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Enquanto o Gelo Derrete
por Rechan

Parte 2 - O Silêncio de Hiei

Eu salto do galho que estou para o seu túmulo. Não sei por que estou aqui mais uma vez. Mas a verdade é que sinto sua falta. Arrependo-me agora de nunca ter te contado sobre seu oniisan. Porém, acho que você não gostaria da identidade dele. Não importa mais, mais importante agora é te desejar paz onde quer que esteja.

Atiro uma rosa branca no túmulo. Peguei-a no jardim dos Minamino. Não se esta é a sua flor favorita ou não, mas... Achei que não podia chegar aqui de mãos vazias, como sempre fiz. Você me pediu para procurar pelo seu irmão gêmeo, e nunca soube porque você o fez. Para proteger meu segredo, te disse que *ele* estava morto, em vez de estar bem na sua frente, balbuciando toda aquela tolice.

Eu me agacho e minha mão direita vaga pela terra do túmulo. A grama ainda nào cresceu aqui. Engraçado, ainda consigo sentir seu ki, profundo na terra, mesmo depois de seis dias. Meu punho se fecha e aperto meus dentes enquanto me lembro da cena de sua morte.

Dor, dor pecorre meu peito até aparecer na minha garganta e ela se apertar. É sufocante, e não sei como aliviá-la. Meus olhos começam a arder, então os fecho. Preciso libertar isso, mas não faço. Nem mesmo sei como. Inesperadamente, porém, um soluço balança meu corpo, logo sendo seguido por muitos outros. Meus olhos, ele ainda estão secos, doendo e os sinto inchados. Estou de quatro, sentindo como se todo meu corpo quisesse cavar aqui e descansar lá no fundo.

Yukina... Eu preciso de você. Desde o dia em que nascemos fui negligenciado pelo meu próprio povo, tive de me virar sozinho. Só era um bebê. Tornei-me um guerreiro ameaçador e cruel, que apenas encontrava sua paz quando admirando um pequeno presente de sua infância: uma jóia de lágrima. Comum ao meu comportamento, me dirigi a terra dos koorime para encontrar aqueles que uma vez me desprezaram. Em vez disso, descobri que nada ali vali a pena matar. Apenas descobri um segredo escondido de mim. Uma outra criança nascera comigo, uma garota chamada Yukina, que estava desaparecida...

Desde que soube de sua existência, irmã, me esforcei ao máximo para achá-la. Mas para quê? Tudo bem, eu a resgatei daquele nojento ningen, mas mesmo assim, para quê? Quando você me perguntou quem diabos eu era, minha única resposta foi que eu era um dos companheiros de Kuwabara. Minha mentira ficou mais forte a partir de então, não pude controlá-la. Não havia meio de voltar e recomeçar. E de que isso importa agora? Você está morta, esta é a questão. Gostaria de pedir a Enma Daiou para trazê-la de volta. Descubro-me sorrindo em falso. É a coisa mais absurda para se pensar. Enma Daiou me agradando!

Acho que percebe o quão impotente me sinto agora. Logo eu, um dos youkais mais temidos. Lutei contra tudo e todos mas não posso suportar sua morte. Morte, algo que enfrento desde que era um bebê; sempre a superei, sempre a dei como um presente especial para os fracos. E agora ela veio para levá-la, mostrando-me quão fraco eu posso ser.

O vento sopra pelo cemitério. levanto minha cabeça, olhando para o céu. Está ficando escuro, talvez chova esta noite. Levanto-me e meus olhos encontram o chão mais uma vez. Olho fixadamente para seu túmulo mais alguns minutos, então percebo uma mão no meu ombro esquerdo. Nem mesmo olho para trás, reconheço seu ki imediatamente. Fico embaraçado e envergonhado de ser visto deste jeito. Mas, de algum modo, o fato de ser ele alivia bastante.

"Ela não devia estar lá... Se aquele babaca-" paro a frase, sem saber porque.

"Não foi culpa dele. Ela pensou que poderia ajudar," a mão em seu ombro apertou um pouco, como que tentando dar algum comforto. "Ninguém tinha notícias suas desde então. Todo mundo ficou preocupado."

"Sem piadas," sorrio em falso.

"Não estou brincando. Olhe, Hiei, você não foi o único que se feriu quando ela morreu,"

"Não ouse me comparar com aquele estúpido ningen!!" eu grito, enquanto arranco a mão de mim. Viro-me violentamente. Meus olhos estão estreitados, queimando fogo, sei que meu rosto está sombrio. Meus dentes se apertam com a minha angústia.

Observo Kurama fechando seus olhos e abaixando sua cabeça, suspirando. Ele balança sua cabeça , como se esperando por aquela reação minha. Então, por que veio aqui me aborrecer? "Como me encontrou?" pergunto.

Com seus olhos ainda fechados, sua voz suave sai: "Bem, tinha certeza de que você deveria aparecer aqui cedo ou tarde. Na verdade, foi um questão de esperar por você."

"Para quê?" meu tom se suaviza um pouco. Eu não sei se é sua intenção ou não, porém conversar com ele me faz relaxar e minha mente se alivia. Mesmo assim, minha expressão ainda está carrancuda.

Kurama abre seus olhos ante minha pergunta e me olha com aquela expressão melancólica que sempre me confundia.

"Qual resposta você quer eu diga? Ambos sabemos que você vai recusar qualquer uma."

"Por que você simplesmente nào me responde?" digo, entre dentes cerrados.

"Já lhe disse. todo mundo estava preocupado com você e Kuwabara," ele começa.

"Aquele maldito bastardo de novo!-"

"Deixe-me terminar primeiro!" Kurama diz num tom ríspido. "De um jeito ou de outro, a turma tinha certeza que Kuwabara-kun superaria a morte dela. Quem realmente nos precupava era você, Hiei."

Desvio meu olhar. Não consigo acreditar que ele veio aqui para me dizer aquela besteira. Minuto a minuto, a escuridão está cobrindo o Ningenkai. Grossas nuvens cinza escuras estão adornando o céu, avisando a todos os seus habitantes para ficar em casa. Não quero deixar sua conversa continuar, então gradualmente me viro e dou um passo adiante. Porque eu simplesmente não desapareço no ar com sempre, eu não sei. Na verdade, eu paro meu andar prontamente quando Kurama sussurra meu nome, mas não volto nem mesmo minha cabeça.

"Vá para a casa de Kuwabara," ele fala num murmúrio. "Vim aqui para lhe dizer isso. Parece que ele tem uma mensagem para você."

"Hn." sorrio em falso, desta vez olhando para trás. "Que tipo de *mensagem* um retardado como ele pode quere me dizer?" desta vez é o bastante. Depois de ser comparado com aquele baka, sou ordenado para ir vê-lo! Eles realmente acham que estou tão apático assim? Pulo no ar e tão rápido quando posso ser, desapareço. Antes de ir, porém consigo ouvir Kurama me responder:

"... Yukina..."

Grossas gotas de chuva atingem todo meu corpo, não me importo com elas. Só quero sentar aqui, no telhado da casa de Kuwabara, ora pensando em nada, ora ponderando se devo falar com aquele retardado. Por que deveria eu me incomodar com isso? Devo confessar que estou muito curioso sobre o tipo de notícias de Yukina ele supõe ter para me contar. Mas, que droga, como Kuwabara tinha conversado com minha irmã? Uma das minhas sombracelhas se levanta. É estranho.

*Eh. Realmente não gosto dele, especialmente quando ele começava a paquerá-la. Detestava observá-la dando-lhe seus sorrisos calorosos; sua preocupação com o ningen me enojava.* penso, enquanto bufo.

Deslizo até a janela de Kuwabara. Felizmente está aberta, então apenas salto para lá dentro e me sento na sua esrivaninha. O idiota não está aqui, então a única coisa que faço é liberar meu youki um pouco, apenas um modo de dizer-lhe 'Estou em casa, imbecil, venha aqui,' porém realmente me pergunto se aquele panaca entenderia. Segundos depois, sou capaz de ouvir passos frenéticos dirigindo-se para este quarto. A porta se escancara, mostrando o irritado Kuwabara.

Não falo nada, mas mantenho meus olhos focalizando-o. Ele parece estar zangado, mas quem se importa? Ele poderia estar morto, se alguém quer saber. Só quero a mensagem de minha irmã.

"Você esteve rondando minha casa já faz algumas horas. Por que escolheu entrar bem na hora do jantar?" rosna Kuwabara.

"Não estou nem aí se você está comendo. Só quero saber da mensagem que tem para mim." faço uma careta e então sorrio em falso. *Interrompi seu jantar, ótimo...*

Kuwabara fecha a porta, e com sua expressão carrancuda, senta na cama, bem na minha frente. Seu olhar fica sobre mim todo tempo. Ele abre sua boca, mas pára. Finalmente, ouço sua voz:

"Você é um idiota sabe," meus olhos arregalam-se, enquanto meu sangue queima nas minhas veias. Não estou aqui para ser insultado. Acho que ele sente meu youki se revolvendo e diz:

"Não há mensagem. Disse isso para fazer você vir aqui. Porém Yukina-chan me pediu para falar com você," ele começa. Minha raiva está chegando ao seu limite. Uma farsa. Estava na hora de decidir como deveria ser a sua morte. E a da raposa também, já que com certeza ele estava naquilo também. Como ousavam usar o nome da minha irmã...

"Pare de ser tão cabeça dura! E acalme seu youki. Isso não é uma competição, Hiei."

"Co-como você ousa-!" eu digo entre dentes cerrados, perdendo meu controle e me descobrindo de espada em mãos. Deveria assustá-lo, expulsando todo o meu ki e apontando minha espada para ele e fico frustado por ele não mexer nem um músculo. De fato, para meu espanto, sua carranca se torna uma expressão calma, suave.

"Eu-eu não percebi o quão ferido você está Hiei. Sabe, fiquei zangado e te detestei ainda mais, por nunca ter dito para Yukina a verdade. Mas olhando para você agora, só... lamento," ele diz, olhando para o chão.

Minha raiva se dissipa pouco a pouco, não sei como ou por quê. Ficaria zangado por sua fala. Minha expressão também se suaviza e me descubro confuso. Estou mudo e fecho meus olhos, abaixando minha cabeça.

"Ela me pediu... Ela me pediu para te apoiar. Não sei como ela-" ele pára a frase, me pergunto se é porque ele ouve um som de baque surdo.

Estou de joelhos e a mesma dor que corroeu meu coração no cemitério volta a me aflingir mais uma vez. Ofegando, ergo meus olhos, olhando fixadamente para o rosto daquele retardado. Eu o odeio por me ver neste estado (frágil). Tento falar algo mas minha voz está presa na minha garganta. Ouço a voz daquele baka, então.

"Você está bem?" não respondo. "Olhe, foi um choque para mim saber que você era o oniisan dela. Na verdade, você me irrita, mas sabe, não acho que você seja tão ruim. Ela estava contente, Hiei. Yukina-chan estava orgulhosa de ser sua irmã."

Sua voz ecoa pela minha mente. Orgulho. Ela estava orgulhosa de mim? Como ela pôde-? Mais uma vez eu ouço Kuwabara me perguntando se estou bem. Meus olhos queimam e de repente sinto que é hora de ir. Kuwabara já se deliciou com minha angústia o bastante. Levanto-me enquanto franzo o cenho, e sem dizer uma palavra, encaminho-me até a janela. Sinto seus olhos sobre mim, observando-me com uma estranha expressão de preocupação. Isso me enoja muito. Porém, quando estou pronto para me ir, algo me faz olhar para trás e dizer para ele:

"Yukina não fez uma má escolha, afinal de contas," meu tom é ríspido, ao contrário de minhas palavras. Antes de pular para o exterior, vejo o baka sobressaltado, murmurando 'nani?!'

Estou de volta ao seu túmulo. A chuva parou alguns minutos atrás. As últimas palavras de Kuwabara martelaram minha mente durante todo o trajeto até aqui. Flashs de Yukina passam ante meus olhos. Seus sorrisos alegres então estavam impressos ali.

Estou sorrindo e quão surpreso estou. Nunca esperei me descobrir deste jeito. Ajoelho, olhando para seu túmulo. percebo algumas gotas umedecendo a terra. Ao mesmo tempo um gosto salgado aparece na minha boca. Deslizo uma mão pelas minhas bochechas. Lágrimas. São minhas lágrimas. Não entendo. Nunca chorei, por quê agora? Sempre pensei que lágrimas fossem para fracos. Sentimentalismo...

*Imooto...* eu fecho meus olhos e abro-os imediatamente um segundo depois. Engraçado... Acho que sinto seu youki se aproximando. Olho em redor, claro, não vejo nada. Volto minha vista para o túmulo de Yukina e me sobressalto. Pisco algumas vezes, tentando acreditar em meus próprios olhos.

"Desculpe se te assustei," ela começa a dizer. Ela está sentada à frente e seu sorriso caloroso está ali. Um vento fantasmagórico sopra, brincando com seu cabelo verde claro. Tento levantar e estico minha mão, a qual ela segura entre as suas.

Ainda estou olhando fixadamente para ela, espantado. Ouço-me balbuciando: "Imooto,"

"Niisan," ela responde. "Estou tão contente com você. estou muito aliviada por você e Kazu-kun..."

"Eh, não diga o nome daquele retardado novamente," arrependo-me de minhas palavras quando vejo uma ponta de tristeza tomando seu rosto. "Gomen. Eu só-"

"Esqueça. Sei que vocês dois vão se aceitar," ela ri feliz. Descubro-me sorrindo, um sorriso verdadeiro pela segunda vez na minha vida.

De repente, ela se inclina sobre mim e beija minha testa, sobre meu jagan. Fecho meus olhos e sinto minhas lágrimas aparecendo mais uma vez.

"Eu te amo, niisan. Vou lhe amar para sempre. E você, você deve viver para sempre por nós dois, certo?"

Lentamente abro meus olhos e percebo que ela se foi. A chuva começa a cair de novo. Na escuridão do cemitério, ouço minha própria voz prometendo num sussurro:

"Eu irei..."

Aqui está!! Aqui termina Enquanto o Gelo Derrete. Espero que todos vocês tenham gostado deste shortfic, pessoal. Este foi meu último fic do ano de 1999. ^_^ De qualquer forma, sabe, quaisquer correções, pedidos, reclamações, cumprimentos, ou qualquer outra coisa que sua mente possa imaginar, é só mandar o recado, certo?

Baka: idiota (perjorativo)
Gomen: desculpe (coloquial)
Imooto: irmã mais nova
Niisan: irmão mais velho (forma coloquial)
Ningen: ser humano
Ki: energia espiritual
Youki: energia espiritual dos demônios


xx março 2004
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