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A Maldição
por Rechan
Livro Um - Pesadelo
- Capítulo 1: Desmascarando Almas -
A koorime Yukina pegou algumas flores que colhera e cheirou-as;
então colocou-as num cesto. Ela queria fazer algum tipo de
enfeite com as flores na casa de Genkai obaasan. Dois dias atrás,
a velha senhora tinha dito que receberia alguns convidados de Tokyo
e Yukina decidiu fazer tudo de modo que a casa parecesse um lar confortável.
Yukina arrependeu-se do pensamento instantâneamente O Templo
de obaasan não era desconfortável, mas solitário
e quieto. Ela levantou-se, limpou o kimono e pegou o cesto; sorrindo,
Yukina caminhou para casa.
De vez em quando, Yukina dava uma olhada nas flores e ria. O outono
estava terminando e logo o inverno deveria despontar, e aquele cenário
seria escondido por uma grossa cobertura de gelo e neve. Ela adorava
o inverno, já que lembrava-lhe de sua terra, contudo não
conseguia evitar de que um pouco de tristeza entrasse em seu coração.
Aprendera a amar aquelas coisas que tornavam o Ningenkai tão
especial. Planícies cheias de grama ondulando por causa de
sopros de vento, flores de todos os tipos, em várias cores
e formatos aparecendo em todo lugar... Mais uma vez, a pequena sorriu.
Sim, ela amava as flores, mas algo mais a fizera ligar-se ainda mais àquelas
pequenas formas de vida. Não podia dizer o quê com certeza.
De fato, há um ano as adotara. Mas o que havia acontecido
para ficar daquele jeito, ela simplesmente não sabia.
Entrando no templo, Yukina tirou seus tamancos e dirigiu-se para
cozinha, pretendendo fazer um chá para Genkai-sama e ela própria.
Pensamentos pertubadores passavam pela sua mente e ela queria apenas
sentar-se em algum lugar, beber o chá calmamente e clarear
as idéias. Yukina colocou o cesto na mesa e começou
a fazer um pouco de chá, enquanto sua mente sentia-se livre
para pensar. Quantos anos ela estava no mundo humano? Fora tão
estúpida então, acreditando naquele ningen horrível,
que só usara sua tristeza para criar hiruseki para ele. Ele
tinha convencido-a, dizendo que seu oniisan deveria ter ido ao Ningenkai,
para escapar das koorimes. E ela acreditara, com toda fé.
Yukina sentiu uma lágrima começar a rolar no rosto
e sentiu-a congelando no ar. Ela pausou, enquanto ouvia o tinido;
então o silêncio veio e ela continuou a fazer seu chá.
Seu oniisan... Por tantos anos o procurara, desejando desculpar-se.
Precisava desculpar-se, pois fora criada como uma koorime pura e
ele fora descartado como um pária. Como as outras koorimes,
Yukina crescera aprendendo sobre a maldição que Enma
Daiou-sama uma vez lançara sobre elas. O irmão não
sabia aquilo e ela queria explicar para ele. Contudo, nenhuma notícia
recebera do Makai, Reikai ou mesmo Ningenkai. Ah, sim, Hiei-san uma
vez lhe contara que ele estava morto, mas algo dentro dela não
a deixava acreditar nisso. Havia algo nos olhos de Hiei, algum tipo
de tristeza e confusão que a tornava preocupada. Yukina suspirou
e ergueu os olhos, para o teto. Desejava que Hiei aparecesse novamente,
e quem sabe ela reunisse coragem para lhe perguntar desta vez. Sim,
ela tinha que fazê-lo, afinal de contas, Kurama-san não
tinha lhe dito isso?
A koorime pegou uma xícara de chá e dirigiu-se ao
kotatsu. Sentando lá, ela se perguntava por que Kurama-san
havia concordado efusivamente com que ela perguntasse a Hiei-san
mais uma vez sobre seu niichan. O rosto franzido logo foi iluminado
por um sorriso. Yukina lembrou-se da última vez que Kurama
estivera visitando-as. Havia se tornado uma situação
comum desde que eles lebertaram Hiei-san da prisão de seu
pai. Há um ano e cerca de seis meses ele vinha e ia, ficando
só um fim de semana, às vezes uma semana ou mais. Ele
parecia tão triste e pálido, Yukina preocupou-se logo.
Ela começou a conversar com ele frequentemente, e logo compreendera
que Kurama-san amara aquela estranha garota que os acompanhara ao
Makai. Yukina estava sempre ao seu lado, apoiando-o, quando precisava
e queria. Ela realmente começara a apreciar a companhia e
conversa dele e agora se descobria apreciando as flores, como ele
o fazia várias vezes no templo. Yukina sentia que poderia
contar a Kurama-san todas as suas preocupações e ser
entendida, o que não ocorria com Kazuma-san. O ningen era
mesmo adorável e gentil, mas não esperto o bastante
para entender seus sentimentos e de qualquer forma, ele costumava
dizer coisas que não faziam sentido para ela. Mas as coisas
que Kurama-san costumava dizer eram tão inteligentes, interessantes
e belas... Lembrou-se quando não vira o tempo passar, numa
tarde nas planícies, Kurama-san falando sobre flores e plantas
e ela na verdade não ouvira o que ele dizia, porque só então
percebera quão doce era sua voz ningen.
Yukina corou num profundo tom de vermelho e cobrira sua boca com
a mão. Por que estou pensando sobre essas coisas? pensou,
confusa. Yukina olhou em volta, procurando por algo para fazer, para
distrair sua cabeça; só então seus olhos estancaram,
olhando espantada para Genkai, parada na porta. A velha senhora segurava
uma xícara de chá fumagante nas mãos e baixando
a cabeça num leve cumprimento, caminhou para o kotatsu, sentando-se
em frente a koorime.
"No que estava pensando Yukina?" os olhos de Genkai não
deixaram a xícara.
"Em nada," replicou, incerta, e desviou o olhar, temendo
que a velha senhora a encarasse e lesse a mentira em seus olhos.
"Você é mesmo uma menina tola," Genkai comentou
e soprou o chá, bebericando-o um pouco. Finalmente, ergueu
os olhos, encarando a pequena koorime. "Não coraria se
estivesse pensando em tolices, sabe,"
Yukina riu, tentando distraí-la, ao mesmo tempo corando ainda
mais. Perguntava-se por que tinha que ser tão pálida;
do contrário, ninguém notaria sua vergonha.
"Querida," a velha chamou. "Se quiser conversar...
Sou bem velha, eu sei, mas também estive apaixonada antes,"
"Nani?!" Yukina piscou e deu um olhar confuso para Genkai.
"Yukina, nenhuma mulher anda por aí em silêncio
e suspirando por nada; você é jovem e inocente, é normal."
"Mestra Genkai, não entendo você. Sério."
Genkai olhou dentro daqueles olhos âmbar, que assemelhavam-se
tanto aos de Hiei. Pobre garota, pensou, esteve vivendo demais numa
redoma de vidro. Só espero que não se magoe.
"Desculpe-me, devo ter me enganado. Devo estar envelhecendo
mais rápido do que pensei," Genkai sorriu e se levantou,
saindo. Como Kuwabara reagirá?
Ela abriu os olhos lentamente, confusa. Não sabia onde estava;
olhando para baixo, viu-se nua, ajoelhada no centro de um triângulo.
O chão estava coberto por gelo, e por estranho que pareça,
não estava sentindo frio, ao contrário, sentia-se aquecida.
Olhou cuidadosamente para o triângulo e percebeu que era marcado
no gelo com fogo, queimando em negro.
Sentiu-se juntando as mãos, como se rezasse e um brilho débil
surgiu entre elas. O fogo negro aumentou, formando uma barreira a
sua volta. Estou protegida, enfim sinto-me protegida, ela pensou.
Inesperadamente, um braço esticou-se até ela, surgindo
através do fogo. Por alguma razão, ela sabia que era
um braço querido; caiu em lágrimas, embora nem mesmo
soubesse o por quê, esticou a mão. Os dedos tocaram
de leve o braço estranho e estavam quase segurando-o...
***
"Itooshii! Itooshii!"
"Saiyuki-chan!"
Saiyuki abriu os olhos e piscou. Sua visão estava dupla,
então ela os fechou novamente, sentindo uma dor de cabeça
se aproximando. Saiyuki ouviu o namorado e seu melhor amigo discutindo,
culpando um ao outro pelo seu estado. Meu estado? Ah, não.
O que aconteceu desta vez? Saiyuki abriu os olhos imediatamente e
encarou-os.
"Então, o que houve?" ela surpreendeu-se em como
sua voz saiu tão fraca.
Aikawa e Ikiko arregalaram os olhos para ela e desistiram da briga.
Saiyuki estava realmente pálida e ambos não sabiam
o que fazer. Eles a viram inspirar e falar novamente. "Perguntei
o que houve?"
"Você desabou," Ikiko apressou-se em explicar, enquanto
Rodolfo olhava feio para ele.
"Ele está certo; quando você pisou nos degraus,
você desmaiou." Rodolfo disse entre os dentes apertados.
"Eu desmaiei?" ela espantou-se, sem acreditar. Olhou em
redor, tentando reconhecer algo. Era um aposento pequeno, sem nenhuma
mobília, a não ser uma cômoda e o futon em que
estivera deitada. "Onde estou?"
"Não se lembra?" os rapazes entreolharam-se. "Estamos
no Templo de Genkai," Aikawa disse, e segurou uma mão
dela.
"Eu me sinto um pouco tonta,"
"Claro. Você bateu a cabeça no chão," a
porta deslizou e todos olharam para a pequena figura emoldurada pela
luz. Saiyuki estremeceu, enquanto olhava fixo para aquela estranha
garotinha, com cabelo verde e um kimono da mesma cor. Parecia tão
calma e inocente, que Saiyuki se perguntava por que ela pintara o
cabelo de verde. Essas garotas rebeldes... Ela segurava uma bandeja
com três xícaras fumegantes. Pausou quando notou Saiyuki
acordada e sorriu.
"Trouxe um pouco de chá para vocês. Estou contente
que tenha acordado. Estava preocupada," ela disse num tom gentil.
"Arigato gozaimasu." Tetsuo agradeceu e pegou sua xícara.
Rodolfo e Saiyuki fizeram o mesmo.
"Ne, gomen nasai. Esqueci seu nome." Aikawa falou.
"Watashi wa Yukina desu," ela sorriu novamente e curvando-se,
saiu. Ela parou na porta e olhando por sobre o ombro, disse: "O
quarto de vocês está pronto, Ikiko-san, Aikawa-san.
Tanaka-san precisa de um pouco de descanso imediatamente." e
ela se foi.
"Oi, oi. Ela está certa. Estou morto de cansado, vamos
dormir, então." Ikiko anunciou.
"Hn. Saiyuki, você está bem?" Rodolfo perguntou.
"Ora, estou bem, mas estou quase dormindo. Então, vão
agora!" dizendo isso, Saiyuki deitou-se no futon e fechou os
olhos. Antes de dormir, contudo, foi capaz de ouvir ambos levantando-se
e saindo. Quando deslizaram a porta por trás deles, ela já estava
adormecida.
"Você acreditou nela?" Aikawa perguntou.
"Não muito," Tetsuo replicou. De fato, perguntava-se
se Tanaka tivera outro sonho. "Mas Yukina-san está certa,
devemos deixá-la sozinha um pouco. Vamos, eu mostro nosso
quarto."
Rodolfo franziu o cenho. "Certo. Ei, Ikiko, e Genki-sama? Não
a vi ainda,"
"Nem eu. Amanhã vamos bater um papo com ela."
A manhã seguinte surgiu com um clima frio. Yukina pôs
a comida no kotatsu, enquanto Genkai sentava-se ali em silêncio.
A velha senhora pegou algumas frutas e começou a comer lentamente.
Yukina manteve-se de pé, só observando-a; Genkai parecia
estar envelhecendo rápido mesmo, ultimamente. Pela primeira
vez, Yukina temeu que ela não suportasse outro inverno. Os
olhos de Genkai pareciam tão profundos e escuros, Yukina perguntava-se
se ela estaria doente. A koorime ponderou se perguntaria a Genkai-sama
sobre o que havia lhe dito ontem.
"Onde está Tetsuo?" perguntou Genkai, distraída.
"Acho que ainda está dormindo, Genkai-sama. Seus amigos
também,"
"Hn. Ikiko Tetsuo... Será que..." Genkai murmurrou,
e bebeu o chá. Yukina não mostrou nenhuma curiosidade
sobre a frase não terminada, já que nunca fora do tipo
curioso. Além disso, uma outra coisa ocupava sua mente, mas
aquele não era o lugar para pensar sobre coisas como essas.
Genkai-sama parecia ler seus pensamentos, só de olhar para
ela.
"Genkai-sama, vou dar uma volta na floresta," Yukina anunciou
e curvou-se, antes de ir-se.
Genkai simplesmente deu uma olhada nela e continuou a beber o chá.
Yukina parece preocupada. Será que é pelo que disse
ontem...
"Genkai-sama, ohayoo gosaimasu,"
A velha senhora voltou sua cabeça na direção
da porta e descobriu-se olhando para Ikiko Tetsuo. Ele estava vestindo
jeans e uma camisa azul-clara. Sobre ela, vestia uma jaqueta. tetsuo
sorriu para ela e foi até o kotatsu.
"Hn. Tetsuo," Genkai começou. "Por que trouxe
aqueles dois com você?"
"Meus planos envolviam só a garota. Aquele retardado é o
namorado dela e convenceu-a, para vir aqui também,"
"Contou a eles sobre você?"
"Hn. Não. Na verdade, não quero."
"Por que não?" Genkai ergueu os olhos, uma de suas
sombracelhas erguidas.
"Não é da conta deles, e além disso, Saiyuki
ficaria chocada. Ela não gosta de coisas sobrenaturais."
"Sabe, às vezes, as pessoas que temem algo são
as únicas que têm coragem para enfrentá-las."
"Entendo." então, ambos caíram em silêncio.
Alguns minutos depois, contudo, voltaram as cabeças imediatamente,
para a porta, que estava sendo aberta novamente.
"Olá," a cabeça de Saiyuki apareceu, um
sorriso iluminando seu rosto. "Posso entrar?"
Genkai simplesmente ergueu os olhos e não disse nada. Tetsuo
cumprimentou-a, porém. "Claro. Sente-se e tome o café da
manhã,"
Rapidamente, a garota fez o que ele dizia. Tetsuo observou-a um
pouco, procurando por algum vestígio de outros pesadelos,
mas decidiu pelo rosto alegre dela que não houvera nenhum.
Hábilmente, Saiyuki alcançou uma fruta e começou
a comer.
"Sabe se Aikawa está acordado?" perguntou a Tetsuo.
Ele simplesmente deu de ombros.
"Bem, ele estava profundamente adormecido quando me levantei,"
"Hn. É uma pena. Tenho certeza de que ele gostaria de
conhecer o mais novo visitante de Genkai-sama."
Genkai olhou para ela, e perguntou, um pouco irritada: "Meu
mais novo visitante?"
"Hai. Ele deve chegar logo, mas acho que não vai ficar
muito tempo,"
"Como é que você traz mais amigos seus para aqui,
Ikiko? E nem mesmo me pediu!"
"Eu- eu não..."
"Hn. Desculpe, acho que me interpretou mal. Ikiko-kun não
o chamou. Essa visita vai vir sem convite, será que é seu
parente então?"
"Como sabe da vinda de uma visita, garota?" Genkai pausou
o café da manhã. Se aquele era o tipo de premonição
que Tetsuo disse...
"Visita? Que visita?!" Saiyuki perguntou, do nada. Ela
parecia mais pálida e confusa.
"Nani? Você nos disse que alguém está vindo
para esse templo!" a voz de Genkai estava exasperada.
"Eu... Eu não sei..." Saiyuki pôs uma mão
na têmpora e fechou os olhos. Estava tonta novamente, e aquilo
significava outra premonição. Apertou os dentes e disse. "Estou
um pouco tonta. Acho que ainda estou fraca por causa de ontem. Com
licença." e saiu.
Genkai olhou fixadamente para Tetsuo e ele olhou-a, dando de ombros.
Seus olhos estavam dizendo 'não te disse?'
Yukina sentou-se numa pedra, suspirando. Alguns passarinhos voaram
até ela e deixou-os pousar nos seus dedos. Hoje estava frio,
e ventos gelados mais uma vez anunciavam a chegada do inverno. Ela
acariciou os pássaros, enquanto sentia a solidão superando-a.
Yukina sentia como se estivesse fugindo de Genkai-sama e aqueles
amigos dela, porém ela sabia muito bem que não seria
capaz de suportá-los hoje. A koorime suspirou, reconhecendo
que nunca sentira-se daquele jeito antes, e a idéia era muito
dolorosa. Estava envergonhada pelos seus atos, mas não conseguia
evitar.
A dama do gelo sobressaltou-se com um repentino farfalhar de alguns
arbustos. Institivamente, Yukina pôs-se de pé rapidamente
e olhou em volta, a procura do intruso. A clareira estava vazia,
porém. Ela pressionou as mãos uma contra a outra e
mordeu o lábio inferior. De repente, porém, ela pôs
uma mão sobre a boca, reprimindo um grito. Seus olhos arregalaram-se
e sentiu-se inesperadamente quente.
Parado entre as árvores, Kurama olhava para ela, com um de
seus sorrisos alegres, com um tom de tristeza, contudo. Ele vestia
uma calça marrom, que parecia ter sido recentemente bem passada.
Uma camisa branca protegia seu peito e sobre ela, ele usava um colete
marrom. Segurava uma pequena mala, feita de couro marrom. Yukina
apressou-se até ele e cumprimentou-o, curvando-se.
"Kurama-san. Ohayou gazaimasu," ela disse, sem fôlego.
Seu rosto delicado estava vermelho, devido ao esforço.
"Como vai, Yukina-san?"
"Estou bem. Veio para ficar o feriado?" perguntou ela,
incapaz de deter a ansiedade.
"É minha idéia." ele sorriu para ela novamente. "Vamos
para a casa, estou precisando de uma boa xícara de chá,"
"Hai."
Começaram a caminhar, e alguns minutos depois, então,
ela percebeu algo. Olhara tão fixo para a cabeça de
Kurama, que ele enfim voltou a cabeça para ela. A expressão
dela tornou-se desconcertada e corou num profundo tom de rosa.
"Qual é o problema, Yukina-san?"
"Na-nada." Kurama pôs uma mão sobre o ombro
dela.
"Vamos, me conte,"
"É-é, seu cabelo..."
Kurama levantou uma sombracelha e então riu. "Ah, isso." ele
pegou algumas mechas do cabelo. "Bom, mudei de idéia
e escolhi um novo corte. Pensei que um curto me faria parecer mais
sério."
"Ah. Mas, Kurama-kun, você *parece* sério." ela
sorriu timidamente.
Kurama lançou um olhar divertido e replicou. "Obrigado.
Porém, para os seres humanos um cabelo grande pode significar
desleixo." ele deslizou uma mão pelo cabelo. "Eu
precisa de uma mudança, acho." ele disse aquilo com um
tom triste, que tornou Yukina tagarela. Ela falou sobre quase tudo,
pássaros, o clima. Sua mente martelava a idéia da tristeza
dele.
Kurama olhou fixo para ela, enquanto ouvia a conversa. Quando chegara,
a encontrara tão triste, e do nada, ela ficara tão
tagarela e alegre. A atitude dela estava bem estranha, e Kurama levantou
um sombracelha, observando-a mais cuidadosamente. Alguns minutos
depois, contudo, entraram na casa e ele deu de ombros. Yukina levou-o
pelo corredor e pausou numa porta corrediça, abrindo-a.
"Genkai-sama, temos mais uma visita," anunciou Yukina,
com uma grande sorriso no rosto. A velha perguntou-se o que causara
tamanha mudança na atitude dela. Yukina pôs-se de lado,
de modo a tornar Kurama visível. Ele deu um passo a frente,
sorriu para eles e curvou-se, cumprimentando.
"Ohayou gazaimasu."
Genkai assentiu com um sorriso. "Sente-se e tome o café-da-manhã."
"Obrigado." Kurama sentou-se ao lado de Tetsuo e Yukina
apressou-se.
"Gomen nasai. Vou trazer uma xícara para você;
e algumas frutas também, já que elas estão acabando." ela
saiu e alguns segundos depois, eles voltaram a falar novamente.
"Aquela amiga sua tem um ki especial," Genkai murmurrou.
Kurama olhou para ela, confuso, e então voltou seu rosto para
o cara ao seu lado.
"É. Incrível, não é?"
"A propósito, que diabos você fez com seu cabelo,
Minamino?"
Kurama riu de Genkai e respondeu. "Devo parecer mais sério
se estou trabalhando. Meu padastro me advertiu ultimamente que alguns
clientes não gostam de meu cabelo comprido."
"Engraçado, ouvir isso de você," ela deu
um sorriso, e de repente, pareceu perceber algo. "Gomen nasai.
Acho que já estou bem velha. Nem mesmo apresentei vocês.
Minamino, este é Ikiko Tetsuo, e esse é Minamino Shuuichi,
Tetsuo."
Tetsuo simplesmente deu uma olhada em Kurama e curvou a cabeça,
enquanto a raposa o cumprimentava: "O que faz, Ikiko-san?"
"Hn." Tetsuo lançou-lhe um olhar de desdém.
Aquele rapaz de algum modo parecia estranho. "Eu canto." respondeu
enfim.
Kurama estreitou os olhos e decidiu não conversar com aquele
rapaz. Focou-se em Genkai. Perguntava-se quantos anos teria agora,
já que parecia tão velha. Depois de seis anos, Genkai-shihan
tornara-se bem velha do nada. Ele se lembrou de quando ela chamara
a todos até o Templo e anunciou que ele seria o Templo deles
quando a morte dela chegasse. Kurama estremeceu ante aquela lembrança
repentina. Perguntou-se se Akane gostaria de ir ali ou não.
Quem sabe ela não gostasse de viver ali com ele. Somente então,
ele considerou a possibilidade de deixar a casa de sua mãe
imediatamente, e ficar ali, onde pudesse aceitar sua verdadeira natureza
e dividi-la com ela. Se pelo menos ela estivesse viva... O coração
de Kurama apertou-se e ele inspirou profundamente, fechando os olhos.
Pare raposa, você prometeu a si mesmo.
"Está divagando de novo, Minamino," falou Genkai.
"Hn? Ah, desculpe." ele desculpou-se, sorrindo. Olhou
para Yukina, que aparecera do seu lado com uma xícara fumegante
e algumas frutas. "Obrigado," ele agradeceu a ela, enquanto
pegava a xícara de chá. Ela simplesmente assentiu e
sorriu. Kurama sorriu de volta.
Genkai olhou fixadamente para aquilo e franziu o cenho. Estou vendo
algo acontecendo? Yukina deu a volta no kotatsu e sentou-se ao lado
dela. Os olhos âmbar não saíram de Kurama. Ele,
contudo, não notara nada. Velha, está enxergando demais.
Todos eles continuaram o café da manhã em silêncio.
De vez em quando, Yukina olhava de esguelha para Genkai, e vendo-a
distraída, aventurava-se num olhar um pouco mais apurado para
Kurama. Ele parecia estar um pouco mais alegre do que estava há algu
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meses. Ficou contente. Às vezes, Yukina preocupava-se com
estranhos sentimentos que sentia quando pensava em Kurama e sua tristeza. Às
vezes, quisera amaldiçoar aquela mulher que conseguiu torná-lo
tão triste. Ele era uma pessoa gentil, por que ela tivera
que-? Então, ela tinha medo desses sentimentos... Como podia
ela desejar o mal para alguém? E ela mal a conhecera... O
que era tudo aquilo? Yukina baixou os olhos, confusa, logo erguendo-os
novamente. Seus olhos encontraram os de Ikiko e ela sentiu-se quente,
não os evitando, porém. Os olhos dele eram estranhos,
tão diferentes dos de Kurama-san. Eram cínicos e...
voluptuosos. Ela estremeceu.
"Oiiii!!" Saiyuki entrou no aposento, junto com Rodolfo,
chamando a atenção de todos. Tanaka mostrava-se alegre,
cantando uma música, enquanto Aikawa estava sério,
as mãos mergulhadas nos bolsos. "Estou com fome!"
"Bom dia," Rodolfo cumprimentou, e sentou-se em silêncio
ao lado de Kurama.
"Genkai-sama, esse é meu namorado, Aikawa Rodolfo," Saiyuki
disse. "Quem é ele, Yukina? Seu namorado?"
Yukina corou enquanto levantava-se e Genkai e Tetsuo riam dela. "Hn,
não. Sou só amigo de Genkai e Yukina," replicou
Kurama.
"É-é..." Yukina gaguejou. "Vou buscar
mais xícaras para vocês,"
"Já faz muito tempo desde que vi seu templo tão
cheio de gente," Kurama falou para Genkai.
"Ainda não sei quem você é, garoto," Saiyuki
insistiu, irônica. Ela viu Aikawa olhar feio para ela, mas
não se importou.
"Minamino desu. E você?"
"Tanaka Saiyuki e esse é meu..."
"Aikawa Rodolfo." Rodolfo interrompeu-a e olhou para Kurama,
um pouco confuso.
"Rodolfo. É um nome bem diferente," Kurama murmurou,
como se falasse consigo mesmo.
"Para japoneses, sim, é. Sou brasileiro, meu pai é japonês,"
"Ah, interessante,"
"Sério?"
Todo o dia passou-se sem quaiquer acidentes. Rodolfo e Saiyuki tiraram
o dia fora, na praia, explorando todos os lugares. Após a
previsão dela da chegada de Kurama, nenhuma visão parecera
surgir. Genkai passou o dia meditando sobre os poderes da menina
e Ikiko treinando sua música nova. Yukina tomou conta da comida
e Kurama passeou por aí. Depois do almoço, ambos passearam
e conversaram juntos. O primeiro dia daquele feriado terminou e começou
a chuviscar, e então a chuver forte. Kurama estava no seu
quarto quando ouviu um grito feminino vindo da entrada.
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