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Um Elo Com o Passado
por Rechan

Capítulo 4 - Uma Rosa Num Coração de Youko

"Murizashi-chan, você não está se concentrando!" gritou a garota de olhos negros sentada ao seu lado. "Temos muita matéria para estudar ainda e você aí, no mundo dos sonhos!" ela assumiu uma expressão zangada. Fazia dois dias que sua amiga estava assim. Agora as provas da faculdade tinham começado e ela não saía da letargia.

Akane pareceu despertar ante as palavras da amiga, enquanto respondia. "Hum. Gomen nasai. É que estou me sentindo estranha ultimamente."

"Como assim, está doente?"

"Hn. Não. acho que não. Mas nunca fiquei assim. Estou me sentindo estranha desde que..." Akane parou, engolindo o resto da frase.

"Desde? Fale, o que houve com você?" insistiu Makoto.

"Nada, já disse." disse Akane, em tom firme, de modo a impedir novos questionamentos.

Shiori estava lavando a louça do jantar e volta e meia lançava olhares para o filho mais velho. Ele se encontrava na sala, sentado no chão, olhando a TV. Sim, só olhando, pois podia-se perceber facilmente que sua cabeça não estava ali. Há poucos dias ela havia notado esta mudança; ele parecia enfeitiçado. Pensara que ele talvez estivesse com algum dificuldade na escola, mas ele sempre fora o melhor aluno... Shiori sorriu e voltou a olhar para a pia. Desde que nascera, Shuuichi sempre fora assim, buscando fazer o melhor para lhe agradar. E na noite passada, ela tivera a certeza do que o afligia. Sabia disso, pois, sem querer, ouvira-o perguntando para Yusuke no telefone se 'ela' havia aparecido... Foi então que juntou as peças... Deu uma risadinha, lançando um novo olhar, um olhar amoroso para seu filho. A.paixonado. Ele estava completamente apaixonado. Nunca o vira assim, Shuuichi nunca demonstrou nada mais que amizade pelas meninas que conhecia. E essa mudança, assim, de repente! Gostaria muito de conhecê-la. Saber que tipo de garota o tirou assim, do nada, do mundo! Sim, porque agora, Shuuichi Minamino parecia viver num outro mundo.

"Kaasan," Shiori ergueu os olhos, para encontrar o rosto de seu filho. "Eu vou dar uma volta. Espairecer a cabeça."

"O que lhe pertuba, Shuuichi? Por que não fala pra mim?"

"Não posso falar, kaasan, porque nem mesmo sei o que há comigo." disse simplesmente, e saiu.

Durante o caminho de volta para casa, Akane ia pensando na frase que dissera. 'Estou me sentindo uma tonta desde que...' ela parara quando percebera algo. Ela ia terminar dizendo 'desde que conheci Kurama'! O que ele estivera fazendo com ela? Aqueles olhos de esmeralda a tinham amaldiçoado. Não tinha a menor noção do sentimento que invadia seu coração agora. O que é isto? Que sentimento é este? Estivera evitando ao máximo ter de entregar o mapa a Urameshi, pois isso talvez significasse revê-lo. M-mas, o que estou fazendo? Me preocupando com os olhos do Kurama, com medo de encará-los novamente? E com Hiei preso por aquele louco do Obaki!

Estava tão distraída com seus pensamentos que não reparou que estava indo de encontro a uma pessoa que estancara ao vê-la. Chacaram-se.

"Go-gomen na..." começou Akane, mas parou ao ver quem era. "Kurama?"

"Konba wa Akane-san. O que está fazendo na rua a esta hora?"

"O que faço ou deixo de fazer não da sua conta." disse ela, indo embora. Porém Kurama a alcançou.

"Desculpe se me intrometi, foi só curiosidade, já está tarde..." começou.

"Hn."

"Onde está o mapa? Há dois que estamos esperando. O Hiei..." Kurama procurava um assusto para fazê-la conversar com ele de qualquer maneira. Por que estou agindo assim?

"Huh? Tenho andado ocupada. O mapa está em minha casa. Amanhã a noite eu entrego a Urameshi. Avise a ele, sim? Tenho que ir." Akane saiu correndo, querendo evitar que o youko a alcançasse.

Kurama ficou parado, vendo-a se afastar. Não queria enganar-se mais. Iria conquistá-la a qualquer custo.

Yusuke e Kurama conversavam no quarto do primeiro. Urameshi vestia as mesmas roupas simples de sempre, mas seus cabelos negros caíam numa franja na sua testa. Estava sentado na cama, ouvindo o rapaz de cabelos castanhos, quase vermelhos, contar a respeito do mapa. Alguma coisa nele mudou. É uma mudança bem sutil, não dá para perceber sem conhecê-lo direito. O youko sempre fora alegre e jovial, mas também um tipo melancólico. A não ser sua verdadeira origem e o fato de ter sido um ladrão muito famoso no Makai, Yusuke não sabia mais nada sobre ele. Nunca contara, nem mesmo fizera menção de fazê-lo. Podia se lembrar de uma vez que Kuwabara pedira-lhe que contasse, mas ele desconversou, dizendo ser uma história muito longa.

"Yusuke?" perguntou a voz alma de Minamino Shhuichi. O outro rapaz quase pulou na cama, voltando a ealidade. "Você está me ouvindo?"

"Ah-ah. Cl-claro."

Kurama olhou-o com uma expressão incrédula e levantou-se da poltrona em que estivera sentado. "Aquela garota. Tem algo de errado nela, Yusuke, mas por mais que tente, não consigo descobrir o que é. E essa história dela conhecer Hiei..."

"Ela é meio estranha mesmo. O Hiei nunca lhe falou nada sobre ela?" Urameshi começou a vislumbrar um motivo a ligeira mudança do amigo. "Mas acho que você a achou bem interessante, ne? Esse ar de mistério a rodeando."

"Conheço Hiei há 16 anos, mas ele nunca sequer mencionou seu nome." Kurama achou melhor ignorar o comentário sobre seu interesse sobre ela.

Houve uma batida na porta enquanto ela se abria revelando Botan. "Olá!" cumprimentou ela.

Kurama não conseguiu deixar de expressar uma expressão de desapontamento. "Acho que ela não vem, Yusuke. Amanhã vou procurar Koenma para que ele me dê o enedereço dela e vou pegar o mapa eu mesmo."

"Ah, não precisa fazer isso!" comentou Botan. Os dois olharam para ela. A garota de cabelos azuis um papel do bolso dos jeans que estava vestindo e o entregou para Kurama. "O mapa está aqui. Akane entregou-o a mim. E pediu que vocês não dissessem a Hiei que foi ela quem os ajudou."

"Ótimo! Finalmente poderemos partir pra cima desse tal de Obaki!" disse Urameshi.

A raposa assentiu, mas seus olhos verdes continuavam a repetir seu desapontamento.

Kurama terminou de abotoar a camisa de seu pijama, preparando-se para dormir. Não quisera admitir para seu amigo seu interesse por Akane, mas para si mesmo já não procurava mais esconder. O rosto de Minamino mostrou um sorriso. Desde que começara a viver como um humano, ele passara a aprender a sentir uma enxurrada de novas emoções, sentimentos que o verdadeiro youko que habitava esse corpo desconhecia.

O rapaz deitou-se com os braços cruzados sob sua cabeça. Vinte e um anos. Muito tempo para um humano, nada para um youkai. Esse período de tempo no corpo de Shuuichi Minamino não era nem mesmo um sexto de sua vida como youko. E em toda essa existência, Kurama não aprendera a amar. Claro, havia sua mãe ningen, Shiori. Mas o amor filial não era nada comparado a apaixonar-se por alguém. A raposa fechou os olhos e suspirou. Hiei... ele era apenas um jovem youkai do fogo; para ele, Kurama, o koorime era como um irmão mais novo. A afeição e preocupação que demonstrava para com ele ultrapassava os sentimentos que ele nem sequer tivera pela sua família de youkos. Kurama sorriu ao lembrar de Kuwabara-kun fazendo piadas sobre seus cuidados com Hiei. O pequeno youkai pulara no pescoço do ningen, tentando estrangulá-lo, foi difícil para ele e Yusuke-kun separar os dois. Ele também não gostara das piadas, mas tratou disso depois, com uma ameaça bem discreta aos dois rapazes. Ambos prometeram ficar calados. Sem mais piadas ou insinuações. Sabia que tudo também se devia ao fato dele nunca ter demonstrado interesse por nenhuma ningen, coisa que Yusuke e Kuwabara não esqueciam de fazer. E agora, havia alguém em seu coração. Pela primeira vez em séculos de existência.

Kurama pôs uma mão no cabelo e retirou de lá um botão de rosa. Canalizando um pouco de seu youki para a flor, esta começou a desabrochar, revelando uma exuberante rosa vermelha. Rindo alto, ele a pôs sobre seu coração e procurou adormecer.

Hiei estudava cuidadosamente o aposento para o qual fora transferido. Não estava mais com as amarras, podendo se mover livremente, mas sabia da presença de um estranho youki em seus pulsos que lhe impediam de liberar seu kokuryuha. Também sentia-o nos pés. Deram-lhe permissão para lavar-se e trocar de roupas, tirando aquelas cheias de sangue coagulado, mas se recusara. Em seguida, fora levado até ali. A câmara não era muito grande, mas parecia ser usada como um centro de treinamento.

Antes mesmo de sentir o youki, seu jagan lhe avisou aproximação de alguém. A figura alta e imponente de Obaki surgiu na porta, tranzendo consigo duas espadas. Pelo seu olhar, Hiei podia ver que ele estava satisfeito com o que ia ocorrer. O youkai lhe ofereceu uma das katanas.

"Eis sua katana. Irei retirar o youki que o está impedindo de liberar seu dragão. Então vou querer uma demonstração melhor de seu poder, Hiei. A última que tive foi decepcionante."

"Baka. Acha mesmo que vou gastar meu youki com você? Sei muito bem que o youki presente nos meus pés vai impedir que eu dê um passo para fora aqui." respondeu o koorime, pegando sua katana.

Obaki soltou uma gargalhada. "Sim, não queremos que você caia adormecido no meio de um combate, não é? Vamos, garoto. Se você me convecer de que vale a pena, vou ajudar-lhe a melhorar sua técnica. Dormindo toda vez que libera o Ensatsu Kokuryuha, não vai conseguir chegar muito longe."

"Não me interessam suas opiniões," Hiei gritou, desaparecendo de onde estava; logo seu corpo se materializou sobre Obaki. O youkai levantou sua espada, bloqueando o ataque, enquanto desviava seu corpo para o lado. Hiei parou em frente a ele. "Matar você é a única coisa que me interessa agora!" o koorime empunhou sua espada a sua frente, voltando a atacar Obaki por todos os lados, tentando descobrir uma brecha na defesa perfeita que o outro parecia ter.

O sol ameno daquela manhã de primavera anunciava um dia perfeito. Yusuke, Kuwabara, Kurama e Masato se encontravam na parte externa do Templo de Genkai. Enquanto o portal para o Makai era aberto por Kurama, Yukina recomendava cuidado a Kuwabara. Masato e Urameshi trocavam olhares enfurecidos. Já a raposa... Esperava encontrar Koenma hoje. Talvez o convencesse a me contar a verdade sobre Akane Murazashi. Não tinham noção da força do inimigo. Provavelmente, era muito forte, pois havia derrotado Hiei... Pela primeira vez, a possibilidade de não retornar a ver os olhos ambar de Akane penetrou na sua mente, e uma dor tomou conta de seu coração. Não. Não importa o que aconteça lá ou qual seja o passado dela. Eu vou voltar e ela será minha! Sabia que seria assim, pois o youko que morava dentro de si não admitia derrotas. Nunca.

O portal estava concluído.

"Akane?" Yusuke falou. Kurama voltou-se imediatamente. Akane estava ali, nas escadas que levavam ao jardim do templo, os longos cabelos castanhos soltos, vestindo um colete branco e calças jeans. Ela carregava algo envolto num pano marrom, velho.

"O que você está fazendo aqui?" Masato perguntou, enquanto ela terminava de descer os degraus. A garota parou em frente a Urameshi.

"Mudei de idéia. Eu vou com vocês."


xx março 2004
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