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A Maldição
por Rechan
Livro Um - Pesadelo
- Capítulo 4: Dúvidas Borbulhantes -
Saiyuki sentiu o ar frio passando por seu corpo; uma corrente
de ar gélido amortecia sua queda. Abriu lentamente os olhos.
Ficou maravilhada com o que viu, embora de algum modo sentisse que
aquilo não era novidade para ela. Era a ali que ela pertencia.
Alguns metros abaixo, havia a superfície de um lago escuro
e calmo, mas ela não conseguia distinguir as margens. De qualquer
forma, não importava. A cada segundo, ela se aproximava mais
e mais, os ventos gelados acariciando seu corpo, um sorriso de alegria
e prazer se formando no rosto. Seu corpo estancou abruptamente a
apenas alguns milímetros da superfície. Preocupada,
ela procurou forçar o corpo para dentro da água, mas
não conseguiu.
Nesse mesmo momento, uma gota, vinda do lago, pingou para fora
d'água
e parou no meio do ar, como que congelada no tempo e espaço.
Saiyuki ordenou aos músculos de seu braço que se movessem,
temendo uma resposta negativa. O braço mexeu-se lentamente,
como se o ar estivesse momentaneamente denso. Não conseguiu
segurar a gota, apenas envolve-la, como que a protegendo, mas isso
fez com que ela pudesse arrastar a gota para mais perto de si.
Não era uma gota. Os olhos de Saiyuki arregalaram-se um pouco
ao admirar uma pequena pérola. Uma pérola? pensou.
De repente, o ar pareceu esquecer-se de mantê-la e Saiyuki
caiu no lago. Ela tentou nadar para manter-se na tona, contudo algo
a impedia. Suas pernas pareciam chumbo, movendo-se lentamente. Sentiu-se
ser tragada pela água, desesperada. Agitava-se enquanto afundava,
gritando em pensamento por socorro. Preciosos segundos se passaram
e nenhuma ajuda veio, enfim, Saiyuki deixou escapar os últimos
resquícios de ar existentes nos seus pulmões, os olhos
se fecharam e ela perdeu-se na escuridão.
Alguns segundos se passaram, antes dela perceber um som distante.
Mesmo sem abrir os olhos, Saiyuki conseguiu sentir e ver com clareza
dois braços avançando em sua direção.
Sobressaltou-se e afastou-se um pouco, porém os estranhos
braços a envolveram num forte abraço. Espantada, Saiyuki
permitiu-se ser confortada, devolvendo o abraço àquele
corpo desconhecido.
***
Aikawa assistia atentamente o ritual realizado a sua frente. Saiyuki,
ajoelhada no chão, no centro da sala, os olhos fechados, respirando
profunda e lentamente. Parecia estar em transe. Estava preocupado
com tudo aquilo, Tetsuo lhe explicara rapidamente a situação
pouco antes daquilo começar. A mestra Genkai, de pé em
frente à sua namorada, esticou os braços e abriu as
mãos, tocando de leve a fronte da menina com ambos os polegares.
Por um momento, Aikawa pensou ter visto um brilho suave nos dedos
de Genkai, porém se houve algo, desapareceu tão veloz
quanto apareceu. Fitou Ikiko, sentado ao seu lado, com uma expressão
séria e preocupada no rosto. Se antes desprezava o amigo de
Saiyuki por tentar tomá-la dele, agora mais do que nunca o
detestava. Voltando a olhar para a namorada, uma expressão
de angústia tomou seu rosto. Por que ela preferira Tetsuo
a ele? Por que não procurara a ele, Rodolfo, para se aconselhar
e se apoiar? Ele sempre quisera ser uma mão amiga, um braço
forte para protegê-la, sempre deixara isso claro. Mas não,
ela escolhera Tetsuo sem titubear. O que mais o irritara no momento
em que soube da verdade era o olhar de escárnio de seu rival,
mostrando-lhe como sabia tudo sobre Saiyuki.
Aikawa desviou-se de seus pensamentos distorcidos ao ouvir um soluço,
que logo foi seguido por muitos outros. Piscou os olhos, voltando
a concentrar-se em Saiyuki. Fitou-a horrorizado. Ela estava abraçando
a si própria, envolta numa espécie de névoa
cinzenta. Ao seu lado, Tetsuo já se encontrava de pé,
mas com um salto, Rodolfo lançou-se até a namorada,
envolvendo-a com seus braços, chamando seu nome. Ela não
respondia, apenas soluçava de olhos fechados. Ele olhou rapidamente
para Ikiko, logo desviando seu olhar para Genkai. Havia uma pergunta
em seus olhos.
Genkai simplesmente pôs uma mão no ombro do rapaz,
apertando-o. Rodolfo olhava para ela aterrorizado, o que tudo aquilo
significava, por que não faziam nada, por que eles apenas
olhavam? Saiyuki estava sofrendo, não conseguiam ver isso?
Mas ele não conseguiu expressar nada disso, pois um nó se
formara em sua garganta e tudo que conseguir fazer era abraçá-la
cada vez mais forte.
"Saiyuki!" tornou a chamar. "Abra os olhos, por favor!"
Ainda soluçando, Saiyuki atendeu finalmente ao chamado. Lentamente
seus olhos foram se abrindo, revelando uma verdadeira angústia.
Para tristeza de Rodolfo, ela começou a se debater e a chorar
convulsivamente. "Saiyuki!" Rodolfo implorou.
"Não, não!" ela gritou, enquanto tentava
empurrá-lo. Tetsuo inclinou-se e agarrou-a pela cintura, tirando-a
de cima de Rodolfo, que espantado, não reagia aos ataques
da garota. Ele a carregou para um canto da sala e começou
a lhe falar baixinho. Rodolfo observava aquilo chocado, enquanto
via sua namorada acalmar-se ante o som da voz de Ikiko.
Mais uma vez a mão de Genkai apertou seu ombro, e ele voltou-se
para ela, uma lágrima escorrendo por um olho. A velha simplesmente
balançou a cabeça e mandou-lhe procurar um copo de água
com açúcar para a menina.
"Não vou sair daqui até que ela melhore e vocês
me contem o que fizeram com ela para deixá-la assim," protestou.
"Faça o que eu disse!" esbravejou Genkai. "Não
vai ajudar em nada ficar choramingando." ela continuou, num
tom mais suave, embora ainda assim duro. Sem jeito e aborrecido,
Rodolfo levantou-se e saiu na direção da cozinha.
"Acha que foi uma boa idéia deixá-lo assistir
isso?" perguntou Tetsuo. Genkai olhou fixadamente para ele,
em silêncio. Saiyuki ainda choramingava em seus braços,
agarrando-se com força na camisa do rapaz. Enfim, a velha
mestra assentiu.
"Ele é o namorado dela, Tetsuo, não você." ela
começou, sarcástica. "Vai ser bom para ela que
ele saiba, assim não precisa mais ter segredos..." ela
terminou, pensativamente. Tetsuo manteve-se olhando para ela, sem
entender.
Cerca de dois minutos se passaram antes de Aikawa voltar com um
copo na mão. Ao entrar, notou que Genkai estava sentada no
centro da sala, lado a lado com Tetsuo, enquanto Tanaka acha-se sentada
de pernas cruzadas em frente a ambos. Silenciosamente, ele dirigiu-se
até os três, sentando-se ao lado da namorada e entregando-lhe
o copo com água. Ela o aceitou com as mãos trêmulas.
"Você está bem?" Aikawa perguntou, acariciando-lhe
o cabelo. Ela assentiu com um semi-sorriso forçado e começou
a beber o líquido. "O que aconteceu aqui?" ele tornou
a questionar Genkai.
"Nada." Genkai respondeu em poucas palavras. Uma grande
gota de suor formou-se na testa de Rodolfo.
"Como é?!"
"Não fiz nada demais. Apenas estimulei o reiki de Saiyuki." ela
viu a garota engulir em seco.
"Reiki? O que é isso?" Aikawa se inclinara para
frente.
"Todo ser humano possui energia espiritual, o reiki, que normalmente
fica em estado latente," começou Tetsuo, enquanto cruzava
os braços. "Em alguns humanos, no entanto, o reiki se
manisfesta naturalmente."
"Quando uma pessoa pode ver espíritos, ou conversar
com eles, é através do reiki. No caso de Saiyuki, em
especial, o reiki se manisfestou através de sonhos premonitivos." continuou
Genkai.
Aikawa olhava espantando para Genkai. De repente, ele franziu o
cenho e gritou. "Você *acha* que vou acreditar nisso?
Reiki, sonhos e mediunidade?"
"Não me importa se acredita ou não. Mas, me diga,
Aikawa, acredita mesmo que Saiyuki esteve fingindo tudo aquilo?"
Aikawa ficou boquiaberto, sem resposta. Fitou a namorada com os
olhos arregalados. Saiyuki havia abaixado a cabeça e soluçava
baixinho; envergonhado, ele pôs a mão no ombro dela,
e Saiyuki virou o rosto para ele. O coração de Rodolfo
se apertou ao ver as lágrimas escorrendo. Ele sabia que era
verdade, tinha que ser, pois Saiyuki não encenaria todo aquele
espetáculo, nem tinha motivo para isso, mas... Ele não
queria acreditar.
"Genkai-sama," chamou Tetsuo. "Por que acha que os
sonhos de Saiyuki-chan têm se tornado tão fortes ultimamente?"
"Provavelmente porque ela se acha ligada a eles. Talvez os
acontecimentos também a envolvam."
Uma mão removeu delicamente alguns fios de cabelo de Yukina
que caíam sobre os grandes olhos fechados. O quarto estava
na semi-escuridão, apesar da tarde ainda estar no seu início.
Kurama verificou cuidadosamente a febre e sorriu ao perceber que
ela praticamente desaparecera. Yukina finalmente estava mostrando
melhora. Ele então afastou a coberta do peito da garota e
começou a tirar o yukata que cobria o corpo de Yukina. Sua
expressão era séria, não se sentia confortável
para fazer isso, mas Genkai-shihan pedira pois teria que cuidar dos
assuntos daqueles três visitantes do templo.
Enquanto expunha a pele pálida da dama do gelo, passou pela
cabeça da raposa a possibilidade de Kuwabara ou, pior, Hiei
entrarem de repente no quarto. Claro, aquilo era impossível,
uma vez que Kuwabara estava muito ocupado estudando para as provas
que aconteceriam na sua faculdade depois do feriado, em Tokyo, e
Hiei... Bom, ele não saía do Makai há um bom
tempo. De qualquer forma, a idéia era simplesmente hilária
e aterrorizante ao mesmo tempo. O abrutalhado humano, não
sabendo da ferida da menina, provavelmente gritaria e choraria, pensando
que ele tinha um relacionamento secreto com a koorime, ou então
que estava tentando estuprá-la. E então iria querer
limpar a honra da menina... Extremamente previsível... Kurama
não se impediu de dar uma risadinha.
Com a porção superior do yukata afastada, Kurama pôde
contemplar o corpo semi-nu da koorime. Os seios, cobertos pela bandagem
que protegia o ferimento, subiam e desciam num ritmo constante. Habil
e cuidadosamente, Kurama desatou o nó e começou a desenrolar
a faixa. Nesse momento pensou em Hiei adentrando o lugar como um
vento frio e negro. Ele levantou uma sombracelha. Não tinha
muita certeza da reação de Hiei neste ponto. Ele estaria
cuidando de sua irmã gêmea, portanto, de certo modo,
fazendo-lhe um favor, mas Hiei não era do tipo que acreditava
em favores. O youkai o atacaria por estar numa situação
de tamanha intimidade com ela? Hiei não se importara ao saber
do relacionamento entre o youko e Akane, mas talvez ele estivesse
muito atordoado com a morte dela, ou não se preocupasse tanto
com ela como com Yukina. Kurama não sabia a resposta para
essas dúvidas e nem tinha certeza se queria tê-las esclarecidas.
Enfim, a pele de Yukina mostrou-se a Kurama sem nenhum obstáculo.
A raposa rapidamente agarrou o pote que continha o creme que ele
fizera com as plantas medicinais que achara numa busca pelo território
do templo, no dia anterior. Mergulhou dois dedos e pegando uma boa
quantidade, começou a espalhá-lo suavemente na ferida
parcialmente aberta, um pouco acima do seio direito. O seu desconforto
aumentou quando se descobriu apreciando o pequeno mamilo rosado;
sacudiu a cabeça, tentando distrair a atenção.
Sempre vira Yukina como uma menina, irmã de Hiei, e namorada
de Kuwabara-kun, quando ele finalmente resolvesse se declarar formalmente
a ela. Yukina era ingênua e de uma alegria infantil, lembrando-lhe
uma criança humana em seus primeiros anos de vida. Com esse
pensamento, olhou novamente para o corpo exposto e corou. Sua mão
deslizara enquanto divagava e se encontrava agora sobre o seio.
Depois de xingar-se mentalmente, Kurama limpou os dedos num lenço
e com ele removeu os excessos do creme por sobre o seio. Agora sim,
Kuwabara e Hiei teriam motivo para arrancar sua cabeça, se
entrassem naquele instante. Rapidamente, o youko pegou as bandagens
e voltou a envolver o corpo de Yukina nelas. Ao refazer o nó,
começou a por o yukata novamente. Foi quando ouviu um arquejo.
Olhou o rosto da koorime. De olhos semi-cerrados, Yukina o observava
fracamente; Kurama corou num tom ainda mais vermelho. Ela acordara,
afinal de contas, mas... quando? Teria ela visto o que ele... o que
ele sem querer fizera? Desconcertado, a única solução
que ele via era agir naturalmente.
"Yukina-san?" ele chamou baixinho, quase num sussurro.
Ela não respondeu e Kurama voltou a chamar-lhe.
Yukina lentamente passou a língua pelos lábios ressequidos;
pela expressão no seu rosto, parecia a Kurama que lhe era
doloroso até esse simples gesto. Finalmente, ela emitiu um
som engrolado, impossível de ser compreendido. Kurama esqueceu
o yukata e segurando delicadamente a nuca da garota, ergueu um pouco
a cabeça.
"Precisa de alguma coisa?" perguntou, mas desta vez ela
simplesmente ficou fitando-o fixadamente com os olhos semi-cerrados.
Por fim, ela fechou novamente as pálpebras e pareceu voltar
a dormir.
Kurama ajeitou a cabeça dela no travesseiro e terminou de
colocar o yukata. Cobrindo a koorime, Kurama pegou suas coisas e
saiu do quarto.
O céu do Ningenkai já estava tingido de várias
cores, vermelho, rosa e um profundo laranja no horizonte. Com a mão
esquerda acima dos olhos, Saiyuki olhou para o crepúsculo,
inspirando profundamente. O terceiro e último dia daquele
feriado estava terminando e ela sentia-se aliviada com isso; ela
expirou e olhou carinhosamente para o namorado, que ajeitava sua
mochila nas costas e pegava a pequena mala dela. Tetsuo despedia-se
de Genkai e Minamino.
"Vou analisar os sonhos dela e assim que descobrir algo, telefono
para você," avisou a velha para Tetsuo. O rapaz assentiu
com a cabeça e despediu-se.
"Saiyuki-chan, Aikawa. Vamos!" ele gritou, enquanto começava
a descer a enorme escadaria em frente ao Templo.
Saiyuki adiantou-se até Genkai. "Obrigada. Vou seguir
seus conselhos para aprender a controlar meu reiki." ela sorriu
e continuou. "Espero que Yukina-san melhore logo."
Enquanto Rodolfo agradecia e despedia-se de Genkai, Saiyuki virou-se
para Kurama. "Espero que você também melhore logo,
Minamino-san,"
"Minha gripe já está passando, obrigado." ele
agradeceu.
Aikawa e Tanaka desceram correndo os degraus, atrás de Ikiko. "Sayonara!" a
garota gritou, antes de sumir na escadaria.
Kurama e Genkai observaram os dois até que ficassem fora
do alcance da voz. Nesse instante, a pequena velha olhou de esguelha
para a raposa e voltando a olhar a escadaria, perguntou. "E
você?"
"Hum?" Kurama olhou para ela curioso. "Estava esperando
eles irem embora, não pretendo ir para Tokyo agora,"
"Eh. Não me diga que vai ficar mais alguns dias." Genkai
comentou, um pouco irritada. Imediatamente ela arrependeu-se do seu
tom de voz, mas não se corrigiu.
"Não se preocupe, eu vou para o Reikai." ele respondeu,
rindo, e passou por ela, pretendendo entrar no templo.
"Reikai? Para quê?" uma sombracelha da velha senhora
ergueu-se levemente, enquanto ela seguia Kurama pelo interior de
seu lar.
"Estou preocupado com o aparecimento de Uina anteontem," ele
parou, virando-se para ela. "E se as koorimes estiverem mesmo
planejando assassinar os dois?"
"Eu acho que Hiei pode se defender muito bem, e quanto a Yukina,
eu estou aqui, não estou?"
"É, você está certa, mas..." Kurama
fechou os olhos. "Acho que estou com um mal-pressentimento.
Não custa nada ir perguntar ao Reikai, não é?" ele
tornou a abrir os olhos e olhou fixadamente Genkai.
A velha devolveu-lhe o olhar e ficou assim por alguns instantes.
Kurama, você não está se preocupando demais com
Yukina? ela pensou, preocupada. Enfim, deu de ombros. "Faça
o que quiser, mas acho que terá dificuldade em chegar até Koenma.
Lembre-se que você está no Ningenkai sob custódia."
Kurama assentiu em silêncio e caminhou até o quarto,
para pegar suas coisas e partir. Enquanto colocava a jaqueta com
que chegara, ele pensava sobre o que a mestra dissera. Genkai tinha
razão, concluiu. Koenma conseguira a muito custo um acordo
com Enma Daiou, anos atrás, quando ele, Hiei e Yusuke estavam
sendo caçados pelo Reikai como possíveis ameaças.
Graças a esse acordo, Kurama podia ficar no mundo dos humanos
normalmente, mas eles estavam proibidos de pisar no mundo espiritual.
O youko suspirou; ele tinha que tentar, afinal de contas, não
era apenas a vida de Hiei, mas de Yukina também. Agarrou sua
mala e saiu do quarto.
Kurama caminhava por um extenso corredor, localizado na parte dos
fundos do imenso castelo do Reikai. Ele sabia que ali se localizavam
os alojamentos dos funcionários desse mundo, o que incluia
guias espirituais e onis. Os aposentos reais, porém, localizavam-se
num ponto mais acima, cuja real entrada encontrava-se do lado oposto àquele
quartel. Contudo, a fim de evitar eventuais encontros desagradáveis
com algum habitante do lugar, o youko fora trazido por aquele lado,
pois durante a maior parte do tempo, as guias espirituais e onis
estavam ocupados no escritório ou no Ningenkai, recolhendo
almas.
Entrar no Reikai não havia sido realmente tão difícil
quanto ele pensara. As fronteiras entre Ningenkai e Reikai eram bem
menos vigiadas do que a que o separava do Makai. Com suas antigas
habilidades como ladrão, Kurama penetrara naquele mundo facilmente.
De fato, sua maior complicação até então
tinha sido entrar no castelo. Não podia simplesmente chegar
na porta e pedir para falar com Koenma; teria que se identificar
e com isso eles teriam motivo para condenar ele e seus amigos para
voltarem ao Makai.
Enquanto pensava em como entraria, uma vez que as muralhas eram
altas e lisas demais para que ele usasse o Rose Whip ou qualquer
planta sem chamar atenção, alguém gritou alegremente
atrás de si. Botan.
Evitando as naturais perguntas sobre como estava e o que diabos
estava fazendo ali, Kurama lhe explicara que precisava falar com
Koenma imediatamente. Assentindo alegremente, como lhe era natural,
Botan concordou em levá-lo secretamente para dentro do castelo
e fazê-lo encontrar-se com Koenma. Então, ele seguia
a garota de cabelos azuis pelos alojamentos deste mundo.
Botan estancou repentinamente diante de uma pequena porta de madeira,
debruada com metal. Não possuia maçaneta, mas uma corrente
presa com um cadeado enferrujado. Ela apontou para a porta enquanto
falava.
"Essa é uma entrada secreta para os corredores superiores." ela
vasculhou a manga de seu kimono por um tempo.
"Secreto?" Kurama olhou para ela sem acreditar. De jeito
nenhum aquela porta podia ser considerada 'secreta'.
"A-ha." a guia espiritual soltou um gritinho, tirando
da manga uma pequena chave. "Somente os funcionários
mais próximos a Koenma-sama têm a chave que abre a porta," ela
explicou, enquanto girava a chave no cadeado.
A porta abriu-se sem nenhuma dificuldade, e Kurama espionou o interior.
Ficou espantado ao ver que o lugar parecia um armário. Todo
tipo de cobertas, futons, kimonos e yukatas estavam guardados ali.
A raposa olhou para sua companhia com um olhar desconfiado. Botan
deu-lhe um largo sorriso e agarrando a mão dele, entrou no
local, puxando-o consigo. A porta fechou-se com um estrondo assim
que os dois passaram por ela.
"Mas que tipo de local é esse?" perguntou Kurama,
um pouco desconcertado, verificando uma pilha de robes.
"Um armário. Mas aqui," ela respondeu enquanto
agachava-se e tentava puxar um imenso baú de metal. "Atrás
disso aqui, fica a entrada para o andar superior."
Kurama a ajudou a remover o baú, uma vez que ela parecia
estar fazendo muito esforço, sem nenhum sucesso. Assim que
afastou-se da parede, um pequeno buraco mostrou-se. Kurama levantou
uma sombracelha e ajoelhou-se em frente a passagem, removendo algumas
teias de aranha. "Não é muito usada, não é?" ele
perguntou, imaginando pela milésima vez se não teria
sido melhor seguir o caminho principal.
Botan balançou a cabeça afirmativamente e engatinhou
para dentro do buraco. Suspirando, Kurama a seguiu. Após alguns
segundos de confusão devido as espirros provocados pelo pó e
a própria gripe, a raposa conseguiu distinguir uma escada
de metal parafusada na parede oposta. Ele continuou a seguir a garota
de cabelos azuis, que já começara a subir os degraus.
Depois de abrir o alçapão acima de sua cabeça,
Botan sumiu na claridade da abertura. Enquanto subia, a raposa pensou
com tristeza em como antes era só dizer seu nome no interfone
do portão principal, que ele seria aberto sem maiores perguntas.
Difícil imaginar que agora o consideravam uma ameaça
para o Ningenkai e Reikai. Kurama se descobriu dentro de um quarto
amplo.
"Esse é o quarto de Koenma-sama. Por favor espere aqui,
enquanto vou chamá-lo." e ela saiu correndo pela porta.
Sem cerimônia, o rapaz sentou-se numa larga poltrona e esperou.
Após cerca de quarenta minutos, a porta de madeira abriu-se
silenciosamente e o filho de Enma Daiou entrou trotando na sua forma
infantil. Mastigando sua habitual chupeta, ele se aproximou da poltrona
em que o youko estava sentado. Kurama não se movera da posição
em que estava, com um cotovelo apoiado no braço da poltrona,
uma bochecha pressionando o punho fechado. Koenma fez uma careta.
"O que você está fazendo aqui?!" ele gritou
com toda força. "Se meu pai descobrir, você e Yusuke
perderão a permissão para permanecer no Ningenkai!"
O escândalo do
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pequeno não pareceu afetar o youko,
que simplesmente continuou a olhá-lo fixadamente. Irritado
por saber que não conseguiria assustar o youkai deste modo,
Koenma mastigou sua chupeta com mais força ainda e franziu
o cenho. Respirou fundo antes de continuar, mais calmo. "Espero
que tenha um motivo muito forte para se esgueirar no Reikai assim,"
Kurama levantou-se e caminhou até a janela, observando a
vasta extensão de terra do Reikai. O palácio ficava
apenas no início, além dele, as áreas do Reikai
pareciam-se um pouco com alguns territórios do Makai. Finalmente,
ele fitou Koenma por sobre os ombros e explicou sua vinda. "Sabe
se as koorimes estão se agitando atualmente?"
"Koorimes?" a jovem divindade ergueu levemente uma sombracelha,
confuso. "Qual o problema com elas?"
"Não recebeu nenhum relatório sobre o que aconteceu
no templo de Genkai há dois dias?" questionou Kurama.
Koenma balançou a cabeça, um pouco envergonhado e
fazendo uma nota mental de espancar alguns onis por deixarem passar
essa informação. "Há meses não aparece
nada na minha mesa sobre Genkai. Acho que ela já está muito
velha para que o Reikai se preocupe realmente em vigiá-la."
"Vigiá-la? Por que precisaria disso?"
"Bom, na verdade, fazemos isso com todos os humanos que por
um motivo ou outro, conseguem manipular seu reiki. É um modo
de evitar problemas." Koenma saltitou para a poltrona e sentou-se
nela. Kurama o observou, interiormente divertido; ele realmente parecia
estúpido com aquela chupeta azul.
"De qualquer forma, Genkai-shihan não é o tipo
de ningen que precisa ser controlado," a raposa comentou distraidamente.
"É verdade... Por isso, os relatórios são
escassos." Koenma desculpou-se. Mentalmente, agradecia por Kurama
não saber que na verdade, o templo era mantido sob vigilância
devido a presença de Yukina. "O que aconteceu lá?" Kurama
relatou rapidamente todo o incidente com Uina.
Os já grandes olhos infantis de Koenma se arregalaram, enquanto
ouvia a história. Como isso não chegou aos meus ouvidos?,
o pequeno herdeiro do Reikai se perguntava em silêncio. "Entendo," ele
comentou, assentindo, quando Kurama terminou.
"Gostaria que verificasse, Koenma." Kurama pediu, aproximando-se
do garoto.
Koenma ergueu uma sombracelha, levemente divertido. "Kurama,
me diga uma coisa," ele pausou, olhando-o direto nos olhos,
com um sorriso malicioso nos lábios. "Não acha
que está preocupado demais com a irmã de Hiei?"
Kurama espantou-se. "Nani?"
"Ora, Kurama," Koenma agitou uma mão aleatoriamente. "Você sabe,
não acha que isso é serviço para o Kuwabara?"
"Kuwabara não sabe do que aconteceu, e é melhor
assim," um pouco irritado, Kurama começou a encaminhar-se
para a porta. "Por favor, avise-me quando souber de algo,"
Quando a raposa se foi, Koenma permaneceu sentado, alisando o queixo,
com uma expressão de preocupação no rosto.
nani > o quê?
oni > pronuncia-se "ôni", e são, na mitologia
japonesa, demônios.
-shihan > sufixo que indica "mestre"
Yukata > um tipo mais leve de kimono. Na verdade, é como
se fosse um robe simples, desses que se usa por cima da camisola.
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