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A Maldição
por Rechan
Livro Um - Pesadelo
- Capítulo 3: Véu de Gelo -
Genkai sentou-se no futon imediatamente, olhando em redor. Seu quarto
encontrava-se mergulhado na escuridão e silêncio, e
no entanto... No entanto, havia algo errado, terrivelmente errado.
Ela passou lentamente as costas de uma mão por sua testa,
removendo o suor provocado por aquele repentina sensação
de urgência. Estava cansada e tornou a se deitar. Passado alguns
minutos, porém, abriu novamente os olhos. Não conseguiria
dormir com aquele maldito pressentimento. Não conseguia enxergar
de onde este pressentimento se originava. Seria por causa da garota,
Saiyuki? Não, não podia ser. Não ficaria tão
pertubada por causa de sonhos premonitivos. Afinal, sempre havia
humanos cujos reiki manifestavam-se, mesmo que o possuidor não
soubesse de sua existência ou tivesse controle sobre ele.
Não, era algo mais. E de alguma forma, acha-se ligada a...
A o quê, velha?, pensou consigo mesma. Tudo estava normal há anos,
com exceção do rapto de Hiei há quase dois anos,
o grupo de Yusuke não trabalhava mais ao lado de Koenma. Cada
um seguia sua vida como podia. Menos ela, que não conseguia
encontrar conforto nesta vida. Fora feliz uma vez... Há muitos
anos, quando ainda era jovem e Toguro era seu companheiro de lutas.
Agora não passava de uma velha que não aprendera a
superar as decepções do passado.
Dedicara-se as artes marciais muito cedo, e se afundara neste mundo
quando Toguro desaparecera. Se pelo menos quando jovem não
fosse tão radical, talvez ela tivesse conseguido transformar
Toguro novamente no que ele uma vez o fora: um jovem mestre de artes
marciais e reiki, bom e disciplinado, e principalmente, dono do seu
coração... Por que se contentara com tão pouco?
Por que não lutara por aquele amor?
Genkai suspirou e fechou com força os olhos; a velhice trazia
sabedoria era verdade, mas também trazia o arrependimento...
Sim, ela possuía aquele sentimento, embora procurasse esquecer
treinando ou meditando. Toguro... Como estaria? Será que já expiara
os pecados e descansava em paz? Será que a esquecera?
Novamente a velha senhora sentou-se, estreitando os olhos. Havia
uma movimentação no templo, ela finalmente conseguia
distinguir energias espirituais duelando. Dois youki estavam em choque,
enquanto... Sim, havia um terceiro quase a zero. Genkai pôs-se
de pé num salto, e correu até a varanda.
Arregalou os olhos ao ver a cena invernal a sua frente; não
poderia estar nevando ainda, faltavam algumas semanas para o inverno
começar. Baixou os olhos, fitando a neve e encontrou Yukina
caída no chão. Rapidamente, Genkai correu até ela;
agachando-se, a mulher percebeu que a menina ainda respirava, embora
com muita dificuldade. Ela agarrou a adaga de gelo e arrancou-a do
corpo, jogando-a fora. No lugar da ferida, o sangue de Yukina já se
cristalizava. Bom, pelo menos isso deve deter o sangramento um pouco,
pensou. Genkai levantou-se, abrançando o próprio corpo
por causa dos ventos gélidos que sopravam, e ela estava descalça
e com uma simples camisola, e a temperatura ali estava muito baixa.
A velha olhou na direção em que os youki se confrontavam.
Assistiu enquanto Kurama era atingido por um golpe de uma menina
pequena, e começava a ser preso num invólucro de gelo.
Ela permaneceu imóvel enquanto a garota saltava com agilidade
da árvore em que encontrava e dirigia-se até ela. Genkai
pôs as mãos nas costas e esperou.
"Afinal," a menina perguntou insolente, ao chegar perto. "O
que a Criança Proibida tem de tão especial para tanta
comoção?"
"Criança Proibida?" Genkai olhou de soslaio para
o corpo desfalecido. "Garota, esse lugar é um templo,
não gosto de disputas aqui."
Uina sorriu divertida, e Genkai pôde sentir uma forte lufada
de vento se formando ao redor da garota. Por fim, o vento avançou
para a velha mestra, chicoteando-lhe o corpo. Com muito esforço,
ela conseguiu manter-se de pé, mas seu corpo ficara dolorido,
e ventos fortes ainda a fustigavam. Ela franziu o cenho, e aproximou
as mãos na altura de sua cintura. Seu reiki fluiu imediatamente
para a palma, concentrando-se entre as extremidades. Enquanto isso,
a névoa se adensava em torno de Uina e pequenos cristais de
gelo se formavam, emoldurando sua figura.
A koorime sorriu mais uma vez e estendeu um braço na direção
de Genkai. Os cristais de gelo e a névoa pareceram seguir
esse movimento e envolveram delicadamente o membro de sua senhora.
Então, abruptamente, ela abriu a mão e o conjunto de
gelo e brumas avançou para fora de seu corpo, abraçando
a pequena constituição de Genkai, que de cenho franzido
asssistia a tudo. Num instante, a velha estava envolta numa espécie
de véu de gelo. Uina falou-lhe:
"Abayo." e simplesmente deu de costas e começou
a partir do templo. "Esse véu vai congelar seus ossos;
mas não se preocupe," ela deteve-se e olhou por sobre
os ombros. "seu corpo ficará conservado... Mas quem iria
querer uma carcaça velha, não é?" terminou,
com um sorriso maldoso.
Atendendo a um comando mental, os cristais de gelo pareceram aumentar
em quantidade e grudavam no corpo de Genkai. Por estranho que parecesse,
ela estava indiferente ao frio cortante que atingia o corpo e parecia
parar a circulação sanguínea. Uina continuou
seu caminho, parando momentaneamente sob a árvore de Kurama
e lançando um olhar irônico para a raposa, comentou:
"Quando me for, tudo começará a voltar ao normal.
Infelizmente para você, não será rápido
o suficiente para evitar que morra por hipotermia," ela riu
e piscou o olho. "Acho que disse que o nome da outra criança ímpia
era Hi..."
Kurama assistiu quando uma grande explosão de reiki colidiu às
costas de Uina. A garota urrou de dor, apertando os olhos, sendo
lançada alguns metros adiante. Fracamente, o rapaz desviou
o olhar, para direção de Genkai. Ela tinha arranhões
pelo corpo, e uma pequena chuva de cristais de gelo pulverizados
caía sobre ela. Genkai arfava, e Kurama observou enquanto
o corpo dela envelhecia gradualmente, retomando sua aparência
normal.
Genkai sentia-se esgotada, mas mesmo assim, adiantou-se até a árvore
em que Kurama acha-se preso. Sem tirar os olhos de Uina, a velha
pulou no galho. "Como está?" perguntou.
"Hn. Morrendo de frio." ele respondeu fracamente, gaguejando.
Genkai posicionou as mãos sobre a capa de gelo e seu reiki
iluminou-as. Logo o gelo começou a rachar e num segundo, espatifou-se.
Kurama arriou no galho, respirando profundamente. Sentia próprio
corpo congelado e sem forças. Ao tentar levantar-se, descobriu
que suas pernas não o obedeciam. Ele suspirou. "Meu corpo
não me obedece," comentou, a voz saindo quase inaudível.
"Não me admira," Genkai replicou. "Ficou muito
tempo nesse clima, e ainda por cima preso no gelo." a velha
mestra deixou-se cair do galho até o solo e então dirigiu-se
ao corpo estirado de Uina. Agachou-se e rapidamente pôs dois
dedos no pescoço da koorime, procurando sentir-lhe o pulso.
Nada. Um filete de sangue escorria pelo canto da boca, o único
indício de ferimento.
"Temos que levar Yukina para dentro," ela comentou, enquanto
observava os débeis esforços de Kurama para recuperar
o controle sobre o corpo. Procurando esquecer o frio que também
sentia, que parecia estar invadindo cada célula de seu corpo,
Genkai virou-se e se dirigiu para Yukina. "Temos todos que ir
para dentro," resmungou ela entre dentes cerrados.
Enquanto aproximava-se da koorime, abraçando o próprio
corpo, tentando reter algum calor nele, a velha senhora sentiu um
reiki despertando. Um dos humanos que estavam adormecidos dentro
do templo acordara, e parecia encaminhar-se para ali. Ótimo,
assim alguém vai poder carregar Yukina. Estou fraca demais
para isso, e Kurama mal consegue se por de pé..., pensou consigo
mesma. Deu uma olhada para trás ao ouvir um barulho, e viu
que tratava-se da raposa, que ou tentara descer da árvore
ou simplesmente escorregara lá de cima, e encontrava-se agora
vergonhosamente espatifado no chão. Genkai não conseguiu
reprimir uma risadinha. Ainda bem que a neve ali estava fofa...
"Genkai-sama!" a voz de Tetsuo fê-la olhar para
a varanda. Era claro que ele acabara de acordar, vestido com apenas
uma calça. Assim como todos que chegaram antes dele, Tetsuo
admirava espantado a neve em torno. "O que aconteceu aqui?"
"Discutimos isso depois. Pegue Yukina e leve-a para dentro." ante
essa ordem, o rapaz correu até ela e agilmente pegou o pequeno
corpo gelado nos braços, levando-a para dentro. Depois que
o garoto entrou, Genkai olhou por sobre os ombros e gritou: "Kurama! É melhor
se apressar ou vai virar um picolé aqui fora!"
Saiyuki bocejou e espreguiçou-se enquanto dirigia-se para
a sala. Dormira mal aquela noite, tivera outro pesadelo e sentira
um frio inexplicável. Porém, mesmo não tendo
encontrado solução para suas premonições,
começava a sentir-se melhor ali; talvez Aikawa estivesse certo,
tudo que ela precisava eram férias.
A porta do aposento estava aberta e não havia nada lá dentro.
O kotatsu acha-se vazio e ninguém parecia ter aparecido para
comer. Confusa, a garota voltou-se e caminhou até a cozinha.
Lá ela encontrou Genkai, preparando um café.
"Genkai-sama," ela chamou, enquanto entrava na cozinha. "Bom
dia."
A velha senhora não se moveu. "Bom dia. Se quer comer,
pegue algo nos armários."
Saiyuki olhou para a mobília indicada. "Onde está todo
mundo? Yukina-san não acordou?" perguntou, enquanto abria
o armário e escolhia um pacote de biscoito.
Genkai não respondeu, preparando uma bandeja com uma sopa.
Ela pôs café numa xícara e entregou-a a Saiyuki.
Enquanto saía com a bandeja, ela falou. "Pode me fazer
um favor? Faça o café-da-manhã hoje. Yukina
não está bem."
"H-hai," ela assentiu.
Genkai deslizou a porta do seu quarto atrás de si. Yukina
estava deitada num futon ao lado do seu. A velha senhora sentou-se
ao seu lado e verificou a febre da garota; Yukina estava pálida,
perdera muito sangue. Genkai afastou a coberta e olhou o curativo;
precisava ser trocado, mas isso podia esperar até que a menina
se alimentasse. Ela levantou a cabeça da koorime um pouco,
chamando-a suavemente pelo nome. Yukina demorou alguns instantes
para reagir. Genkai aproximou a colher da boca dela.
"Coma." ordenou e a koorime abriu um pouco a boca. O líquido
deslizou facilmente para o interior e Yukina enguliu-o com dificuldade,
engasgando no processo.
A porta se abriu lentamente, revelando Tetsuo. O rapaz ajoelhou-se
ao lado de Genkai. "Como ela está?"
Genkai balançou a cabeça e suspirou. "Ainda inconsciente.
Não entendo," ela comentou. enquanto tirava algumas mechas
dos olhos da koorime. "Só o ferimento não causaria
um estrago tão grande."
"Em choque?"
"Talvez..." ela olhou fixo para Tetsuo. O ningen fitava
Yukina de um modo estranho.
"Ela não é humana, não é?" comentou
distraidamente. "Engraçado, quando a conheci, nunca me
passou pela cabeça que ela fosse do Makai."
Genkai continuou a alimentá-la em silêncio. Tetsuo
levantou-se e despediu-se, encaminhando-se para fora do quarto.
Kurama espirrou pela quinta vez no último minuto e puxou
a coberta mais para si. Acordara havia uma hora já, mas decididamente
não tinha disposição para se levantar. Virou
de lado, espirrando no processo. Sentia-se fraco e o corpo pesado,
a cabeça parecendo que ia explodir. Ele fungou, enquanto colocava
uma mão na testa, testando a temperatura. Estava alta. Na
verdade, muito alta. Precisava sair e procurar sementes para se cuidar,
ou então simplesmente caçar um remédio nos armários
de Genkai. Faria isso, se pelo menos tivesse força para tanto.
O youkai fechou os olhos, desejando dormir novamente, satisfeito
por Aikawa e Ikiko já terem acordado e saído em busca
de comida. Ele suspirou e segurou uma lágrima que insistiu
em se formar no canto do olho. Talvez ficar só não
fosse assim tão bom... Dava-lhe tempo demais para pensar e
lembrar... Mas que droga!, ele pensou consigo mesmo, abrindo os olhos
com raiva. Com muito esforço, Kurama sentou-se e olhou em
torno, procurando fixar o pensamento em algo diferente do que as
lembranças de Akane. Sua mente ficou tonta por um instante,
e Kurama voltou a espirrar. Como ele queria que Akane estivesse ali,
para cuidar dele...
Fungando, Kurama lentamente pôs-se de pé e mais lentamente
ainda empurrou o corpo por todo curto caminho até o banheiro.
Assim que entrou, trancou a porta atrás de si, querendo ter
um pouco de tranqüilidade. Caminhou direto para o espelho, pendurado
acima da pia. Ousou encarar o próprio rosto refletido, assustando-se
com o que viu. Não pôde evitar um risinho cínico;
se vissem seu estado, nenhuma das funcionárias do escritório
de Hatanaka ousaria lhe lançar insinuações ou
*esquecer* bilhetinhos com números de telefone em cima de
sua escrivaninha ou dentro de sua pasta. Não que ele prestasse
muita atenção a esse assédio.
Voltou a olhar o próprio rosto, amassado pelo sono, e corado
pelos constantes espirros. Ele parecia tão cansado, tão...
sofrido. Com um suspiro, Kurama abriu a torneira e lavou o rosto.
Enquanto o enxugava, um pensamento perdido passou depressa por sua
mente. Como estaria Yukina agora? Teria ela recobrado a consciência?
Quando fora dormir na noite anterior, ela ainda se encontrava desmaiada.
E Hiei? Será que ele soubera do ataque, ele teria sido atacado
também? Uina dera a entender que as koorimes haviam decidido
caçá-los então alguém devia ter ido atrás
dele no Makai. Não que Kurama acreditasse que Hiei pudesse
realmente temer as damas de gelo, além do que, Mukuro estava
novamente com ele. Kurama sorriu. A mulher tornava-se tremendamente
ciumenta e possessiva quando o assunto era o pequeno koorime.
Após fazer sua toalete, Kurama saiu do banheiro em busca
de um comprimido para sua dor de cabeça. Não ia agüentar
esperar para procurar alguma planta em pleno fim de outono. Entrou
na cozinha, meio que esperando encontrar Yukina fazendo o café da
manhã como sempre, o cheiro de misoshiro e arroz alcançando
suas narinas. Ficou um pouco confuso ao dar com uma garota com longos
cabelos castanhos escuros parada em frente ao fogão, cozinhando.
Seu coração parou por um breve momento.
"Akane-chan..." ele murmurrou baixinho, enquanto dava
um passo a frente, ansioso para tocar-lhe o rosto, abraçá-la.
Um espirro repentino fê-lo estancar, envergonhado.
A garota virou-se ao ouvir o som, e Kurama ficou decepcionado por
perceber que não se tratava da irmã de Hiei. Ele fungou,
envergonhado, procurando algo para se ocupar. Notou que ela continuava
a observá-lo, então ele finalmente falou. "Desculpe.
Acho que peguei uma gripe esta noite." Kurama adiantou-se até os
armários, abrindo-os, em busca de um remédio. Onde
diabos Genkai-shihan os guarda?, pensou distraidamente.
"Uma gripe? Nossa, como conseguiu? Se bem que fez bastante
frio ontem à noite. Estranho, não é? Geralmente
só neva daqui a algumas semanas,"
Kurama parou o que fazia, desconcertado, ainda sentindo-se um estúpido
por ter pensado na possibilidade de Akane estar viva, fazendo o café da
manhã ali. Aquilo o fez lembrar-se de algo. Ignorando o comentário
da garota, ele a indagou.
"Hum... Onde está Yukina-san? Ela costuma preparar as
refeições aqui,"
"Parece que está doente. Deve ter pegado uma gripe também." Saiyuki
desligou o fogo e enquanto falava, caminhou até Kurama. O
youko sobressaltou-se um pouco com a aproximação dela,
principalmente quando ela delicadamente colocou uma mão sobre
sua testa e a outra sobre a de Kurama, obviamente verificando a presença
de uma febre. "Puxa, você está quente mesmo." comentou.
"Eu sei. Estou... Estou procurando um comprimido, minha cabeça...
está doendo um bocado..." Kurama balbuciou, meio sem
jeito. Incomodava-o a confusão que fizera e pegou a mão
da sua testa, pretendendo afastar-se dali. Talvez fosse melhor ir
embora do templo. O lugar estava movimentado demais para que ele
descansasse.
Ouviram um barulho e voltaram os rostos para a direção
da entrada. Aikawa e Tetsuo estavam lá parados, olhando para
os dois. Saiyuki percebeu que o rosto do namorado começava
a tomar um tom de rosa profundo. Tetsuo fechara a cara rapidamente.
Ela voltou a olhar para o rapaz a sua frente e de repente viu o que
irritou a ambos. Ela estava frente a frente com um rapaz que eles
haviam conhecido há pouco tempo, segurando sua mão.
E sem dúvida nenhuma ele era bonito. Engraçado, somente
agora ela notara como ele era bonito. Ela corou furiosamente e puxou
a mão. Desconcertada, apressou-se até o fogão.
De sua parte, Kurama espirrara e tossira. Simplesmente cumprimentou
os rapazes e continuou a procurar o bendito remédio. Agachou-se
para verificar os armários de baixo, mas um tapinha no ombro
o fez voltar a cabeça. Tetsuo encontrava-se às suas
costas, de cenho franzido.
"Será que tem um tempo? Queria conversar com você." ele
disse, apontando para a entrada da cozinha. Kurama levantou-se devagar,
ainda se sentindo tonto e a cabeça explodindo de dor.
"Algum problema?" perguntou, num tom que deixava claro
que não tinha intenção nenhuma de conversar.
Tetsuo olhou de esguelha para Saiyuki e Rodolfo, que conversavam
baixinho e disse, voltando a encarar a raposa. "Vários," e
começou a andar para o corredor. Kurama franziu o cenho, mas
acompanhou-o.
Kurama seguiu o humano até a varanda do templo, tossindo
e espirrando. Droga, o que ele fazia ali? Precisava caçar
um remédio para a gripe e em vez disso ia ter que agüentar
a conversa do antipático rapaz que infelizmente decidira passar
o mesmo feriado que ele no templo de Genkai. Ultimamente, ele estava
numa maré de azar.
Tetsuo sentou-se no corrimão da varanda, enquanto o youko
parava à sua frente. Ikiko ficou alguns segundos observando-o
com desprezo nos olhos, como se ele tivesse feito algo que lhe desagradara.
Kurama devolveu-lhe o olhar no mesmo tom, irritado.
"Então," começou Kurama. "O que você quer?"
"Não se preocupe," Tetsuo riu. "Não
sou tão infantil como Aikawa para achar que você estava
tentando algo com Saiyuki na cozinha." Ikiko fez uma pausa,
enquanto olhava para o terreno à frente do templo por sobre
o ombro. "O que diabos aconteceu aqui ontem?"
Kurama assumiu uma expressão calma e aproximou-se do corrimão,
olhando na mesma direção que o ningen. O terreno não
continha mais nenhuma lembrança da invasão da noite
anterior, toda a neve havia derretido inexplicavelmente rápido;
o corpo de Uina desaparecera, mas Kurama presumira que Genkai devia
tê-la enterrado em algum lugar. Suspirou, quando Tetsuo repetiu
a pergunta.
"Aconteceu extamente o que você viu. Uma maluca entrou
aqui e atacou Yukina."
Tetsuo sorriu cinicamente. "Certo." ele olhou curioso
para o rapaz ao seu lado. "E você, como um bom garoto,
correu para ajudá-la. Nem mesmo notou que nevou de repente
por aqui. Minamino, não sou idiota,"
Kurama estreitou os olhos ao fitar Tetsuo. "Qual é o
problema com uma mudança repentina de clima, Ikiko-san?"
"Nenhum, principalmente se se conhece os tipos de amigos que
Genkai-sama possui,"
"Que tipo de amigos?" Kurama virou-se para ele, ainda
mais irritado. Não estava com paciência para joguinhos,
muito menos interessado em revelar sua verdadeira natureza para um
ningen que por acaso tinha acesso ao seu reiki.
Tetsuo encarou-o por uns segundos com uma expressão séria,
mas logo depois desanuviou o rosto. Pôs-se de pé e enfiou
as mãos nos bolsos da calça. "Você não
finge tão bem assim, Minamino. Há falsidade em tudo
que faz, em que fala. Se não quer revelar agora, tudo bem." ele
caminhou de volta.
Kurama assistiu-o sair, com uma expressão preocupada. Não
compreendia muito bem as intenções do rapaz, a insistência
em que ele revelasse sua identidade. Uma tosse forte o fez sair do
mar de pensamentos e lembrar-se que precisava cuidar-se e verificar
o estado de Yukina. Com essas idéias na cabeça, ele
também se dirigiu ao interior do templo.
Abayo > adeus
Hipotermia > condição em que a temperatura do corpo é reduzida
a um nível em que a circulação do sangue é impedida.
Pode ser revertida se a vítima for atendida rapidamente e
não se tenha passado muito tempo sob exposição;
Futon > estilo de cama japonesa; assemelha-se a um colchão.
Misoshiro > é uma espécie de caldo de sopa. No Japão
o café da manhã é como nosso almoço.
Ningen > humano, pessoa
-shihan > sufixo que signifca mestre. Yusuke costuma referir-se
a Genkai como baabaa (velha bruxa). ^^
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