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A Maldição
por Rechan

Livro Um - Pesadelo
- Capítulo 1: Desmascarando Almas -

A koorime Yukina pegou algumas flores que colhera e cheirou-as; então colocou-as num cesto. Ela queria fazer algum tipo de enfeite com as flores na casa de Genkai obaasan. Dois dias atrás, a velha senhora tinha dito que receberia alguns convidados de Tokyo e Yukina decidiu fazer tudo de modo que a casa parecesse um lar confortável. Yukina arrependeu-se do pensamento instantâneamente O Templo de obaasan não era desconfortável, mas solitário e quieto. Ela levantou-se, limpou o kimono e pegou o cesto; sorrindo, Yukina caminhou para casa.

De vez em quando, Yukina dava uma olhada nas flores e ria. O outono estava terminando e logo o inverno deveria despontar, e aquele cenário seria escondido por uma grossa cobertura de gelo e neve. Ela adorava o inverno, já que lembrava-lhe de sua terra, contudo não conseguia evitar de que um pouco de tristeza entrasse em seu coração. Aprendera a amar aquelas coisas que tornavam o Ningenkai tão especial. Planícies cheias de grama ondulando por causa de sopros de vento, flores de todos os tipos, em várias cores e formatos aparecendo em todo lugar... Mais uma vez, a pequena sorriu. Sim, ela amava as flores, mas algo mais a fizera ligar-se ainda mais àquelas pequenas formas de vida. Não podia dizer o quê com certeza. De fato, há um ano as adotara. Mas o que havia acontecido para ficar daquele jeito, ela simplesmente não sabia.

Entrando no templo, Yukina tirou seus tamancos e dirigiu-se para cozinha, pretendendo fazer um chá para Genkai-sama e ela própria. Pensamentos pertubadores passavam pela sua mente e ela queria apenas sentar-se em algum lugar, beber o chá calmamente e clarear as idéias. Yukina colocou o cesto na mesa e começou a fazer um pouco de chá, enquanto sua mente sentia-se livre para pensar. Quantos anos ela estava no mundo humano? Fora tão estúpida então, acreditando naquele ningen horrível, que só usara sua tristeza para criar hiruseki para ele. Ele tinha convencido-a, dizendo que seu oniisan deveria ter ido ao Ningenkai, para escapar das koorimes. E ela acreditara, com toda fé.

Yukina sentiu uma lágrima começar a rolar no rosto e sentiu-a congelando no ar. Ela pausou, enquanto ouvia o tinido; então o silêncio veio e ela continuou a fazer seu chá. Seu oniisan... Por tantos anos o procurara, desejando desculpar-se. Precisava desculpar-se, pois fora criada como uma koorime pura e ele fora descartado como um pária. Como as outras koorimes, Yukina crescera aprendendo sobre a maldição que Enma Daiou-sama uma vez lançara sobre elas. O irmão não sabia aquilo e ela queria explicar para ele. Contudo, nenhuma notícia recebera do Makai, Reikai ou mesmo Ningenkai. Ah, sim, Hiei-san uma vez lhe contara que ele estava morto, mas algo dentro dela não a deixava acreditar nisso. Havia algo nos olhos de Hiei, algum tipo de tristeza e confusão que a tornava preocupada. Yukina suspirou e ergueu os olhos, para o teto. Desejava que Hiei aparecesse novamente, e quem sabe ela reunisse coragem para lhe perguntar desta vez. Sim, ela tinha que fazê-lo, afinal de contas, Kurama-san não tinha lhe dito isso?

A koorime pegou uma xícara de chá e dirigiu-se ao kotatsu. Sentando lá, ela se perguntava por que Kurama-san havia concordado efusivamente com que ela perguntasse a Hiei-san mais uma vez sobre seu niichan. O rosto franzido logo foi iluminado por um sorriso. Yukina lembrou-se da última vez que Kurama estivera visitando-as. Havia se tornado uma situação comum desde que eles lebertaram Hiei-san da prisão de seu pai. Há um ano e cerca de seis meses ele vinha e ia, ficando só um fim de semana, às vezes uma semana ou mais. Ele parecia tão triste e pálido, Yukina preocupou-se logo. Ela começou a conversar com ele frequentemente, e logo compreendera que Kurama-san amara aquela estranha garota que os acompanhara ao Makai. Yukina estava sempre ao seu lado, apoiando-o, quando precisava e queria. Ela realmente começara a apreciar a companhia e conversa dele e agora se descobria apreciando as flores, como ele o fazia várias vezes no templo. Yukina sentia que poderia contar a Kurama-san todas as suas preocupações e ser entendida, o que não ocorria com Kazuma-san. O ningen era mesmo adorável e gentil, mas não esperto o bastante para entender seus sentimentos e de qualquer forma, ele costumava dizer coisas que não faziam sentido para ela. Mas as coisas que Kurama-san costumava dizer eram tão inteligentes, interessantes e belas... Lembrou-se quando não vira o tempo passar, numa tarde nas planícies, Kurama-san falando sobre flores e plantas e ela na verdade não ouvira o que ele dizia, porque só então percebera quão doce era sua voz ningen.

Yukina corou num profundo tom de vermelho e cobrira sua boca com a mão. Por que estou pensando sobre essas coisas? pensou, confusa. Yukina olhou em volta, procurando por algo para fazer, para distrair sua cabeça; só então seus olhos estancaram, olhando espantada para Genkai, parada na porta. A velha senhora segurava uma xícara de chá fumagante nas mãos e baixando a cabeça num leve cumprimento, caminhou para o kotatsu, sentando-se em frente a koorime.

"No que estava pensando Yukina?" os olhos de Genkai não deixaram a xícara.

"Em nada," replicou, incerta, e desviou o olhar, temendo que a velha senhora a encarasse e lesse a mentira em seus olhos.

"Você é mesmo uma menina tola," Genkai comentou e soprou o chá, bebericando-o um pouco. Finalmente, ergueu os olhos, encarando a pequena koorime. "Não coraria se estivesse pensando em tolices, sabe,"

Yukina riu, tentando distraí-la, ao mesmo tempo corando ainda mais. Perguntava-se por que tinha que ser tão pálida; do contrário, ninguém notaria sua vergonha.

"Querida," a velha chamou. "Se quiser conversar... Sou bem velha, eu sei, mas também estive apaixonada antes,"

"Nani?!" Yukina piscou e deu um olhar confuso para Genkai.

"Yukina, nenhuma mulher anda por aí em silêncio e suspirando por nada; você é jovem e inocente, é normal."

"Mestra Genkai, não entendo você. Sério."

Genkai olhou dentro daqueles olhos âmbar, que assemelhavam-se tanto aos de Hiei. Pobre garota, pensou, esteve vivendo demais numa redoma de vidro. Só espero que não se magoe.

"Desculpe-me, devo ter me enganado. Devo estar envelhecendo mais rápido do que pensei," Genkai sorriu e se levantou, saindo. Como Kuwabara reagirá?

Ela abriu os olhos lentamente, confusa. Não sabia onde estava; olhando para baixo, viu-se nua, ajoelhada no centro de um triângulo. O chão estava coberto por gelo, e por estranho que pareça, não estava sentindo frio, ao contrário, sentia-se aquecida. Olhou cuidadosamente para o triângulo e percebeu que era marcado no gelo com fogo, queimando em negro.

Sentiu-se juntando as mãos, como se rezasse e um brilho débil surgiu entre elas. O fogo negro aumentou, formando uma barreira a sua volta. Estou protegida, enfim sinto-me protegida, ela pensou. Inesperadamente, um braço esticou-se até ela, surgindo através do fogo. Por alguma razão, ela sabia que era um braço querido; caiu em lágrimas, embora nem mesmo soubesse o por quê, esticou a mão. Os dedos tocaram de leve o braço estranho e estavam quase segurando-o...

***

"Itooshii! Itooshii!"

"Saiyuki-chan!"

Saiyuki abriu os olhos e piscou. Sua visão estava dupla, então ela os fechou novamente, sentindo uma dor de cabeça se aproximando. Saiyuki ouviu o namorado e seu melhor amigo discutindo, culpando um ao outro pelo seu estado. Meu estado? Ah, não. O que aconteceu desta vez? Saiyuki abriu os olhos imediatamente e encarou-os.

"Então, o que houve?" ela surpreendeu-se em como sua voz saiu tão fraca.

Aikawa e Ikiko arregalaram os olhos para ela e desistiram da briga. Saiyuki estava realmente pálida e ambos não sabiam o que fazer. Eles a viram inspirar e falar novamente. "Perguntei o que houve?"

"Você desabou," Ikiko apressou-se em explicar, enquanto Rodolfo olhava feio para ele.

"Ele está certo; quando você pisou nos degraus, você desmaiou." Rodolfo disse entre os dentes apertados.

"Eu desmaiei?" ela espantou-se, sem acreditar. Olhou em redor, tentando reconhecer algo. Era um aposento pequeno, sem nenhuma mobília, a não ser uma cômoda e o futon em que estivera deitada. "Onde estou?"

"Não se lembra?" os rapazes entreolharam-se. "Estamos no Templo de Genkai," Aikawa disse, e segurou uma mão dela.

"Eu me sinto um pouco tonta,"

"Claro. Você bateu a cabeça no chão," a porta deslizou e todos olharam para a pequena figura emoldurada pela luz. Saiyuki estremeceu, enquanto olhava fixo para aquela estranha garotinha, com cabelo verde e um kimono da mesma cor. Parecia tão calma e inocente, que Saiyuki se perguntava por que ela pintara o cabelo de verde. Essas garotas rebeldes... Ela segurava uma bandeja com três xícaras fumegantes. Pausou quando notou Saiyuki acordada e sorriu.

"Trouxe um pouco de chá para vocês. Estou contente que tenha acordado. Estava preocupada," ela disse num tom gentil.

"Arigato gozaimasu." Tetsuo agradeceu e pegou sua xícara. Rodolfo e Saiyuki fizeram o mesmo.

"Ne, gomen nasai. Esqueci seu nome." Aikawa falou.

"Watashi wa Yukina desu," ela sorriu novamente e curvando-se, saiu. Ela parou na porta e olhando por sobre o ombro, disse: "O quarto de vocês está pronto, Ikiko-san, Aikawa-san. Tanaka-san precisa de um pouco de descanso imediatamente." e ela se foi.

"Oi, oi. Ela está certa. Estou morto de cansado, vamos dormir, então." Ikiko anunciou.

"Hn. Saiyuki, você está bem?" Rodolfo perguntou.

"Ora, estou bem, mas estou quase dormindo. Então, vão agora!" dizendo isso, Saiyuki deitou-se no futon e fechou os olhos. Antes de dormir, contudo, foi capaz de ouvir ambos levantando-se e saindo. Quando deslizaram a porta por trás deles, ela já estava adormecida.

"Você acreditou nela?" Aikawa perguntou.

"Não muito," Tetsuo replicou. De fato, perguntava-se se Tanaka tivera outro sonho. "Mas Yukina-san está certa, devemos deixá-la sozinha um pouco. Vamos, eu mostro nosso quarto."

Rodolfo franziu o cenho. "Certo. Ei, Ikiko, e Genki-sama? Não a vi ainda,"

"Nem eu. Amanhã vamos bater um papo com ela."

A manhã seguinte surgiu com um clima frio. Yukina pôs a comida no kotatsu, enquanto Genkai sentava-se ali em silêncio. A velha senhora pegou algumas frutas e começou a comer lentamente. Yukina manteve-se de pé, só observando-a; Genkai parecia estar envelhecendo rápido mesmo, ultimamente. Pela primeira vez, Yukina temeu que ela não suportasse outro inverno. Os olhos de Genkai pareciam tão profundos e escuros, Yukina perguntava-se se ela estaria doente. A koorime ponderou se perguntaria a Genkai-sama sobre o que havia lhe dito ontem.

"Onde está Tetsuo?" perguntou Genkai, distraída.

"Acho que ainda está dormindo, Genkai-sama. Seus amigos também,"

"Hn. Ikiko Tetsuo... Será que..." Genkai murmurrou, e bebeu o chá. Yukina não mostrou nenhuma curiosidade sobre a frase não terminada, já que nunca fora do tipo curioso. Além disso, uma outra coisa ocupava sua mente, mas aquele não era o lugar para pensar sobre coisas como essas. Genkai-sama parecia ler seus pensamentos, só de olhar para ela.

"Genkai-sama, vou dar uma volta na floresta," Yukina anunciou e curvou-se, antes de ir-se.

Genkai simplesmente deu uma olhada nela e continuou a beber o chá. Yukina parece preocupada. Será que é pelo que disse ontem...

"Genkai-sama, ohayoo gosaimasu,"

A velha senhora voltou sua cabeça na direção da porta e descobriu-se olhando para Ikiko Tetsuo. Ele estava vestindo jeans e uma camisa azul-clara. Sobre ela, vestia uma jaqueta. tetsuo sorriu para ela e foi até o kotatsu.

"Hn. Tetsuo," Genkai começou. "Por que trouxe aqueles dois com você?"

"Meus planos envolviam só a garota. Aquele retardado é o namorado dela e convenceu-a, para vir aqui também,"

"Contou a eles sobre você?"

"Hn. Não. Na verdade, não quero."

"Por que não?" Genkai ergueu os olhos, uma de suas sombracelhas erguidas.

"Não é da conta deles, e além disso, Saiyuki ficaria chocada. Ela não gosta de coisas sobrenaturais."

"Sabe, às vezes, as pessoas que temem algo são as únicas que têm coragem para enfrentá-las."

"Entendo." então, ambos caíram em silêncio. Alguns minutos depois, contudo, voltaram as cabeças imediatamente, para a porta, que estava sendo aberta novamente.

"Olá," a cabeça de Saiyuki apareceu, um sorriso iluminando seu rosto. "Posso entrar?"

Genkai simplesmente ergueu os olhos e não disse nada. Tetsuo cumprimentou-a, porém. "Claro. Sente-se e tome o café da manhã,"

Rapidamente, a garota fez o que ele dizia. Tetsuo observou-a um pouco, procurando por algum vestígio de outros pesadelos, mas decidiu pelo rosto alegre dela que não houvera nenhum. Hábilmente, Saiyuki alcançou uma fruta e começou a comer.

"Sabe se Aikawa está acordado?" perguntou a Tetsuo. Ele simplesmente deu de ombros.

"Bem, ele estava profundamente adormecido quando me levantei,"

"Hn. É uma pena. Tenho certeza de que ele gostaria de conhecer o mais novo visitante de Genkai-sama."

Genkai olhou para ela, e perguntou, um pouco irritada: "Meu mais novo visitante?"

"Hai. Ele deve chegar logo, mas acho que não vai ficar muito tempo,"

"Como é que você traz mais amigos seus para aqui, Ikiko? E nem mesmo me pediu!"

"Eu- eu não..."

"Hn. Desculpe, acho que me interpretou mal. Ikiko-kun não o chamou. Essa visita vai vir sem convite, será que é seu parente então?"

"Como sabe da vinda de uma visita, garota?" Genkai pausou o café da manhã. Se aquele era o tipo de premonição que Tetsuo disse...

"Visita? Que visita?!" Saiyuki perguntou, do nada. Ela parecia mais pálida e confusa.

"Nani? Você nos disse que alguém está vindo para esse templo!" a voz de Genkai estava exasperada.

"Eu... Eu não sei..." Saiyuki pôs uma mão na têmpora e fechou os olhos. Estava tonta novamente, e aquilo significava outra premonição. Apertou os dentes e disse. "Estou um pouco tonta. Acho que ainda estou fraca por causa de ontem. Com licença." e saiu.

Genkai olhou fixadamente para Tetsuo e ele olhou-a, dando de ombros. Seus olhos estavam dizendo 'não te disse?'

Yukina sentou-se numa pedra, suspirando. Alguns passarinhos voaram até ela e deixou-os pousar nos seus dedos. Hoje estava frio, e ventos gelados mais uma vez anunciavam a chegada do inverno. Ela acariciou os pássaros, enquanto sentia a solidão superando-a. Yukina sentia como se estivesse fugindo de Genkai-sama e aqueles amigos dela, porém ela sabia muito bem que não seria capaz de suportá-los hoje. A koorime suspirou, reconhecendo que nunca sentira-se daquele jeito antes, e a idéia era muito dolorosa. Estava envergonhada pelos seus atos, mas não conseguia evitar.

A dama do gelo sobressaltou-se com um repentino farfalhar de alguns arbustos. Institivamente, Yukina pôs-se de pé rapidamente e olhou em volta, a procura do intruso. A clareira estava vazia, porém. Ela pressionou as mãos uma contra a outra e mordeu o lábio inferior. De repente, porém, ela pôs uma mão sobre a boca, reprimindo um grito. Seus olhos arregalaram-se e sentiu-se inesperadamente quente.

Parado entre as árvores, Kurama olhava para ela, com um de seus sorrisos alegres, com um tom de tristeza, contudo. Ele vestia uma calça marrom, que parecia ter sido recentemente bem passada. Uma camisa branca protegia seu peito e sobre ela, ele usava um colete marrom. Segurava uma pequena mala, feita de couro marrom. Yukina apressou-se até ele e cumprimentou-o, curvando-se.

"Kurama-san. Ohayou gazaimasu," ela disse, sem fôlego. Seu rosto delicado estava vermelho, devido ao esforço.

"Como vai, Yukina-san?"

"Estou bem. Veio para ficar o feriado?" perguntou ela, incapaz de deter a ansiedade.

"É minha idéia." ele sorriu para ela novamente. "Vamos para a casa, estou precisando de uma boa xícara de chá,"

"Hai."

Começaram a caminhar, e alguns minutos depois, então, ela percebeu algo. Olhara tão fixo para a cabeça de Kurama, que ele enfim voltou a cabeça para ela. A expressão dela tornou-se desconcertada e corou num profundo tom de rosa.

"Qual é o problema, Yukina-san?"

"Na-nada." Kurama pôs uma mão sobre o ombro dela.

"Vamos, me conte,"

"É-é, seu cabelo..."

Kurama levantou uma sombracelha e então riu. "Ah, isso." ele pegou algumas mechas do cabelo. "Bom, mudei de idéia e escolhi um novo corte. Pensei que um curto me faria parecer mais sério."

"Ah. Mas, Kurama-kun, você *parece* sério." ela sorriu timidamente.

Kurama lançou um olhar divertido e replicou. "Obrigado. Porém, para os seres humanos um cabelo grande pode significar desleixo." ele deslizou uma mão pelo cabelo. "Eu precisa de uma mudança, acho." ele disse aquilo com um tom triste, que tornou Yukina tagarela. Ela falou sobre quase tudo, pássaros, o clima. Sua mente martelava a idéia da tristeza dele.

Kurama olhou fixo para ela, enquanto ouvia a conversa. Quando chegara, a encontrara tão triste, e do nada, ela ficara tão tagarela e alegre. A atitude dela estava bem estranha, e Kurama levantou um sombracelha, observando-a mais cuidadosamente. Alguns minutos depois, contudo, entraram na casa e ele deu de ombros. Yukina levou-o pelo corredor e pausou numa porta corrediça, abrindo-a.

"Genkai-sama, temos mais uma visita," anunciou Yukina, com uma grande sorriso no rosto. A velha perguntou-se o que causara tamanha mudança na atitude dela. Yukina pôs-se de lado, de modo a tornar Kurama visível. Ele deu um passo a frente, sorriu para eles e curvou-se, cumprimentando.

"Ohayou gazaimasu."

Genkai assentiu com um sorriso. "Sente-se e tome o café-da-manhã."

"Obrigado." Kurama sentou-se ao lado de Tetsuo e Yukina apressou-se.

"Gomen nasai. Vou trazer uma xícara para você; e algumas frutas também, já que elas estão acabando." ela saiu e alguns segundos depois, eles voltaram a falar novamente.

"Aquela amiga sua tem um ki especial," Genkai murmurrou. Kurama olhou para ela, confuso, e então voltou seu rosto para o cara ao seu lado.

"É. Incrível, não é?"

"A propósito, que diabos você fez com seu cabelo, Minamino?"

Kurama riu de Genkai e respondeu. "Devo parecer mais sério se estou trabalhando. Meu padastro me advertiu ultimamente que alguns clientes não gostam de meu cabelo comprido."

"Engraçado, ouvir isso de você," ela deu um sorriso, e de repente, pareceu perceber algo. "Gomen nasai. Acho que já estou bem velha. Nem mesmo apresentei vocês. Minamino, este é Ikiko Tetsuo, e esse é Minamino Shuuichi, Tetsuo."

Tetsuo simplesmente deu uma olhada em Kurama e curvou a cabeça, enquanto a raposa o cumprimentava: "O que faz, Ikiko-san?"

"Hn." Tetsuo lançou-lhe um olhar de desdém. Aquele rapaz de algum modo parecia estranho. "Eu canto." respondeu enfim.

Kurama estreitou os olhos e decidiu não conversar com aquele rapaz. Focou-se em Genkai. Perguntava-se quantos anos teria agora, já que parecia tão velha. Depois de seis anos, Genkai-shihan tornara-se bem velha do nada. Ele se lembrou de quando ela chamara a todos até o Templo e anunciou que ele seria o Templo deles quando a morte dela chegasse. Kurama estremeceu ante aquela lembrança repentina. Perguntou-se se Akane gostaria de ir ali ou não. Quem sabe ela não gostasse de viver ali com ele. Somente então, ele considerou a possibilidade de deixar a casa de sua mãe imediatamente, e ficar ali, onde pudesse aceitar sua verdadeira natureza e dividi-la com ela. Se pelo menos ela estivesse viva... O coração de Kurama apertou-se e ele inspirou profundamente, fechando os olhos. Pare raposa, você prometeu a si mesmo.

"Está divagando de novo, Minamino," falou Genkai.

"Hn? Ah, desculpe." ele desculpou-se, sorrindo. Olhou para Yukina, que aparecera do seu lado com uma xícara fumegante e algumas frutas. "Obrigado," ele agradeceu a ela, enquanto pegava a xícara de chá. Ela simplesmente assentiu e sorriu. Kurama sorriu de volta.

Genkai olhou fixadamente para aquilo e franziu o cenho. Estou vendo algo acontecendo? Yukina deu a volta no kotatsu e sentou-se ao lado dela. Os olhos âmbar não saíram de Kurama. Ele, contudo, não notara nada. Velha, está enxergando demais.

Todos eles continuaram o café da manhã em silêncio. De vez em quando, Yukina olhava de esguelha para Genkai, e vendo-a distraída, aventurava-se num olhar um pouco mais apurado para Kurama. Ele parecia estar um pouco mais alegre do que estava há algu

ns meses. Ficou contente. Às vezes, Yukina preocupava-se com estranhos sentimentos que sentia quando pensava em Kurama e sua tristeza. Às vezes, quisera amaldiçoar aquela mulher que conseguiu torná-lo tão triste. Ele era uma pessoa gentil, por que ela tivera que-? Então, ela tinha medo desses sentimentos... Como podia ela desejar o mal para alguém? E ela mal a conhecera... O que era tudo aquilo? Yukina baixou os olhos, confusa, logo erguendo-os novamente. Seus olhos encontraram os de Ikiko e ela sentiu-se quente, não os evitando, porém. Os olhos dele eram estranhos, tão diferentes dos de Kurama-san. Eram cínicos e... voluptuosos. Ela estremeceu.

"Oiiii!!" Saiyuki entrou no aposento, junto com Rodolfo, chamando a atenção de todos. Tanaka mostrava-se alegre, cantando uma música, enquanto Aikawa estava sério, as mãos mergulhadas nos bolsos. "Estou com fome!"

"Bom dia," Rodolfo cumprimentou, e sentou-se em silêncio ao lado de Kurama.

"Genkai-sama, esse é meu namorado, Aikawa Rodolfo," Saiyuki disse. "Quem é ele, Yukina? Seu namorado?"

Yukina corou enquanto levantava-se e Genkai e Tetsuo riam dela. "Hn, não. Sou só amigo de Genkai e Yukina," replicou Kurama.

"É-é..." Yukina gaguejou. "Vou buscar mais xícaras para vocês,"

"Já faz muito tempo desde que vi seu templo tão cheio de gente," Kurama falou para Genkai.

"Ainda não sei quem você é, garoto," Saiyuki insistiu, irônica. Ela viu Aikawa olhar feio para ela, mas não se importou.

"Minamino desu. E você?"

"Tanaka Saiyuki e esse é meu..."

"Aikawa Rodolfo." Rodolfo interrompeu-a e olhou para Kurama, um pouco confuso.

"Rodolfo. É um nome bem diferente," Kurama murmurou, como se falasse consigo mesmo.

"Para japoneses, sim, é. Sou brasileiro, meu pai é japonês,"

"Ah, interessante,"

"Sério?"

Todo o dia passou-se sem quaiquer acidentes. Rodolfo e Saiyuki tiraram o dia fora, na praia, explorando todos os lugares. Após a previsão dela da chegada de Kurama, nenhuma visão parecera surgir. Genkai passou o dia meditando sobre os poderes da menina e Ikiko treinando sua música nova. Yukina tomou conta da comida e Kurama passeou por aí. Depois do almoço, ambos passearam e conversaram juntos. O primeiro dia daquele feriado terminou e começou a chuviscar, e então a chuver forte. Kurama estava no seu quarto quando ouviu um grito feminino vindo da entrada.


xx março 2004

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