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Um Elo Com o Passado
por Rechan

Capítulo 1 - Rapto

A brisa fria do Makai brincou com os cabelos castanhos da mulher que observava aquela terra do alto de um penhasco. Respirou fundo. Voltar a esse lugar depois de tanto tempo lhe trazia de volta a mente imagens que gostaria de ter esquecido. Já se iam 21 anos... Somente seu irmão mais novo a faria voltar aqui. Não que tivesse pedido. Ele *nunca* faria isso, mas as notícias que ela tinha ouvido iriam trazer problemas, tinha certeza.

Virou-se em direção a planície atrás de si e por um momento, reviu a cena da última vez que tinham se visto, as palavras ainda ecoando em seu cérebro.

"Não aguento mais você! Não preciso de você para sobreviver, posso muito bem me cuidar sozinho!" Seus olhos faiscavam de raiva.

"Tem certeza que pode? Acha qua já sugou de mim tudo que podia, não é pequeno? Você não passa de uma criança e seu poder é ínfimo. Sua arrogância ainda o levará a ruína!" Ante a essas palavras, ele havia desembainhado a katana, mas ela já havia dado-lhe as costas. Sabia para onde iria, para o lugar para onde sempre quisera retornar. Mesmo assim, grossas lágrimas escorriam-lhe pela face, por ter de deixar pra trás algo precioso.

Um youki se acentuou pelas árvores próximas. Logo uma sombra se formou entre elas.

"Vai voltar para nós, Hiryu?" perguntou a sombra, numa voz fria, impessoal.

"Não, estou só de passagem. O que quer de mim?"

"Traga-me seu irmão. Meu sangue corre em suas veias. Preciso conhecê-lo!"

"Esqueça. Já lhe disse uma vez que por mim não saberá nem mesmo seu nome." O cenho se franziu, as palavras começaram a soar ríspidas. A língua ia se tornando ferina novamente. Em seu sangue, assim como o do seu irmão, corriam chamas que nunca poderiam ser extingidas facilmente.

"Você também é minha filha, menina, mas não ache que só por isso, pode me desafiar. Diga-me ao menos o nome!" Em seu rosto começava uma mudança, um brilho flamejante nos olhos âmbar.

"O nome?" retorquiu Hiryu, em tom sarcástico. Sim, outra característica repartida com seu basshi, "Se quer saber, pergunte as chamas..." Dizendo isto, jogou seu corpo no penhasco, sua forma graciosa realizando um mergulho nas águas do rio que passava lá embaixo.

Atsuko entrou no quarto de Yusuke com uma expressão zangada. Já o estava chamando a um bom tempo e o garoto continuava a dormir. Sacudiu-o diversas vezes, lembrando-lhe da escola, não cansando de repetir o quanto ele havia perdido naqueles 3 anos de férias auto-impostas, em que ela nem sabia para onde ele tinha ido.

O telefone tocou, fazendo-a interromper seu trabalho matinal de levantar seu filho. Urameshi já havia aberto os olhos e preparava-se para dormir de novo, quando a cabeça de sua mãe apareceu avisando que tinha de atender o telefone.

"Alô!" Sua voz estava sonolenta, a cabeça ainda no travesseiro.

"Yusuke, preciso de sua ajuda!" Gritou a voz infantil de Koenma do outro lado da linha.

"A-ah, o quê? Mas como você está me telefonando?" Atsuko olhou para o filho, que recebia o telefonema espantado.

"Deixa de ser bobo, rapaz, acha que não posso ligar do Reikai? Estou com um problemão nas mãos e quero saber se podemos nos encontrar aí, à noite."

"Escute aqui, kohyoo" Urameshi baixou a voz. "E a minha mãe? Não sei se posso me livrar dela."

"Dê um jeito!"

Yusuke ia rebater, mas o baixinho já havia desligado. Até que ele não se importava em se meter em mais encrenca espiritual, afinal não mexia com isto há dois anos, desde que voltara do Makai Tournament. Como não era mais Detetive, não recebia mais missões.

Engraçado, o baixinho não havia sequer mencionado qualquer coisa a respeito de Kuwabara, Kurama e Hiei. Os quatro eram amigos, com certeza, mas Yusuke quase não via Kurama mais (fora algumas vezes que ele, Kuwabara e Yusuke saiam para matar saudade) e Hiei havia sumido; só o tinha visto uma vez após o torneio.

Yusuke foi até a cozinha, onde se encontrava sua mãe.

"A senhora pretende ficar em casa hoje à noite?"

"Huh? Por quê?"

"Nada não. Pode deixar." Yusuke já estava saindo, cara fechada, pensando em como ia contatar Koenma.

"Se quiser, posso ir visitar minhas amigas. Mas não quero ver minha casa destruída quando voltar, heim!"

Yusuke Urameshi arregalou os olhos, voltando-se para a mãe. Esta o olhou com um largo sorriso.

Urameshi estava no sofá, assistindo TV, sonolento. Era tarde e ninguém tinha aparecido. Atsuko havia saído fazia uma hora. Onde diabos Koenma se meteu?

O rapaz se levantou para ir até a varanda, quando enfim, a campainha soou. Com um sorriso de excitamento pela aventura que estava por vir, deu meia volta e foi atender a porta. Ao abri-la, deu de cara com Botan, Koenma, Kuwabara e Kurama, além de um garoto de uns 14 anos. Todos foram entrando e cumprimentando Yusuke, com exceção do desconhecido, que apenas o observou, com cara sisuda.

Todos foram direto se acomodar na mesa da sala.

"Yusuke, este é Masato Miyaki, novo Detetive." disse Koenma, apontando para o desconhecido, e continuou "ele foi escalado há quase um ano e é muito bom, mas com o que vamos enfrentar, achei que ele precisaria da ajuda de vocês."

Urameshi fez um leve cumprimento de cabeça para o rapaz, pensando que definitivamente, não ia com a cara dele. Foi só então que deu pela falta de alguém.

"Cadê o Hiei? Você não o chamou, kohyoo?"

"Parece, Yusuke, que o problema tem a ver com o Hiei." Kurama respondeu.

"Quer dizer que o espetadinho já voltou a aprontar das suas?" perguntou Kuwabara.

"Escutem. No Makai existe um famoso mercenário assassino chamado Obaki. Dizem que seu poder é imenso e que ele pertence a classe S. Não sabemos exatamente a extensão de seu poder ou qual seja a manifestação de seu youki..."

"Vá direto ao assunto Koenma. O que ele tem a ver com o Hiei?" interrompeu Urameshi.

"Quer me deixar terminar, criatura?"

"Tá, tá. Desembucha logo."

"O fato é que o Hiei desapareceu." Os rostos do Yusuke, Kuwabara e Kurama mudaram de expressão no mesmo instante. O mesmo pensamento passou pela cabeça de todos. Foi Kurama quem falou primeiro.

"Você quer dizer que esse cara matou Hiei?"

"Não. Ficamos sabendo que ele estava numa taverna do Makai e Obaki chegou lá desafiando-o. Vocês sabem como é o Hiei, não recusa desafios. Segundo testemunhas, ele foi derrotado em pouco tempo, mas em vez de matá-lo, levou Hiei consigo. Isso se deu há quatro dias." Koenma terminou olhando para todos os rostos, agora fixos nele.

"E eu? Onde entro nisto?" perguntou Masato, com voz irritada. Todos os olhares convergiram para ele. Yusuke sentiu vontade de socá-lo.

"Você não entra, a não ser que queira. O rapto aparentemente nada tem a ver com Reikai ou Ningenkai, portanto, está fora da sua jurisdição. Esta é uma missão extra-oficial." Koenma respondeu, calmo. Sabia que o garoto tinha uma personalidade instável, Botan, coitada, vivia reclamando que esse menino era mimado. Na verdade, só o havia designado Detetive porque ele tinha um reiki forte. Perguntava-se se conseguiria achar Detetives tão bons quanto Sensui Shinobu e Yusuke Urameshi o foram. "Eu o trouxe porque pensei que talvez você quisesse conhecê-los e talvez aprender um pou..."

"Ei! Você não está achando que vamos bancar a babá, não é?" Urameshi pôs-se de pé, a cara fechada, apontando um dedo para Koenma.

"Sabe que eu nem queria ir? Detesto youkais e de bom grado deixaria tudo para vocês." Masato respondeu, calmo; num instante, seu rosto e voz tornaram-se agressivos. "Mas agora eu vou, embora ache uma estupidez se preocupar com um youkai idiota."

"Esse youkai idiota é meu amigo, seu imbecil, portanto feche a boca se não quiser que eu te mande pro Reikai agora mesmo com meu soco!" trovejou Urameshi.

Koenma percebeu que se não falasse algo logo os dois estariam trocando socos.

"Botan, você vai com eles!"

A garota, durante todo o tempo distraída, concordou com um grito.


xx março 2004
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