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A Maldição
por Rechan
Livro Um - Pesadelo
- Prólogo -
Tudo estava escuro, ela não conseguia reconhecer aquele lugar
como algum que conhecesse. Ela sentia como estivesse flutuando em
pleno ar, até mesmo conseguindo sentir uma brisa gentil soprando
em seu rosto. De um ponto que não podia identificar, fumaça
veio, enrodilando-se ao seu redor; ela sabia que havia fogo queimando
em algum lugar, podia cheirá-lo.
Inesperadamente, um sopro de vento passou por ela e a fumaça
se foi. Algo pingou em seu nariz e ela ergueu os olhos. Gelo. Havia
gelo em redor, parecendo estar derretendo. Uma coluna de gelo emergiu
a alguns metros dela e fogo brotou da base, logo subindo, enrodilando
a coluna. Por estranho que parecesse, o gelo não parecia estar
derretendo; fogo e gelo, eles pareciam ser um só.
Ela estremeceu, quando sentiu como se seus pés tivessem tocado
o chão. Sentiu-se gelada, a atmosfera estava fria; inspirou
profundamente, reunindo um pouco de oxigênio em seus pulmões.
Deu uma olhada em si mesma, somente para se descobrir nua, usando
apenas algum tipo de pérola. Não conseguia se lembrar
quem ou quando a ganhara. Esqueceu-a enquanto via algumas coisas
brilhando ao seu redor; abriu uma mão e uma daquelas coisinhas
pousou nela. Ela olhou para aquilo cuidadosamente e quão surpresa
estava! Era um pequenino e brilhante dente-de-leão! Ergueu
uma das sombracelhas e olhou em redor. Como uma semente de dente-de-leão
estaria num lugar como esse? A semente na sua mão começou
a brilhar de repente e ela sentiu um calor preenchendo-a completamente.
Ela nunca se sentira protegida assim.
Uma melodia baixinha chegou a seus tímpanos e ela a cantarolou
um pouco. Estranho, ela reconhecia aquela música, ela a ouvia
todos os dias...
Saiyuki Tanaka acordou lentamente, espreguiçando-se. Tinha
gotas de suor molhando todo seu corpo e uma dor de cabeça
explodindo sua cabeça. Ohayoo, Tanaka-san. Que tal uma gripe
também? ela pensou, olhando pela janela; lá fora, o
céu estava nublado e uma brisa fria soprava de vez em quando.
Ela ouviu uma música sendo cantada no vizinho e sorriu; seu
vizinho estava treinando uma outra canção, uma que,
tinha dito, fora composta para ela. Saiyuki riu-se enquanto vestia-se,
de modo a ir para a faculdade. Ele sabia que ela adora música.
Suspirou, às vezes se perguntava por que nunca saiu com ele,
já que ele faria qualquer coisa para seduzi-la.
"Você já tem um adorável namorado," disse
para si mesma, rindo.
Seu pai estava dirigindo - ou pelo menos tentando - no trânsito,
e ela mantinha sua mente ocupada, pensando sobre todas as coisas
que tinha para fazer naquele dia. Apenas para, mais uma vez, seu
mais recente pesadelo aparecer na sua mente. Saiyuki suspirou; aquele
não era o primeiro nem seria o último; mas por que
aquilo estava acontecendo tão frequentemente?
Tanaka Saiyuki era uma garota japonesa comum. Tinha um cabelo longo
e uma longa franja; sua pele era sempre pálida, e somente
olhando seus olhos castanhos brilhantes alguém poderia dizer
com certeza que ela não estava doente. Aos dezesseis anos,
tinha sido aceita de modo a cursar Matemática na Faculdade
Tamanoguri; seus amigos de escola sempre pensaram nela como uma CDF
e estavam parcialmente certos. Saiyuki estudava muito, contudo, algo
mais a fazia mais esperta do que eles. Possuía um dom: seus
sonhos. Estava acostumada a dormir e sonhar com as provas; quando
acordava, já havia visto todas as perguntas e respostas das
provas na mente. Quando não sonhava com as provas, seus sonhos
lhe contavam sobre o futuro. Mas eram sempre sobre coisas tolas,
apenas. Coisas como alguém tropeçando, ficando doente...
Há alguns meses apenas, Tanaka começou a sonhar com
mortes e coisas enigmáticas. Isso a irritava bastante. Saiyuki
nunca gostara de seu dom e nunca contara a ninguém sobre isso,
a não ser para seu melhor amigo. Nem mesmo seu namorado sabia
disso.
"Tenho que bater um papo com Tetsuo-san,"
"Nani?" perguntou seu pai, buzinando.
"Hn? Não disse nada, otoosan."
Rodolfo pousou sua xícara na mesa, seus dedos tamborilando
na borda da mesa, incansáveis. Deu uma olhada no relógio
de pulso e ficou ainda mais irritado; ela estava atrasada. De novo.
Rodolfo suspirou; se ela não fosse tão adorável
e alegre, nunca suportaria os atrasos. Ela era a única razão
por ele ficar no Japão, do contrário, teria voltado
para o Brasil há muito tempo. Rodolfo arrumou seu cabelo castanho
curto e pediu outra xícara de café.
"Duas, por favor," Saiyuki gritou, enquanto sentava-se
a frente de Rodolfo. Sorriu para ele, sabendo que deveria estar irritado. "Gomen
ne."
"Oi. Por quê? Estou te esperando há meia hora,
apenas," ele replicou friamente, enquanto esticava a mão
para pegar a dela. "O que aconteceu desta vez?"
"Nada de mais. Tive uma dor de cabeça, não tenho
dormido muito bem ultimamente..." respondeu, distraída.
"Saiyuki, não prestou atenção em nenhuma
aula ultimamente. Não costuma fazer isso,"
"Ora, todo mundo precisa de um descanso, certo?" Saiyuki
olhou de cara feia para ele. Simplesmente detestava quando ele tentava
fazê-la falar mais do que queria. "Os feriados estão
chegando. Vou descansar um pouco," ela bebeu o café.
"Nós dois podemos descansar, itooshii. Que tal uma viagem?" ele
perguntou, também bebendo café.
"Uma viagem? Para onde?"
"Não sei, estava pensando numa praia. No Brasil temos
muitas praias para ir, sinto falta delas."
"É uma idéia. Vamos, koibito," Saiyuki começou
a se levantar.
"Ei, espere um instante. Por que está tão apressada?" Rodolfo
seguiu-a, pegando os livros deles e saindo daquela cafeteria.
Saiyuki voltou sua cabeça na direção dele e
piscou. "Tenho que conversar com alguém, só isso."
Rodolfo estancou ante as palavras dela e franziu o cenho; Saiyuki
deu uma olhada nele, e vendo-o parado, parou também. "E
agora?" ela quis saber, com olhos inocentes. Rodolfo olhou furioso
para ela por alguns segundos. Ela era bonita, tinha sorte por estar
com ela, contudo simplesmente detestava quando ela preferia conversar
com outra pessoa, a não ser ele. Sempre o tratava como a um
estranho, nunca abrindo a janela de seu coração para
ele.
"Só não consigo entender por que nunca me conta
quando está aborrecida," disse Rodolfo, começando
a andar. Saiyuki acompanhou-o, olhando fixo para ele.
"Você é tão adorável, sabia? Detesto
fazê-lo sentir-se triste, mas..."
"Saiyuki. Você me ama de verdade?"
"Claro que sim. Itooshii... Tem coisas que não se deve
dizer para o namorado, são meus segredos interiores,"
Rodolfo respirou profundamente. "Mas você diz para aquele
amigo seu, não?"
"Tetsuo-san é meu vizinho e meu amigo há muito
tempo; não sei porque você é tão ciumento,"
"Ikiko quer você para ele; não é uma boa
razão?"
"Nani?! Você é tão doce, koibito!" Saiyuki
disse, beijando-o na bochecha.
Saiyuki apertou a campainha e esperou por alguns minutos. A porta
abriu-se então, revelando um homem alto, com um longo cabelo
escuro em rabo de cavalo. Seus olhos castanhos brilharam e um sorriso
tocou seu rosto, enquanto via sua visita. Saiyuki sorriu em resposta
e entrou no apartamento. A sala de estar estava preenchida com um
sofá, uma televisão e uma estante de livros; morando
sozinho, seu vizinho nunca se preocupara em ter muita mobília.
"Tanaka-san! Faz tempo que não vem aqui." ele reclamou.
"Gomen nasai. Estive ocupada, e Rodolfo-kun não gosta
que venha aqui,"
"Bah. Você tem uma criança ciumenta como namorado,
sabe disso," enquanto dizia isso, Tetsuo dirigiu-se para a cozinha. "Vou
fazer algo para nós, quer chá?"
"Hai. Pode cantar para mim depois, quero ouvir sua voz, ela
faz me sentir em paz," ela disse, sentando-se, esfregando suas
têmporas.
Tetsuo olhou para ela, e franziu o cenho. Havia algo errado, uma
vozinha na sua cabeça lhe dizia isso. Deixou a água
fervendo no fogão e encaminhou-se para Saiyuki. "Você está bem?" Saiyuki
não respondeu, ficando só olhando fixo para ele. Tetsuo
respirou profundamente, reconhecendo agora que ele estava certo.
A garota tinha algum problema metido na cabeça dela. Ele voltou-se,
fez o chá e entrou na sala segurando duas xícaras.
Ofereceu uma a ela e sentou-se ao seu lado.
"Hn, hn. Não me pede para cantar, a menos que esteja
deprimida," falou, olhando de esguelha para ela. Viu sua amiga
dando um suspiro.
"Lembra-se de quando sonhei com você doente e então
sobre sua cura miraculosa?"
Tetsuo assentiu, já conhecendo qual era o assunto. Saiyuki
sonhara novamente. Tetsuo acariciou o cabelo dela e puxou-a próximo
a ele, esperando que ela falasse. Saiyuki estremeceu, enquanto seu
amigo a abraçava e caiu em lágrimas.
"Tenho sonhado com coisas estranhas,"
"Entendo. Não se preocupe, não deve ser nada,
só um sonho ruim."
"Não. Você sabe que eu prevejo acontecimentos
nos meus sonhos, Tetsuo. É sempre fogo e gelo,"
"Fogo e gelo? Não entendo,"
"Nem eu. Mas acordo sentindo tanta tristeza e angústia,
meu coração parece estar falhando,"
"Não se preocupe, vamos descobrir o que isso significa
desta vez." Tetsuo levantou-se e ajudou-a a fazer o mesmo. Saiyuki
começou a secar as lágrimas com suas mãos e
sorriu.
"Arigato, ne? Por me ouvir, ne?"
"Vou tentar descobrir um meio de ajudá-la, certo? Conheço
algumas pessoas que sabem interpretar sonhos, vou falar com elas
sobre os seus."
"Deixe-me ir com você! Por favor!" Saiyuki gritou,
apertando as mãos dele com força.
"Não posso levar você comigo, desculpe."
"Por favor, isso está me incomodando, não consigo
esperar por mais tempo," Saiyuki agarrou as roupas dele. Tetsuo
suspirou e segurou as mãos dela.
"Saiyuki..." ele começou.
"Você tem andado com caras estranhos, sabia?" ela
franziu o cenho para ele e dirigiu-se para porta.
"V-você os viu?"
"Só uma garota ruiva. Não sabia que estava namorando..."
"Não tenho namorada, tomodachi."
"Hn, se você diz... Domo ne?" ela acenou e mandou
um beijinho, saindo.
Tetsuo manteve os olhos na porta, sua mente trabalhando rapidamente.
Ele pegou sua xícara de chá e sentou-se no sofá novamente.
Inconscientemente, bebericou o líquido âmbar lentamente.
Respirando profundamente, ele deixou os olhos se fechar e relembrou
a primeira vez que sua vizinha tinha lhe dito sobre seus estranhos
sonhos. Dois anos atrás...
Cerca de dois anos atrás, Ikiko Tetsuo era um japonês
comum, tentando arranjar um emprego. Exatamente então, tinha
descoberto sua paixão pela música. Ele e um amigo começaram
a tocar em pequenos restaurantes, parques e bares obscuros. Faltava
dinheiro, mas as pessoas gostavam deles; algum dia conseguiriam fama.
Ikiko começou a tocar e cantar sozinho, depois que seu amigo
morrera de repente, de uma doença. Alguns meses depois, ele
se descobriu com a mesma doença, e logo foi internado. Nenhum
médico lhe deu esperança de sobreviver. E na noite
anterior tinha recebido uma visita de sua vizinha adolescente; ela
tinha se sentado ao seu lado, segurado suas mãos entre as
dela, não falando nada. tetsuo ficou enfeitiçado por
ela, uma vez que nunca haviam conversado antes.
À noite ela falara as primeiras palavras. Contara-lhe sobre
sonhos e futuro. Dissera que tinha sonhado com a doença e
que era apenas um tipo de teste. Apesar de ninguém conhecer
a cura, ela viria até ele; ela não podia dizer quando
ou como. Lembrava-se de como ele rira amargamente daquilo. Estava
amaldiçoado para morrer e nenhuma criança, mesmo doce
e adorável, o convenceria do contrário.
Na noite seguinte, porém, sua cura veio até ele, tomando
a forma de uma garota ruiva, voando num remo. Tetsuo pensou que estava
delirando, ante aquele visão; ela tocara sua testa se afastara
rapidamente, quando sentiu quão quente ele estava. Ela sorriu
alegremente e tocou seu braço com ambas as mãos. Tetsuo
observou-a com os olhos semi-cerrados enquanto sentia algo quente
correndo pelo seu braço e se espalhando por todo o corpo;
ele focalizou nas mãos dela e ficou espantado em vê-las
brilhar fracamente no quarto escuro. Enguliu em seco e murmurrou
algo que não se lembrava. Ela focou-se nele com seus olhos
verdes e disse:
"Vou te curar, então não se mexa,"
"Nenhum médico pode me curar; por que uma garotinha
como você acha que pode?"
"Ikiko-san, você quer ser curado?" ela perguntou
num tom rude e ele respondeu assentindo. Então ela continuou. "Então é o
que vai acontecer. Infelizmente, nada vem sem um preço..."
"Que tipo de preço você está pensando?'
"Você começará um serviço, só isso," os
olhos verdes brilharam.
"Um trabalho? Que diab-" ela pôs um dedo sobre seus
lábios.
"Sshh. Feche os olhos e durma; precisa descansar e quando sua
força voltar, conversaremos."
"Mas que trabalho devo fazer?"
"Eu te disse pra dormir!" ela esticou um braço
e abriu a mão. Como mágica, um remo se materializou
na sua palma. Atirou-o no ar e enquanto ele flutuava, ela saltou
sobre ele e saiu voando.
Tetsuo abriu os olhos imediatamente, e olhando em volta, procurou
pelo telefone. Levantou-se e discou para uma amiga. Não sabia
de ninguém que pudesse interpretar sonhos, mas estava preocupado
demais com eles. De vez em quando aquela garota começava a
contar-lhe sobre eles.
"Genkai-sama?"
Sentia-se quente. A temperatura estava aumentando cada vez mais.
Saiyuki olhou em redor, angustiada. Estava de pé numa rocha
e um rio de lava corria abaixo. Ajoelhou-se e o desespero tomou conta
do seu coração. Não estava suportando mais aquela
temperatura.
Saiyuki gritou e implorou por ajuda. Nenhuma resposta veio até ela.
Sentia-se solitária, pronta para morrer. Inesperadamente,
porém, uma ponte feita de gelo apareceu, ligando a rocha com
algum lugar desconhecido. Incerta, Saiyuki levantou-se e avançou.
A ponte de gelo parecia sólida, apesar da alta temperatura.
Debaixo dela, a lava estava em ebulição. Ela começou
a andar por ela, e logo um sopro de vento passou. Saiyuki estremeceu,
enquanto sentia alguém próximo a ela. Alguém
estava perseguindo-a pela ponte de gelo.
O medo tomou conta de seu coração e ela passou do
calor ao frio. Saiyuki estava paralizada, sem saber o que fazer.
Ela abraçou-se e exalou. Saiyuki olhou para trás e
seus olhos arregalaram-se, enquanto observava uma grande serpente
negra rastejando até ela. Ela começou a correr contudo
alguns metros depois ouviu um rangido, baixando os olhos, ela ficou
desesperada: a ponte de gelo estava rangendo sob seus pés!
Saiyuki gritou enquanto caía, a serpente negra apressando-se
na direção dela...
Saiyuki gritou enquanto acordava e sentava-se na cama imediatamente.
Respirava rápido, ainda aterrorizada pelo sonho. Levantou-se
e foi ate a cozinha, beber um pouco de água. Dois dias haviam
passado e Tetsuo ainda não aparecera. Seus sonhos a estavam
deixando louca, todas as noites. Só queria, então,
alguém que a abraçasse com força e dissesse
que tudo ficaria bem, que seus sonhos eram apenas pesadelos, não
visões. Saiyuki parou os pensamentos e suspirando, voltou
para cama.
Deitada na cama, Saiyuki olhou para as estrelas e chorou. Chorou
por se sentir sozinha. Chorou por seus sonhos que sempre pareciam
afastá-la de tudo, de todos. Chorou por não ser capaz
de contar suas preocupações para seu namorado... Por
esticar a mão e nunca encontrar outra para ajudá-la
a se levantar.
Alguns quarteirões adiante, Rodolfo estava deitado na cama,
olhando de olhos vazios para o teto. Enquanto sua namorada chorava
no silêncio daquela noite, ele mantinha sua mente insone lembrando-se
das feições dela, relembrando da voz, do toque gentil.
Rodolfo voltou sua cabeça e suspirou; ela era mesmo a *única*
razão para ele ficar no Japão...
Há none meses, ele era só um jovem brasileiro aterrizando
no país de seu pai. Seu pai havia ido embora do Japão
a cerca de vinte e dois anos atrás, Rodolfo nunca soube porquê,
já que seu pai nunca lhe contara. Tinha ido para a maior colônia
japonesa nesse mundo e encontrara um lar em São Paulo. Devido
a profusão de japoneses e a cultura deles no Brasil, logo
Rodolfo estava mergulhado na sua cultura pop; aprendera a língua
japonesa com o pai e meteu na cabeça a idéia de estudar
no Japão. Seu pai realmente gostou. Numa semana vivendo na
cultura japonesa, Rodolfo estava desesperado para voltar ao Brasil,
contudo seu pai não aceitou isso. E ali ele ficou. Uma outra
semana se passou e as aulas começaram. Logo, Rodolfo estava
encantado por uma pequena garota de sua classe.
Ela era só uma garota comum, sem atrativos para chamar sua
atenção, ao contrário de muitas no seu país.
Mas havia algo nela... Ela era bem esperta e gentil... Ele passou
um mês incomodando-a para que saísse com ele, mas valera
a pena; desde a primeira vez em que realmente conversaram, apaixonaram-se
um pelo outro. Foi algum tipo de mágica...
Saiyuki sempre fora um mistério para ele decifrar. Às
vezes ela ria de uma folha caindo, um sorriso brilhante vinha aos
seus lábios só por ver as flores de cerejeira sendo
levadas pelo vento; às vezes ela parecia estar triste, simplesmente
ficando quieta em algum lugar, a mente vagando por terras, que não
permitia que ele pisasse. Rodolfo adoraria dividir os pensamentos
com ela, ajudá-la com quaisquer problemas que aparecessem,
mas ela nunca queria isso. O único que sabia todas as preocupações
dela era aquele maldito vizinho.
Rodolfo encontrara Tetsuo Ikiko numa cafeteria, conversando com
Saiyuki. Nunca gostara muito dele. Rodolfo percebera o interesse
de Tetsuo por sua garota logo e sempre a convencia a não ficar
batendo papo com ele. Claro que ela nunca o ouvia e aquilo o irritava
bastante. Saiyuki era muito ingênua e não percebia como
aquele imbecil olhava para ela.
Rodolfo bufou e mudou o curso de seus pensamentos. A única
coisa que deveria ocupar sua mente aquela noite era seus planos.
Ficara contente quando Saiyuki concordara em fazer uma viagem com
ele. Ir para praia, só os dois, talvez então pudesse
convencê-la a abrir o coração para ele, e quem
sabe pudesse fazer amor com ela; estivera pensando nisso por três
meses, mas ela nunca o deixara falar nada sobre isso. Bufou novamente
e rolou na cama. Tinha que conversar com ela antes que Saiyuki esquecesse
dos planos anteriores para o feriado. Ela era capaz de fazer isso,
como fizera na vez passada que decidiram viajar.
Ele esticou a mão até o peito e pegou um pingente
que descansava lá. O luar atingiu a pérola e ela brilhou
em prata e branco. Rodolfo rolou-a entre os dedos e deixou o pingente
descansar novamente sobre seu peito.
Saiyuki e Tetsuo estavam sentados numa loja de Ramen, comendo. Saiyuki
estava muito nervosa, comendo rápido sua comida; estivera
esperando por Rodolfo por quase meia hora e cada minuto a mais a
tornava irritada. Tetsuo, por outro lado, comia seu ramen lentamente,
saboreando-o cuidadosamente, quase se divertindo com a preocupação
dela. Ele sabia quão tensa seria a conversa com o namorado
dela, que seria um dilema para ela. Rodolfo não aceitaria
nenhuma oposição aos seus planos, especialmente feita
por ele. Tetsuo não se importava com Rodolfo, mas preocupava-o
o que ele poderia fazer com Saiyuki; infelizmente, ela o amava muito
e poderia ficar muito desapontada com ele.
"Ne, Saiyuki-chan. Vá com calma, hum?"
"Rodolfo-kun está atrasado e não acho que ele
gostará de te ver aqui." ela disse com a boca cheia de
ramen.
"Bah. É por isso que estou aqui. Sabe que ele vai simplesmente
odiar ouvir o que você tem para dizer,"
"Não acho que um namorado gostaria de ter sua namorada
indo viajar com outro cara, sabe,"
"Não sou *outro* cara. Sou seu melhor amigo, Tanaka-san.
Ele deve saber isso."
"Gomen nasai, não queria dizer que..." Saiyuki
exalou, percebendo agora a batalha que teria que lutar.
"Oi, oi." Saiyuki acordou com o chamado de Rodolfo. Voltou
a cabeça para encará-lo, parado do seu lado da mesa.
Não conseguia entender sua expressão, já que
ela estava vazia. Ele sentou-se ao seu lado e lançou um olhar
feio para Tetsuo. "O que é agora? Pensei que isso seria
um encontro,"
"Ne, Aikawa-san, como vai?" Ikiko perguntou, sorrindo
falsamente. Ele realmente gostava de irritar aquele idiota. Se ele
realmente conhecesse a vida real...
"Estaria melhor se você não estivesse aqui," ele
silvou.
"Rodolfo-kun. Chamei você aqui por que eu..." Saiyuki
disse, temendo a discussão. "Não posso fazer nenhuma
viagem com você agora..."
Saiyuki observou as bochechas de seu namorado ficarem profundamente
vermelhas e olhar furiosamente para Ikiko. Ela quase pôde ler
as palavras não ditas enquanto ele abria a boca para dize
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algo, mas de algum modo desistiu. Decidiu então bancar a durona
ou então seu namoro e amizade iam ter um fim. Exatamente então,
Rodolfo falou para Tetsuo.
"Aposto que você é a razão," ele disse,
franzindo o cenho e se levantando. Pretendia ir embora ou do contrário
espancaria aquele cara, e Saiyuki provavelmente o defenderia. Ela
puxou seu braço e ele olhou para ela, magoado. Os olhos dela
estavam úmidos, como se estivesse para chorar; Rodolfo fora
enfeitiçado por eles, contudo as palavras que ele ouviu eram
ríspidas, quebrando qualquer encantamento.
"Tetsuo-kun não minha razão, itooshii. Ele vai
me ajudar a resolver alguns problemas meus, só isso. Ele é meu
amigo, mas se você não pode lidar com isso, acho que
devemos desistir e acabar." Rodolfo sentou-se novamente.
"Mas que problemas, Saiyuki? Por que você nunca me conta
nada? Por que você precisa contar essas coisas para ele, não
para mim?"
"Talvez porque o namorado dela seja muito infantil para entendê-la," comentou
Tetsuo baixinho.
"Eu ouvi isso, Ikiko." Rodolfo atingiu a mesa com seu
punho cerrado, os dentes apertados.
"Parem vocês dois! Parem!" Saiyuki gritou, chamando
a atenção das pessoas para eles. Envergonhada, ela
continuou num tom baixo. "Aikawa-san. Vou viajar com Ikiko-san,
para ver uma velhinha que pode me ajudar."
"Uma viagem?! Com esse cara?! Só você e ele?!" Rodolfo
olhou para ela com olhos arregalados, não acreditando nas
palavras dela.
"Isso mesmo. Contudo, se você quiser, pode vir conosco," ela
disse, sorrindo. "Algum problema, Tetsuo?"
"Hn, bem, se quiser, tudo bem, acho..."
"Claro, não há razão para você recusar
minha companhia, amigo," Rodolfo disse, sorrindo zombeteiro. "Para
onde vamos exatamente?"
"É um templo, onde uma velha senhora vive, uma das amigas
misteriosas de Tetsuo," Saiyuki falou, sorrindo e abraçando
o namorado. "Qual é o nome, Tetsuo-kun. Não consigo
me lembrar."
Irado, Tetsuo olhou furioso para Rodolfo, enquanto a respondia. "O
nome dela é Genkai-sama."
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