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A Maldição
por Rechan

Livro Um - Pesadelo
- Prólogo -

Tudo estava escuro, ela não conseguia reconhecer aquele lugar como algum que conhecesse. Ela sentia como estivesse flutuando em pleno ar, até mesmo conseguindo sentir uma brisa gentil soprando em seu rosto. De um ponto que não podia identificar, fumaça veio, enrodilando-se ao seu redor; ela sabia que havia fogo queimando em algum lugar, podia cheirá-lo.

Inesperadamente, um sopro de vento passou por ela e a fumaça se foi. Algo pingou em seu nariz e ela ergueu os olhos. Gelo. Havia gelo em redor, parecendo estar derretendo. Uma coluna de gelo emergiu a alguns metros dela e fogo brotou da base, logo subindo, enrodilando a coluna. Por estranho que parecesse, o gelo não parecia estar derretendo; fogo e gelo, eles pareciam ser um só.

Ela estremeceu, quando sentiu como se seus pés tivessem tocado o chão. Sentiu-se gelada, a atmosfera estava fria; inspirou profundamente, reunindo um pouco de oxigênio em seus pulmões. Deu uma olhada em si mesma, somente para se descobrir nua, usando apenas algum tipo de pérola. Não conseguia se lembrar quem ou quando a ganhara. Esqueceu-a enquanto via algumas coisas brilhando ao seu redor; abriu uma mão e uma daquelas coisinhas pousou nela. Ela olhou para aquilo cuidadosamente e quão surpresa estava! Era um pequenino e brilhante dente-de-leão! Ergueu uma das sombracelhas e olhou em redor. Como uma semente de dente-de-leão estaria num lugar como esse? A semente na sua mão começou a brilhar de repente e ela sentiu um calor preenchendo-a completamente. Ela nunca se sentira protegida assim.

Uma melodia baixinha chegou a seus tímpanos e ela a cantarolou um pouco. Estranho, ela reconhecia aquela música, ela a ouvia todos os dias...

Saiyuki Tanaka acordou lentamente, espreguiçando-se. Tinha gotas de suor molhando todo seu corpo e uma dor de cabeça explodindo sua cabeça. Ohayoo, Tanaka-san. Que tal uma gripe também? ela pensou, olhando pela janela; lá fora, o céu estava nublado e uma brisa fria soprava de vez em quando. Ela ouviu uma música sendo cantada no vizinho e sorriu; seu vizinho estava treinando uma outra canção, uma que, tinha dito, fora composta para ela. Saiyuki riu-se enquanto vestia-se, de modo a ir para a faculdade. Ele sabia que ela adora música. Suspirou, às vezes se perguntava por que nunca saiu com ele, já que ele faria qualquer coisa para seduzi-la.

"Você já tem um adorável namorado," disse para si mesma, rindo.

Seu pai estava dirigindo - ou pelo menos tentando - no trânsito, e ela mantinha sua mente ocupada, pensando sobre todas as coisas que tinha para fazer naquele dia. Apenas para, mais uma vez, seu mais recente pesadelo aparecer na sua mente. Saiyuki suspirou; aquele não era o primeiro nem seria o último; mas por que aquilo estava acontecendo tão frequentemente?

Tanaka Saiyuki era uma garota japonesa comum. Tinha um cabelo longo e uma longa franja; sua pele era sempre pálida, e somente olhando seus olhos castanhos brilhantes alguém poderia dizer com certeza que ela não estava doente. Aos dezesseis anos, tinha sido aceita de modo a cursar Matemática na Faculdade Tamanoguri; seus amigos de escola sempre pensaram nela como uma CDF e estavam parcialmente certos. Saiyuki estudava muito, contudo, algo mais a fazia mais esperta do que eles. Possuía um dom: seus sonhos. Estava acostumada a dormir e sonhar com as provas; quando acordava, já havia visto todas as perguntas e respostas das provas na mente. Quando não sonhava com as provas, seus sonhos lhe contavam sobre o futuro. Mas eram sempre sobre coisas tolas, apenas. Coisas como alguém tropeçando, ficando doente... Há alguns meses apenas, Tanaka começou a sonhar com mortes e coisas enigmáticas. Isso a irritava bastante. Saiyuki nunca gostara de seu dom e nunca contara a ninguém sobre isso, a não ser para seu melhor amigo. Nem mesmo seu namorado sabia disso.

"Tenho que bater um papo com Tetsuo-san,"

"Nani?" perguntou seu pai, buzinando.

"Hn? Não disse nada, otoosan."

Rodolfo pousou sua xícara na mesa, seus dedos tamborilando na borda da mesa, incansáveis. Deu uma olhada no relógio de pulso e ficou ainda mais irritado; ela estava atrasada. De novo. Rodolfo suspirou; se ela não fosse tão adorável e alegre, nunca suportaria os atrasos. Ela era a única razão por ele ficar no Japão, do contrário, teria voltado para o Brasil há muito tempo. Rodolfo arrumou seu cabelo castanho curto e pediu outra xícara de café.

"Duas, por favor," Saiyuki gritou, enquanto sentava-se a frente de Rodolfo. Sorriu para ele, sabendo que deveria estar irritado. "Gomen ne."

"Oi. Por quê? Estou te esperando há meia hora, apenas," ele replicou friamente, enquanto esticava a mão para pegar a dela. "O que aconteceu desta vez?"

"Nada de mais. Tive uma dor de cabeça, não tenho dormido muito bem ultimamente..." respondeu, distraída.

"Saiyuki, não prestou atenção em nenhuma aula ultimamente. Não costuma fazer isso,"

"Ora, todo mundo precisa de um descanso, certo?" Saiyuki olhou de cara feia para ele. Simplesmente detestava quando ele tentava fazê-la falar mais do que queria. "Os feriados estão chegando. Vou descansar um pouco," ela bebeu o café.

"Nós dois podemos descansar, itooshii. Que tal uma viagem?" ele perguntou, também bebendo café.

"Uma viagem? Para onde?"

"Não sei, estava pensando numa praia. No Brasil temos muitas praias para ir, sinto falta delas."

"É uma idéia. Vamos, koibito," Saiyuki começou a se levantar.

"Ei, espere um instante. Por que está tão apressada?" Rodolfo seguiu-a, pegando os livros deles e saindo daquela cafeteria.

Saiyuki voltou sua cabeça na direção dele e piscou. "Tenho que conversar com alguém, só isso."

Rodolfo estancou ante as palavras dela e franziu o cenho; Saiyuki deu uma olhada nele, e vendo-o parado, parou também. "E agora?" ela quis saber, com olhos inocentes. Rodolfo olhou furioso para ela por alguns segundos. Ela era bonita, tinha sorte por estar com ela, contudo simplesmente detestava quando ela preferia conversar com outra pessoa, a não ser ele. Sempre o tratava como a um estranho, nunca abrindo a janela de seu coração para ele.

"Só não consigo entender por que nunca me conta quando está aborrecida," disse Rodolfo, começando a andar. Saiyuki acompanhou-o, olhando fixo para ele.

"Você é tão adorável, sabia? Detesto fazê-lo sentir-se triste, mas..."

"Saiyuki. Você me ama de verdade?"

"Claro que sim. Itooshii... Tem coisas que não se deve dizer para o namorado, são meus segredos interiores,"

Rodolfo respirou profundamente. "Mas você diz para aquele amigo seu, não?"

"Tetsuo-san é meu vizinho e meu amigo há muito tempo; não sei porque você é tão ciumento,"

"Ikiko quer você para ele; não é uma boa razão?"

"Nani?! Você é tão doce, koibito!" Saiyuki disse, beijando-o na bochecha.

Saiyuki apertou a campainha e esperou por alguns minutos. A porta abriu-se então, revelando um homem alto, com um longo cabelo escuro em rabo de cavalo. Seus olhos castanhos brilharam e um sorriso tocou seu rosto, enquanto via sua visita. Saiyuki sorriu em resposta e entrou no apartamento. A sala de estar estava preenchida com um sofá, uma televisão e uma estante de livros; morando sozinho, seu vizinho nunca se preocupara em ter muita mobília.

"Tanaka-san! Faz tempo que não vem aqui." ele reclamou.

"Gomen nasai. Estive ocupada, e Rodolfo-kun não gosta que venha aqui,"

"Bah. Você tem uma criança ciumenta como namorado, sabe disso," enquanto dizia isso, Tetsuo dirigiu-se para a cozinha. "Vou fazer algo para nós, quer chá?"

"Hai. Pode cantar para mim depois, quero ouvir sua voz, ela faz me sentir em paz," ela disse, sentando-se, esfregando suas têmporas.

Tetsuo olhou para ela, e franziu o cenho. Havia algo errado, uma vozinha na sua cabeça lhe dizia isso. Deixou a água fervendo no fogão e encaminhou-se para Saiyuki. "Você está bem?" Saiyuki não respondeu, ficando só olhando fixo para ele. Tetsuo respirou profundamente, reconhecendo agora que ele estava certo. A garota tinha algum problema metido na cabeça dela. Ele voltou-se, fez o chá e entrou na sala segurando duas xícaras. Ofereceu uma a ela e sentou-se ao seu lado.

"Hn, hn. Não me pede para cantar, a menos que esteja deprimida," falou, olhando de esguelha para ela. Viu sua amiga dando um suspiro.

"Lembra-se de quando sonhei com você doente e então sobre sua cura miraculosa?"

Tetsuo assentiu, já conhecendo qual era o assunto. Saiyuki sonhara novamente. Tetsuo acariciou o cabelo dela e puxou-a próximo a ele, esperando que ela falasse. Saiyuki estremeceu, enquanto seu amigo a abraçava e caiu em lágrimas.

"Tenho sonhado com coisas estranhas,"

"Entendo. Não se preocupe, não deve ser nada, só um sonho ruim."

"Não. Você sabe que eu prevejo acontecimentos nos meus sonhos, Tetsuo. É sempre fogo e gelo,"

"Fogo e gelo? Não entendo,"

"Nem eu. Mas acordo sentindo tanta tristeza e angústia, meu coração parece estar falhando,"

"Não se preocupe, vamos descobrir o que isso significa desta vez." Tetsuo levantou-se e ajudou-a a fazer o mesmo. Saiyuki começou a secar as lágrimas com suas mãos e sorriu.

"Arigato, ne? Por me ouvir, ne?"

"Vou tentar descobrir um meio de ajudá-la, certo? Conheço algumas pessoas que sabem interpretar sonhos, vou falar com elas sobre os seus."

"Deixe-me ir com você! Por favor!" Saiyuki gritou, apertando as mãos dele com força.

"Não posso levar você comigo, desculpe."

"Por favor, isso está me incomodando, não consigo esperar por mais tempo," Saiyuki agarrou as roupas dele. Tetsuo suspirou e segurou as mãos dela.

"Saiyuki..." ele começou.

"Você tem andado com caras estranhos, sabia?" ela franziu o cenho para ele e dirigiu-se para porta.

"V-você os viu?"

"Só uma garota ruiva. Não sabia que estava namorando..."

"Não tenho namorada, tomodachi."

"Hn, se você diz... Domo ne?" ela acenou e mandou um beijinho, saindo.

Tetsuo manteve os olhos na porta, sua mente trabalhando rapidamente. Ele pegou sua xícara de chá e sentou-se no sofá novamente. Inconscientemente, bebericou o líquido âmbar lentamente. Respirando profundamente, ele deixou os olhos se fechar e relembrou a primeira vez que sua vizinha tinha lhe dito sobre seus estranhos sonhos. Dois anos atrás...

Cerca de dois anos atrás, Ikiko Tetsuo era um japonês comum, tentando arranjar um emprego. Exatamente então, tinha descoberto sua paixão pela música. Ele e um amigo começaram a tocar em pequenos restaurantes, parques e bares obscuros. Faltava dinheiro, mas as pessoas gostavam deles; algum dia conseguiriam fama. Ikiko começou a tocar e cantar sozinho, depois que seu amigo morrera de repente, de uma doença. Alguns meses depois, ele se descobriu com a mesma doença, e logo foi internado. Nenhum médico lhe deu esperança de sobreviver. E na noite anterior tinha recebido uma visita de sua vizinha adolescente; ela tinha se sentado ao seu lado, segurado suas mãos entre as dela, não falando nada. tetsuo ficou enfeitiçado por ela, uma vez que nunca haviam conversado antes.

À noite ela falara as primeiras palavras. Contara-lhe sobre sonhos e futuro. Dissera que tinha sonhado com a doença e que era apenas um tipo de teste. Apesar de ninguém conhecer a cura, ela viria até ele; ela não podia dizer quando ou como. Lembrava-se de como ele rira amargamente daquilo. Estava amaldiçoado para morrer e nenhuma criança, mesmo doce e adorável, o convenceria do contrário.

Na noite seguinte, porém, sua cura veio até ele, tomando a forma de uma garota ruiva, voando num remo. Tetsuo pensou que estava delirando, ante aquele visão; ela tocara sua testa se afastara rapidamente, quando sentiu quão quente ele estava. Ela sorriu alegremente e tocou seu braço com ambas as mãos. Tetsuo observou-a com os olhos semi-cerrados enquanto sentia algo quente correndo pelo seu braço e se espalhando por todo o corpo; ele focalizou nas mãos dela e ficou espantado em vê-las brilhar fracamente no quarto escuro. Enguliu em seco e murmurrou algo que não se lembrava. Ela focou-se nele com seus olhos verdes e disse:

"Vou te curar, então não se mexa,"

"Nenhum médico pode me curar; por que uma garotinha como você acha que pode?"

"Ikiko-san, você quer ser curado?" ela perguntou num tom rude e ele respondeu assentindo. Então ela continuou. "Então é o que vai acontecer. Infelizmente, nada vem sem um preço..."

"Que tipo de preço você está pensando?'

"Você começará um serviço, só isso," os olhos verdes brilharam.

"Um trabalho? Que diab-" ela pôs um dedo sobre seus lábios.

"Sshh. Feche os olhos e durma; precisa descansar e quando sua força voltar, conversaremos."

"Mas que trabalho devo fazer?"

"Eu te disse pra dormir!" ela esticou um braço e abriu a mão. Como mágica, um remo se materializou na sua palma. Atirou-o no ar e enquanto ele flutuava, ela saltou sobre ele e saiu voando.

Tetsuo abriu os olhos imediatamente, e olhando em volta, procurou pelo telefone. Levantou-se e discou para uma amiga. Não sabia de ninguém que pudesse interpretar sonhos, mas estava preocupado demais com eles. De vez em quando aquela garota começava a contar-lhe sobre eles.

"Genkai-sama?"

Sentia-se quente. A temperatura estava aumentando cada vez mais. Saiyuki olhou em redor, angustiada. Estava de pé numa rocha e um rio de lava corria abaixo. Ajoelhou-se e o desespero tomou conta do seu coração. Não estava suportando mais aquela temperatura.

Saiyuki gritou e implorou por ajuda. Nenhuma resposta veio até ela. Sentia-se solitária, pronta para morrer. Inesperadamente, porém, uma ponte feita de gelo apareceu, ligando a rocha com algum lugar desconhecido. Incerta, Saiyuki levantou-se e avançou. A ponte de gelo parecia sólida, apesar da alta temperatura. Debaixo dela, a lava estava em ebulição. Ela começou a andar por ela, e logo um sopro de vento passou. Saiyuki estremeceu, enquanto sentia alguém próximo a ela. Alguém estava perseguindo-a pela ponte de gelo.

O medo tomou conta de seu coração e ela passou do calor ao frio. Saiyuki estava paralizada, sem saber o que fazer. Ela abraçou-se e exalou. Saiyuki olhou para trás e seus olhos arregalaram-se, enquanto observava uma grande serpente negra rastejando até ela. Ela começou a correr contudo alguns metros depois ouviu um rangido, baixando os olhos, ela ficou desesperada: a ponte de gelo estava rangendo sob seus pés! Saiyuki gritou enquanto caía, a serpente negra apressando-se na direção dela...

Saiyuki gritou enquanto acordava e sentava-se na cama imediatamente. Respirava rápido, ainda aterrorizada pelo sonho. Levantou-se e foi ate a cozinha, beber um pouco de água. Dois dias haviam passado e Tetsuo ainda não aparecera. Seus sonhos a estavam deixando louca, todas as noites. Só queria, então, alguém que a abraçasse com força e dissesse que tudo ficaria bem, que seus sonhos eram apenas pesadelos, não visões. Saiyuki parou os pensamentos e suspirando, voltou para cama.

Deitada na cama, Saiyuki olhou para as estrelas e chorou. Chorou por se sentir sozinha. Chorou por seus sonhos que sempre pareciam afastá-la de tudo, de todos. Chorou por não ser capaz de contar suas preocupações para seu namorado... Por esticar a mão e nunca encontrar outra para ajudá-la a se levantar.

Alguns quarteirões adiante, Rodolfo estava deitado na cama, olhando de olhos vazios para o teto. Enquanto sua namorada chorava no silêncio daquela noite, ele mantinha sua mente insone lembrando-se das feições dela, relembrando da voz, do toque gentil. Rodolfo voltou sua cabeça e suspirou; ela era mesmo a *única* razão para ele ficar no Japão...

Há none meses, ele era só um jovem brasileiro aterrizando no país de seu pai. Seu pai havia ido embora do Japão a cerca de vinte e dois anos atrás, Rodolfo nunca soube porquê, já que seu pai nunca lhe contara. Tinha ido para a maior colônia japonesa nesse mundo e encontrara um lar em São Paulo. Devido a profusão de japoneses e a cultura deles no Brasil, logo Rodolfo estava mergulhado na sua cultura pop; aprendera a língua japonesa com o pai e meteu na cabeça a idéia de estudar no Japão. Seu pai realmente gostou. Numa semana vivendo na cultura japonesa, Rodolfo estava desesperado para voltar ao Brasil, contudo seu pai não aceitou isso. E ali ele ficou. Uma outra semana se passou e as aulas começaram. Logo, Rodolfo estava encantado por uma pequena garota de sua classe.

Ela era só uma garota comum, sem atrativos para chamar sua atenção, ao contrário de muitas no seu país. Mas havia algo nela... Ela era bem esperta e gentil... Ele passou um mês incomodando-a para que saísse com ele, mas valera a pena; desde a primeira vez em que realmente conversaram, apaixonaram-se um pelo outro. Foi algum tipo de mágica...

Saiyuki sempre fora um mistério para ele decifrar. Às vezes ela ria de uma folha caindo, um sorriso brilhante vinha aos seus lábios só por ver as flores de cerejeira sendo levadas pelo vento; às vezes ela parecia estar triste, simplesmente ficando quieta em algum lugar, a mente vagando por terras, que não permitia que ele pisasse. Rodolfo adoraria dividir os pensamentos com ela, ajudá-la com quaisquer problemas que aparecessem, mas ela nunca queria isso. O único que sabia todas as preocupações dela era aquele maldito vizinho.

Rodolfo encontrara Tetsuo Ikiko numa cafeteria, conversando com Saiyuki. Nunca gostara muito dele. Rodolfo percebera o interesse de Tetsuo por sua garota logo e sempre a convencia a não ficar batendo papo com ele. Claro que ela nunca o ouvia e aquilo o irritava bastante. Saiyuki era muito ingênua e não percebia como aquele imbecil olhava para ela.

Rodolfo bufou e mudou o curso de seus pensamentos. A única coisa que deveria ocupar sua mente aquela noite era seus planos. Ficara contente quando Saiyuki concordara em fazer uma viagem com ele. Ir para praia, só os dois, talvez então pudesse convencê-la a abrir o coração para ele, e quem sabe pudesse fazer amor com ela; estivera pensando nisso por três meses, mas ela nunca o deixara falar nada sobre isso. Bufou novamente e rolou na cama. Tinha que conversar com ela antes que Saiyuki esquecesse dos planos anteriores para o feriado. Ela era capaz de fazer isso, como fizera na vez passada que decidiram viajar.

Ele esticou a mão até o peito e pegou um pingente que descansava lá. O luar atingiu a pérola e ela brilhou em prata e branco. Rodolfo rolou-a entre os dedos e deixou o pingente descansar novamente sobre seu peito.

Saiyuki e Tetsuo estavam sentados numa loja de Ramen, comendo. Saiyuki estava muito nervosa, comendo rápido sua comida; estivera esperando por Rodolfo por quase meia hora e cada minuto a mais a tornava irritada. Tetsuo, por outro lado, comia seu ramen lentamente, saboreando-o cuidadosamente, quase se divertindo com a preocupação dela. Ele sabia quão tensa seria a conversa com o namorado dela, que seria um dilema para ela. Rodolfo não aceitaria nenhuma oposição aos seus planos, especialmente feita por ele. Tetsuo não se importava com Rodolfo, mas preocupava-o o que ele poderia fazer com Saiyuki; infelizmente, ela o amava muito e poderia ficar muito desapontada com ele.

"Ne, Saiyuki-chan. Vá com calma, hum?"

"Rodolfo-kun está atrasado e não acho que ele gostará de te ver aqui." ela disse com a boca cheia de ramen.

"Bah. É por isso que estou aqui. Sabe que ele vai simplesmente odiar ouvir o que você tem para dizer,"

"Não acho que um namorado gostaria de ter sua namorada indo viajar com outro cara, sabe,"

"Não sou *outro* cara. Sou seu melhor amigo, Tanaka-san. Ele deve saber isso."

"Gomen nasai, não queria dizer que..." Saiyuki exalou, percebendo agora a batalha que teria que lutar.

"Oi, oi." Saiyuki acordou com o chamado de Rodolfo. Voltou a cabeça para encará-lo, parado do seu lado da mesa. Não conseguia entender sua expressão, já que ela estava vazia. Ele sentou-se ao seu lado e lançou um olhar feio para Tetsuo. "O que é agora? Pensei que isso seria um encontro,"

"Ne, Aikawa-san, como vai?" Ikiko perguntou, sorrindo falsamente. Ele realmente gostava de irritar aquele idiota. Se ele realmente conhecesse a vida real...

"Estaria melhor se você não estivesse aqui," ele silvou.

"Rodolfo-kun. Chamei você aqui por que eu..." Saiyuki disse, temendo a discussão. "Não posso fazer nenhuma viagem com você agora..."

Saiyuki observou as bochechas de seu namorado ficarem profundamente vermelhas e olhar furiosamente para Ikiko. Ela quase pôde ler as palavras não ditas enquanto ele abria a boca para dize

r algo, mas de algum modo desistiu. Decidiu então bancar a durona ou então seu namoro e amizade iam ter um fim. Exatamente então, Rodolfo falou para Tetsuo.

"Aposto que você é a razão," ele disse, franzindo o cenho e se levantando. Pretendia ir embora ou do contrário espancaria aquele cara, e Saiyuki provavelmente o defenderia. Ela puxou seu braço e ele olhou para ela, magoado. Os olhos dela estavam úmidos, como se estivesse para chorar; Rodolfo fora enfeitiçado por eles, contudo as palavras que ele ouviu eram ríspidas, quebrando qualquer encantamento.

"Tetsuo-kun não minha razão, itooshii. Ele vai me ajudar a resolver alguns problemas meus, só isso. Ele é meu amigo, mas se você não pode lidar com isso, acho que devemos desistir e acabar." Rodolfo sentou-se novamente.

"Mas que problemas, Saiyuki? Por que você nunca me conta nada? Por que você precisa contar essas coisas para ele, não para mim?"

"Talvez porque o namorado dela seja muito infantil para entendê-la," comentou Tetsuo baixinho.

"Eu ouvi isso, Ikiko." Rodolfo atingiu a mesa com seu punho cerrado, os dentes apertados.

"Parem vocês dois! Parem!" Saiyuki gritou, chamando a atenção das pessoas para eles. Envergonhada, ela continuou num tom baixo. "Aikawa-san. Vou viajar com Ikiko-san, para ver uma velhinha que pode me ajudar."

"Uma viagem?! Com esse cara?! Só você e ele?!" Rodolfo olhou para ela com olhos arregalados, não acreditando nas palavras dela.

"Isso mesmo. Contudo, se você quiser, pode vir conosco," ela disse, sorrindo. "Algum problema, Tetsuo?"

"Hn, bem, se quiser, tudo bem, acho..."

"Claro, não há razão para você recusar minha companhia, amigo," Rodolfo disse, sorrindo zombeteiro. "Para onde vamos exatamente?"

"É um templo, onde uma velha senhora vive, uma das amigas misteriosas de Tetsuo," Saiyuki falou, sorrindo e abraçando o namorado. "Qual é o nome, Tetsuo-kun. Não consigo me lembrar."

Irado, Tetsuo olhou furioso para Rodolfo, enquanto a respondia. "O nome dela é Genkai-sama."


xx março 2004

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