom dia" - um cumprimento clássico e plástico de manhã.

E Yusuke sabia.

Na verdade, estivemos conversando sobre divórcio desde Setembro. E nenhum de nós mudou de idéia sobre isso.

Já era a primeira semana de Dezembro.

Eu sai do quarto. Então senti Yusuke me seguindo.

E foi então que nós ouvimos o barulho vindo do quarto de nossa filha.

Sakura. Oh, não.

De olhos arregalados, Yusuke e eu olhamos um para o outro, em horror, o pior dos piores pensamentos em nossas mentes. Corremos (um contra o outro) até o quarto a toda velocidade. Yusuke ganhou, e enquanto ele segurava a maçaneta, eu entrei.

Vi minha filha Sakura sentada no chão, com pedaços de barro quebrado e inúmeras moedas espalhadas à sua frente.

Minha respiração saiu com um suspiro. "Deus, pensei que-"

"Eh, Sakura-chan?" Yusuke falou antes que pudesse terminar. Ele dirigiu-se até nossa chocada filha de cinco anos. "Seu porquinho já está tão cheio?"

"Oh, Sakura-chan," me emocionei, pegando-a do chão e beijando sua bochecha rechonchuda. "Já acordada, tão cedo!"

"O-kaachan," Sakura reclamou com sua doce voz jovem, "Só estava conferindo quanto tenho!"

"Você com certeza tem muito," Yusuke disse, enquanto pegava os pedaços do que costumava ser o cofrinho de Sakura-chan. Ele olhou para mim, bem significativamente.

Rolei os olhos levemente. O que quer que ele quis dizer com isso, eu ignorei. Voltei-me para Sakura exasperada. "O que vou fazer com você, garotinha?"

"Agora o-kaasan," Yusuke me avisou, "não fique zangada com nosso anjinho , especialmente quando ela acabou de acordar."

Yusuke estava sendo estupidamente doce - e irritante - e tudo que eu podia fazer era evitar que eu o estrangulasse.

"É, kaachan!" Sakura passou os braços em volta do pescoço de Yusuke, arrancarndo um "Ugh!" dele. Ele com certeza sabe como fazer a garota gostar mais dele. E me envergonhar com isso. "Só queria ver meu dinheiro, assim eu podia ir fazer as compras de Natal com você!"

O sorriso no rosto de Yusuke desapareceu de repente.

Natal.

E agora? perguntei para mim mesma com tristeza. O Natal estava aí, e nem Yusuke ou eu estávamos preparados para isso - ou na verdade, esperando isso.

"Ei, você está certa, Sakura-chan!" o sorriso de repente emoldurou novamente o rosto de Yusuke. "Sua kaachan e eu estávamos planejando sair para as compras de Natal agora mesmo."

Meus olhos arregalaram-se para Yusuke.

Agora mesmo?!

"Isso é, depois do café da manhã... ou almoço, talvez."

Dei-lhe um olhar assassino. Estava ansiando por um dia calmo dentro de casa... e ele queria ir às compras?!

"Você vem, kaasan, não vem?" ele perguntou numa voz melosa.

Sorri docemente. "Claro que vou."

"Legal!" Sakura exclamou. Yusuke riu e saiu do quarto dela, carregando-a sobre os ombros e obviamente ignorando meus olhos.

Se pelo menos Sakura não estivesse ali, poderia tê-lo estrangulado até que ele ficasse verde... de verdade.

A noite era jovem quando chegamos em casa após as compras. Yusuke dirigiuo carro calmamente. Sentei-me no assento da frente, olhando pela janela, enquanto Sakura dormia no banco de trás.

Sakura. ela era a única razão pela qual Yusuke e eu adiavamos o divórcio.

Quando Sakura nasceu, Yusuke caiu no choro, e me disse várias vezes o quanto me amava e o quanto ele amava me ter como esposa. E eu lhe disse, várias vezes também, que eu o amava tanto quanto e não trocaria ele por nada no mundo.

E então... a química que tinhamos desde os catorze desapareceu lentamente enquanto começamos a trabalhar, ele como um gerente de restaurante, eu como professora de ensino fundamental. Então chegou a hora em que não reconhecíamos um ao outro, até que conversas gentis foram substituídas por discussões ofensivas... até que eventualmente, me cansei de tudo.

Eu disse a ele o que queria. O divórcio.

Mas Sakura... uma criança tão inocente. Ela nem mesmo sabia o que estava acontecendo com os pais. Em breve, sua mãe teria de partir e seu pai teria que explicar tudo para ela. E ela teria de viver numa casa grande com o pai como única companhia.

Ela era somente uma criança!

Respirei com severidade. Yusuke deve tê-lo sentido.

"Tudo bem?" ele perguntou suavemente.

"Claro que não," repreendi. "Acha mesmo que pensar no que nosso casamento se tornou me faz bem?"

Yusuke manteve os olhos na estrada. Sabia que ele já estava acostumado às minhas explosões repentinas. "Lá vem você de novo, falando nisso. Sakura está bem atrás de nós!"

"Tenho pena dela, porque aqui estamos nós, fingindo que estamos bem, quando não estamos!"

O carro parecia ter aumentado a velocidade. "Acha que não sei disso, Keiko?" ele perguntou, sua voz se elevando. "Estamos pelo menos fingindo por causa de Sakura!"

"Sabe que temos que esperar até que Sakura se torne adolescente?"

Ouvi um resmungo no banco de trás. Verifiquei Sakura, que estava movendo-se no sono. Eventualmente como se acabasse de ter um sonho momentâneo, ela deitou-se pacificamente de novo.

"Como está Sakura?"

Olhei furiosa para Yusuke. "Graças a você, ela está bem," disse sarcasticamente.

Yusuke abriu a boca para falar. Então, como se fosse sobrepujado por um segundo pensamento, fechou-a novamente.

"O quê?" exigi.

Yusuke balançou a cabeça. "E-estamos em casa."

Não me dei conta. Estávamos virando uma esquina, onde nossa casa de dois andares se erguia.

"Ei, Sakura-chan, estamos em casa," Yusuke cantarolou. Rolei meus olhos, sai do carro e abri o portão de nossa garagem para deixar o carro entrar.

Depois, Yusuke e eu carregamos toneladas de sacolas de compras do carro para a casa, enquanto Sakura abria uma atrás da outra no nosso santuário.

"Podemos montar a árvore de Natal agora, toochan?"

"Agora?" Yusuke repetiu. "Mas... pensei que estivesse com sono?"

Sakura balançou a pequenina cabeça teimosamente, rabos de cavalo pretos balançando de um lado para o outro. "Não, não estou! Onegai, toochan? Kaachan?"

Os grandes olhos castanhos de Sakura estavam tão pedintes que nenhum de nós conseguia resistir. "O que acha, kaasan?"

Dei de ombros, sorrindo. "Por que não?"

Yusuke sorriu para mim, e então para Sakura. "Certo, teimosa."

"Legal!" Sakura saltitou de prazer, correndo para Yusuke e abraçando-lhe a perna. "Muito obrigada!"

"Ah, Sakura," Yusuke emocionou-se, inclinando-se e pegando-a no colo.

Balancei minha cabeça vagarosamente. Sakura definitivamente mais intíma do pai do que de mim. Não podia condenar isso.

Mas se me lembrava corretamente, diria que eu era assim tão doce com Sakura há alguns meses... ainda mais doce....

"Vou subir e me trocar," disse a Yusuke, caminhando vagarosamente até o andar superior.

Yusuke ergueu as sombracelhas num gesto de súplica. "Qual o problema? Não quer nos ajudar?"

Suspirei. "Virei depois, certo?"

"Ah, kaachan, não faça jantar para mim," Sakura me lembrou.

Não pude evitar de rir. "Claro que não, querida. Acabamos de comer no restaurante!" com isso, continuei a subir.

Quando fechei a porta do nosso quarto, ela abriu-se novamente, revelando Yusuke, perguntas escritas por todo seu rosto.

"Saia, Yusuke," resmungei para ele. "Quero me trocar."

Ele simplesmente entrou no quarto. "Qual é o problema? Costumávamos nos ver completamente nus."

"Costumávamos," eu ecoei, sentindo o sangue aumentar nas minhas bochechas. "Isso foi antes." Antes que ele pudesse ver meu rosto se enrubecer ainda mais, voltei minhas costas para ele.

"Então não podemos fazer isso novamente, hum?"

"Damatte."

Eu o ouvi soltar um imenso suspiro. "Certo."

"Bem. Agora você vai sair daqui?"

Silêncio.

E então, a porta se fechou.

Suspirei, querendo chorar, mas não podia. Todas as minhas lágrimas já haviam se secado há alguns meses.

Balançando a cabeça, comecei a desabotoar minha blusa.

"Pode me fazer um favor, Keiko?"

"Droga, Yusuke!" murmurei, voltando meu rosto para encará-lo.

Yusuke ergueu ambas as mãos. "Onegai?"

"O quë é?!"

Yusuke aproximou-se cuidadosamente, como se temendo uma bofetada minha. Vagarosamente abaixou as mãos, e o olhar de surpresa no rosto dele abriu caminho para um... quase almost suplicante, quase desanimado.

De algum modo, seu olhar suavizado também suavizou meus sentimentos - por enquanto.

"É... nosso divórcio." ele inalou profundamente antes de continuar. "Você pode... esperar... até que o feriado passe... antes de ir embora?"

Olhei cuidadosamente para ele, surpresa com suas palavras. Ele queria que eu ficasse? Engoli em seco, temendo que aqueles olhos iguais a jóias dele podessem de fazer sucumbir aos seus braços.

"Por-porquê?" perguntei, bem incerta.

"Bom... só pensei que talvez nós três podessemos ficar juntos durante o Natal. Sabe... comemorar como uma família feliz."

Com a menção de família, ri cinicamente. "Uma família feliz."

Yusuke piscou duas vezes, parecendo nervoso. "Olhe... podemos pelo menos tentar, certo?"

Mordi meu lábio. Não, eu sabia. Eu tinha planos. "Na verdade... estou planejando ir embora semana que vem."

"Semana que vem?!"

"É. Ir embora. Semana que vem. Entendeu?" de algum modo, queria fazê-lo sofrer ainda mais.

"Mas... por que tão cedo?"

Sorri docemente. "Por que, Yusuke... tem medo da responsabilidade?"

Os ombros de Yusuke tombaram para frente. Percebi que estava me divertindo com isso. "Tudo bem, admito, estou com medo." Yusuke passou uma mão pelo cabelo preto.

"E você se diz um Reikai tantei."

"Não lidando com um youkai, Keiko. Estou lidando com você... Sakura ...minha família."

"Lidando com a família? Não posso fazer o serviço de casa quando se for, Yusuke."

"Aliás, por que você quer deixar Sakura comigo?" a voz de Yusuke elevou-se. Podia sentir meus arredores se tensionando. "Com medo da responsabilidade, heim? É isso, Keiko?"

As palavras dele me feriram demais. Mas estava paralisada; não conseguia sentir nada, não importava o quão duras eram suas palavras. Pensando nisso, talvez eu o ferisse ainda mais.

Quando percebi que não tinha mais nenhum contra-ataque inteligente em mente, sai do quarto. Não cheguei a mudar de roupa.

"Keiko, por favor?" ouvi Yusuke chamar por detrás, enquanto me apressava para descer as escadas.

"Estou aqui, Sakura-chan," disse animadamente, ignorando os apelos de Yusuke.

"Kaachan... Pensei que você tivesse ido trocar de roupa."

Nossa. Não tinha idéia de que Sakura estava assim tão esperta para cinco anos. "Ah... Eu... mudei de idéia," I fibbed menti, enquanto andava até ela. Ela estava examinando a imagem de um anjo, uma que seria posta no topo da ávore de Natal.

Seus dedinhos gorduchos arranharam o rosto do anjo habilmente, como se fosse sua própria obra de arte. Lentamente, ela passou a mão pelo tecido do robe do anjo, rindo consigo mesma quando sentiu cócegas por causa da renda dourada.

Minha bela Sakura. Yusuke e eu demos este nome depois que as flores de sakura floresceram no aniversário dela. Era primavera então, e o doce aroma de cereja entrou no meu quarto de hospital, enquanto ele cuidava de mim. E eu notei o quão rosas estavam minhas bochechas. Sakura parecia muito com o pai, e ela parecia até mesmo adotar a natureza alegre e desordeira dele.

"Falei pro toochan para pegar a árvore."

Sai dos meus devaneios com a voz de Sakura. "Como?"

"Ele foi no sotão pegar a árvore de Natal, as luzes, as bolas...."

"Ah." sorri sem graça. "Cla-claro."

"Ei, estou aqui!" Yusuke entrou, segurando uma imensa caixa de cartolina que continha as peças soltas para nossa árvore de Natal artificial de 2,5 metros. Enquanto ele puxava a caixa facilmente para o lado de Sakura e eu, notei o bíceps dele avolumando-se debaixo da camisa de manga longa. Ele abaixou-a. "Ufa. Agora, as luzes!" correu para o andar superior novamente.

Sakura, firmemente acreditando que tinha força para carregar a caixa como o pai fez, pegou uma ponta e começou a puxar. "Oomph!" ela resmungou, puxando com força, mas sem conseguir mover um milímetro.

Sorri comigo mesma. Eu diria que Urameshi Yusuke era o herói Sakura. Uma vez, até mesmo ouvi-lo contar-lhe uma história de ninar quando ela pediu.

A história era sobre quatro jovens que foram para outro mundo para pegar uma flauta. Uma que controlava insetos que transformavam os humanos que mordiam em zumbis. Eles acabaram com os três primeiros youkai que encontraram, quando o líder do grupo de repente descobriu que sua melhor amiga, que estava no mundo dos homens, estava sendo perseguida por esses zumbis. E ele foi lutar com o último youkai, até que esgotou sua energia, quando esta garota, sua melhor amiga, gritou por ele. E ele conseguiu seus poderes de volta e derrotou o youkai.

Soava como um conto de fadas. "E eles viveram felizes para sempre," Yusuke terminara. E enquanto observava ele e Sakura, ele voltou-se e olhou para mim. E sorriu feliz.

Se ao menos os dois personagens realmente tivessem vivido felizes para sempre.

Agora eu tinha mais noção. Um conto de fadas não terminava num casamento. Termina até o fim.

Para Yusuke e eu, o fim estava se aproximando.

Peguei as mãos de Sakura e sorri para ela. "Deixe seu touchan erguer a árvore, certo?"

"Ah... aqui está," Yusuke disse, carregando mais uma caixa, agora muito menor. Ele colocou-a ao lado da outra caixa e sorriu para eu e Sakura. "Vamos começar, certo, garotas?"

"Hum," bufei, levantando-me. "Claro."

Yusuke começou a pegar os galhos de plástico verde escuros da caixa grande um a um e prendeu-os num poste também de plástico. Sakura e eu ajudamos no serviço. Depois, Yusuke colocou a árvore na base e enrolou o fio de 20 metros de pisca-pisca. Então, penduramos os enfeites dourados, as bolas multicoloridas, uma variedade de flocos de neve de alumínio, e pequenos papai noéis, renas e anjos aqui e ali. Finalmente, Yusuke pôs Sakura sobre os ombros e segurou-a de modo que ela colocasse o maior enfeite no topo da árvore: a figura de um anjo.

"Tudo bem," Yusuke congratulou Sakura. Ele a pôs no chão e saiu para ligar as luzes.

Sakura apressou-se até mim. "Fiz um bom trabalho com o anjo, certo, kaachan?" ela perguntou.

Pus uma mão na cabeça dela e desarrumei seu cabelo levemente. "Sim. Fez muito bem."

Enquanto voltava a fitar o anjo, fui momentaneamente cegada pela luz amarela que repentinamente brilharam na árvore.

"Uau!" Sakura arfou de prazer.

Pisquei os olhos. E eu também pensei, uau. As luzes de Natal piscaram como milhares de estrelas amarelas na árvore de Natal artificial. A árvore, apesar de ser a mesma, não brilhava deste modo no Natal passado. Talvez os anjos e flocos de neve que Yusuke comprara aquele dia houvessem feito a diferença....

"Agora tudo que precisamos são presentes sob ela," Yusuke começou, colocando-se entre Sakura e eu, "e claro, de toda família reunida em volta."

Atirei um olhar para Yusuke. Ele simplesmente olhava fixo para a árvore, os olhos sem piscar, um braço em volta de Sakura.

E eu me perguntei se ele montara a árvore de modo a me convencer a ficar... pelo feriado.

Traduzido por Rechan // Título Original: Falling in Love All Over Again


xx março 2004
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