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Um País Distante
porAmanjaku

Capítulo 1 - Minotauro no Labirinto

A lua brilhou sobre o parque Yoyogi. Folhas balançavam gentilmente na brisa de outono em contraponto com o barulho que a noite ecoava sobre o centro de Tokyo. Pessoas estranhas e indesejáveis vagavam pelas vias pavimentadas, algumas vezes tropeçando para fora do caminho, num estupor alcóolico, ou, no caso de um casal, parando para explorar as tonsilas um do outro. Poluição misturava-se ao aroma das folhas cadentes. Era, de certo modo, uma típica noite de Tokyo em resposta ao Central Park de New York.

Uma figura do tamanho de uma criança empoleirou-se numa das árvores mais altas, uma que não tinha ainda perdido todas as suas folhas e observou atentamente o populacho abaixo. Era improvável que eles pudessem sequer notá-lo, já que eles eram apenas humanos e ele estava todo de preto. Está tudo bem, ele pensou. Esta noite, ele estava num humor pior que o normal.

Normalmente ele passaria a noite no grande carvalho na rua da casa de Kurama. Kurama caçoava dele sobre isto às vezes: "Hiei, se você vai passar tanto tempo próximo a minha casa, seria melhor você se mudar para aqui dentro." Hiei geralmente lhe dava um olhar indiferente. Porém esta noite, algo estranho estava acontecendo na casa vizinha. Era uma coisa muito misteriosa, realmente. Parecia envolver muitas latas de cerveja, muitas garrafas de sake, dúzias de pessoas e uma música incrivelmente alta que fez os dentes de Hiei se apertarem e seu interior vibrar. Ele considerou em invadir a casa, descobrir o que quer que estivesse fazendo aquele som horrível e destruí-lo - e talvez matar alguns humanos, se eles se intrometessem em seu caminho. Mas, no fim, ele decidiu que seria mais simples passar a noite em outro lugar.

O parque tinha parecido ser uma escolha razoável. Estava bem frio esta noite, com o vento gelado de Novembro que deveria estar mantendo a maioria das pessoas dentro de casa, aonde elas pertenciam. O frio não aborrecia Hiei; em épocas como esta, ele ficava feliz em ser um demônio de fogo.

Ele pulou para um ponto um pouco mais alto na sua árvore, procurando por um lugar provável para assentar-se. Em poucos instantes ele encontrou o que queria - uma bifurcação nos galhos que era forte o bastante para suportá-lo e alta o bastante para que não pudesse ser notado. Inconscientemente, ele passou a mão por sobre seu ombro e checou a katana amarrada a suas costas antes de estabelecer-se. Era mais um hábito do que qualquer outra coisa. Ele saberia imediatamente se qualquer coisa acontesse com aquela katana; ele já a tinha por tanto tempo que era como se fosse um braço extra. Reassegurado pelo toque frio do aço, Hiei aconchegou-se na árvore, dentro de suas sombras dançantes.

Uma buzina grasnou a distância. O gemido de uma sirene cresceu, então desapareceu de novo. Ramos colidiram e os arbustos próximos ao playground farfalharam, então ficaram em silêncio. Correntes balançaram e tiniram e então começeram um barulho rítmico. Hiei deu uma bufada leve e desgostosa. Aparentemente alguns humanos eram muitos estúpidos para saberem que estava muito frio para eles saírem.

Em alguns minutos, um novo som se juntou ao conjunto, fazendo seus dentes se apertarem. Pareciam com... risadinhas? Relutantemente, Hiei olhou para baixo e suspirou. Sim, aquilo que estava ouvindo eram risadas. Um casal humano estava passeando por uma curva da via suja. Hiei fechou seus olhos e desejou que eles passassem. Ele não estava com paciência para lidar com isto. Para seu alívio, a risada cessou.

Num instante, porém, ela recomeçou - bem abaixo dele. Seus olhos se abriram de uma só vez. Ele franziu a testa. Aqueles malditos humanos estavam começando algum tipo de ritual de acasalamento bem debaixo de sua árvore! Isso realmente não era justo - ele estava ali primeiro! Algumas noites, você não consegue ganhar. Hiei resmungou para si mesmo e preparou-se para se mudar novamente. Ele desfez sua bandana e perquirou a área com seu terceiro olho. Desta vez, ele teria a maldita certeza de encontrar um lugar onde não seria pertubado por esses humanos esquecidos pelos deuses.

Prédios no oeste... Área comercial no sul... muitos recantos e gretas, tudo bem, mas nenhum deles bem defensíveis. Droga! Não tinha nenhum lugar -?

De repente, o vento soprou ameaçadoramente, arrancando algumas folhas. Com o vento veio uma rajada de energia, o tipo peculiar que vinha de um cidadão do Makai. A energia rapidamente se condensou num forma sólida, balançando com desenvoltura no galho a frente de Hiei.

"Ah, aí está você," o visitante disse. "Estava começando a pensar que nunca te encontraria. Foi bom você ter usado o seu jagan agora ou nunca teria te notado."

Instantaneamente Hiei se colocou numa posição de defesa, espada em mãos, encarando o outro youkai. "Quem diabos é você?" ele rosnou.

"Sou Seiji," o outro respondeu, franzindo o cenho. Seu longo cabelo azul esverdeado ondulou no vento atrás dele, preso atrás de orelhas pontudas. "Não, nós não nos conhecemos, mas você conheceu meu irmão, Kosake. Pelo assim o foi até transformá-lo em cinzas. Isso não era necessário, sabe? Ele teria desistido dos cinco diamantes mágicos."

"Então está aqui por vingança," Hiei supôs acidamente.

Seiji assentiu. "Acertou! Prometi que te caçaria e faria você pagar, não importava quanto tempo levasse. Já se foram quatro anos e agora tenho você!" ele sorriu sordidamente e gesticulou suas mãos formando um círculo. Uma nuvem de fogo dourada girou ao redor dele e se lançou na direção de Hiei. Um nanosegundo depois, explodiu onde Hiei inesperadamente não estava.

O vento silvou ao redor da katana de Hiei enquanto a lâmina cortava dúzias de vezes ao redor do intruso. De algum modo, porém, ela nunca encontrava seu alvo. Hiei aterrissou num galho atrás de Seiji com um resmungo desgostoso. "Você está usando um amuleto de distorção espacial!"

"Claro. Já ouvi tudo sobre você. Tem uma reputação e tanto, sabe? Koorime Hiei, o prodígio de combate da região nordeste. Então, naturalmente eu tinha que fazer alguma coisa para nivelar as diferenças." Seiji puxou uma conta de sua túnica de seda. "Aqui, pegue!"

Reflexivamente, Hiei levantou sua katana para interceptar. A conta golpeou e brevemente, uma deslumbrante estrela brilhou na árvore. Um grito alto veio do chão, quando os dois humanos sob a árvore finalmente notaram a luta sobre eles e imaginaram que correr poderia ser uma boa idéia.

Hiei deu um passo para trás e esfregou os olhos. Ele não conseguia ver nada além do grande ponto azul na frente da sua visão. "Seu maldito!" ele xingou.

"Não, maldito você," Seiji respondeu friamente, puxando uma adaga. "Não acredito que você tenha parado para pensar em quem você matou, não? Já te ocorreu que as pessoas têm famílias? Que as pessoas que morrem fazem falta? Ou você simplesmente não se importa?" ele deu o bote em direção ao koorime cego.

A tempo, Hiei o sentiu vindo. Agilmente, ele segurou o galho que eles se empoleiravam e o balançou, segurando-se com uma mão. Quando o galho se dobrou sob o peso de Seiji, Hiei levantou sua espada numa poderosa força. Lascas de madeira voaram. Com um barulho bem sonoro e confusão, o galho se separou da árvore e caiu. Hiei aterrisou no coto do galho. "É um mundo onde se mata ou se é morto," ele aconselhou a Seiji, que estava agora no chão, esfregando uma ferida e tirando folhas mortas de seu cabelo. "Se sente tanta falta de seu irmão, posso facilmente uni-los."

"Verei você morto antes!" Seiji silvou, lançando sua adaga na direção de Hiei.

O koorime a ouviu vindo e virou de lado. A adaga acertou seu braço. Com uma careta, ele a puxou. "Inútil," ele pronunciou, prendendo a adaga no tronco. "Se isso é o melhor que pode fazer, então é melhor voltar para casa. Quando vai parar de brincar e realmente lutar?"

"Seu pequeno bastardo arrogante!" Seiji rosnou através dos dentes cerrados, enquanto se levantava. "Vou te mostrar a luta! Kin-en-mei-en!!" seus braços descreveram um largo círculo através do ar ao seu redor, trilhado por faíscas douradas. Repentinamente, uma aura de chamas douradas crepitou ao seu redor. A grama sob seus pés chamuscou e pegou fogo. Com um ameaçador grito de guerra, o enraivecido youkai pulou de volta para árvore.

"Inútil e estúpido," Hiei repreendeu e voltou-se para encará-lo. "Enquanto você estava brincando, recuperei parte da minha visão." o canto de sua boca curvou-se para cima, num pequeno não-sorriso. Ele levantou sua katana. "Jaoh-ensatsu-ken!" ele invocou adiante intensas chamas negras para passear pela margem da lâmina. Num instante, ele atacou.

Seiji virou-se, tentando contra-atacar com as chamas douradas. O fogo dourado chocou-se contra a labareda negra, o par executando uma dança mortífera. Os galhos pelos quais passaram pegaram fogo, e dentro de segundos, a labareda alcaçou o topo da árvore. Eles se separaram, fixando um breve descando, olhando um para o outro através de uma muralha de chamas. "Você não é muito esperto, não é?" Seiji observou. "Todos os seus ataques passaram ao meu redor, graças ao meu amuleto. Será que você realmente merece sua reputação?"

O amuleto dourado deslizou pelo pescoço de Seiji, e caiu no chão seguido pela corrente. Muitos dos elos tinham derretido. Seiji ofegou, espantado. "Im-possível-! Você- como-?"

"Fogo negro queima mais que o amarelo," Hiei explicou indiferente, enquanto cortava o espantado youkai com sua espada. "Aparentemente você não estudou o suficiente." Calmamente, ele observou Seiji vacilar e tombar. "E além disso, arriscar sua vida pela vingança por alguém é estupidez, especialmente quando esta pessoa já está morta."

"Seu bastardo!" Seiji ofegou através de uma boca cheia de sangue. "Você não se importa... com ninguém ou nada... exceto você mesmo... não?" ele tossiu e se dobrou, ajoelhando-se numa poça vermelha.

"Sentimentalismo te faz fraco. Apenas os fortes sobrevivem." Hiei sentou impassível na árvore, olhando para baixo, para o youkai morto. De repente, ele franziu o cenho. Algo naquela cena o incomodava. Não era o sangue ou a morte. Ele já tinha visto - e causado- muitas. Não, era...

Era o cabelo de Seiji. Era o cabelo azul-esverdeado, da mesma cor do de Yukina e a seda azul-clara de sua túnica que parecia com a do kimono favorito dela. Por um instante, em vez de Seiji, Hiei viu sua irmã mais nova deitada numa poça escarlate. Um estranho sentimento o invadiu, infamiliar, para o qual ele não tinha nome. Era sobre isso que Seiji estava falando? Hiei piscou e abruptamente a visão se fora. Ele balançou sua cabeça. Não, melhor não pensar em coisas como esta. Sentimentalismo era para os tolos. Mas por quê, então, ele não conseguia se livrar deste sentimento de augúrio?

Fogo dourado e negro estalavam nos galhos ao seu redor. Algumas noites, você não pode vencer.

Quase ao mesmo tempo, não muito distante...

Num quarto sujo e pequeno de um hotel questionável, uma única lâmpada iluminava fracamente três figuras. Um rapaz com um penteado adolescente, vestindo jeans rasgados e uma jaqueta de couro trouxe uma cadeira para o centro e forçou uma garota mais jovem, de talvez treze anos, a se sentar. Uma mulher delgada, de idade indeterminável trancou a porta detrás deles enquanto o rapaz puxava um carretel de corda grossa e começou a amarrar a moça.

A mulher cruzou o quarto, seus sapatos de salto fino estalando ritmamente sobre o chão de madeira. "Vê? Não disse?"ela sorriu para o garoto. "Sem perguntas."

Ele sorriu maliciosamente para ela. "Delire, querida." terminando com a corda, ele guardou o carretel de volta na jaqueta. "Não sei por que não fiz isso antes."

A garota estremeceu. "Por favor," ela choramingou. "Não entendo. O que está acontecendo? Por que vocês-?"

"Cale a boca!" a mão delicada da mulher chicoteou pela face da moça. Ela gesticulou para o garoto de jaqueta de couro. "Ela é toda sua, criança." uma unha cor de sangue traçou uma linha pela mandíbula da garota. "Está desamparada. Pode fazer o que quiser com ela." a voz da mulher carregava um tom hipnótico - menos do que um comando, mas mais do que um convite. "O que você quiser. É fácil. Apenas faça. Pare de se dominar."

Os olhos do jovem se tornaram vazios enquanto concordava. Ansiosamente, ele avançou.

Uma luz verde pálida piscava ao redor dos adolescentes. Nenhum dos dois a notou, enquanto o jovem forçava sua atenção para a garota e ela lutava contra ele. Nenhum deles notou quando a luz verde se contorcia pelo ar antes de ser absorvida. Certamente nem notaram a bizarra sombra humanóide que trazia dois chifres em sua testa.

Um sorriso tocou os lábios da mulher enquanto ela estendia suas mãos e se regalava com a energia emocional dos dois humanos. Ela fechou seus olhos e regrediu sua cabeça, enquanto saboreava as emoções temperadas. "Ah," ela ofegou fracamente. "Já faz muito tempo..." escravizada, ela esperou por muitos minutos enquanto o garoto fazia o que queria com a garota. A luxúria, o medo, a dor - eles ameaçaram oprimi-la com prazer, como sempre fizeram. Ela quase gritou com o extâse. Mas o melhor ainda estava por vir.

Ela observou o par através de olhos dardejantes, medindo cuidadosamente as ondas de medo da garota contra as pontadas de luxúria do garoto. Quando sentisse que era o momento certo...

"Ei!" o garoto gritou, quando um aperto de ferro o pegou pela nuca e o tirou de perto da garota. "O que diabos está fazendo?" de repente seus olhos se arregalaram de medo, quando viu o canivete na outra mão da mulher.

"Você foi maravilhoso," ela suspirou apaixonadamente para ele. "Mas luxúria demora muito para recompor meu poder. O que eu realmente preciso de você é angústia. Pode lidar com isso, não acha?" o aço frio deslizou para dentro do coração do rapaz.

A garota na cadeira começou a gritar enquanto assistia o rapaz estremecer e morrer, e então a mulher se voltou para ela com um sorriso.

Na tarde seguinte.

"Acho que todos vocês estão se perguntando por que os chamei aqui." Botan, Assistente Especial dos Detetives do Reikai, observou o grupo reunido a sua frente. 'Reunido' era uma palavra generosa, na verdade. Havia apenas três deles ali, acomodados no quarto de Yusuke de várias maneiras. Kurama estava calmamente inclinado contra a soleira da porta, braços cruzados. Parecia tão asseado como sempre, com seu cabelo ruivo cuidadosamente penteado para trás e suas belas roupas recentemente passadas. Seus olhos esmeralda faiscavam divertidos enquanto observava os outros. O alto e desajeitado Kuwabara estava pendurado na frente do espelho com um pente, lutando para fazer seu cabelo encaracolado obedecer. O cabelo estava ganhando. Urameshi Yusuke olhava pela janela com um olhar entediado, mas ao chamado de Botan, voltou-se para encará-la.

"Minha nossa," ele disse exasperado. "Por que simplesmente não fala logo? Você tem outro caso para nós, não?" Yusuke olhou para mensageira do Reikai de cabelos azuis.

"Temo que sim, " Botan chilreou. O seu pesar não soou muito convincente. Ela tirou uma fita de vídeo das mangas do kimono e entregou-a a Yusuke. "Isso é de Koenma-sama. Deve ter todos os detalhes aí."

Yusuke a pegou como se estivessem lhe entregando uma tarântula. "Acabamos de resolver nosso último caso. Não temos nenhum descanso, ou algo parecido?" reclamou.

"Qual é o problema, Yusuke?" Kurama perguntou. "Está se cansando de ser um detetive espiritual?"

Yusuke corou. "Não é isso. É que,bem..." ele coçou a nuca distraidamente.

Kuwabara voltou-se e sorriu para Kurama. "Eu sei o que é! Ele prometeu a Keiko que a levaria para o cinema, e-"

"Cale-se, Kuwabara!" Yusuke socou-o no topo da cabeça. "Não é nada disso!"

"Ah, entendo." Kurama riu gentilmente. Aproximou-se e pegou a fita de Yusuke. "Se quiser, tenho certeza de que Kuwabara, Hiei, e eu podemos cuidar disso sozinhos."

"Não!" Yusuke gritou e agarraou a fita de Kurama. "Hã, quero dizer, se tiver luta envolvida, vocês precisarão de mim."

Botan assentiu. "Vi a fita quando estava sendo feita por Koenma-sama," ela disse. "É um caso muito sério. Koenma-sama está muito preocupado."

"Falando do Hiei, não deveríamos esperá-lo chegar antes de assistirmos isto?" Kurama perguntou.

"Para que precisamos dele?" Kuwabara fungou. "Tudo que ele fará será se esconder e fazer comentários depreciativos."

"Kuwa-chan!" Botan choramingou um pouco. "Você devia tentar entender-se com Hiei-chan, sabia."

"Bem, por que ele ainda não está aqui?" Kuwabara cruzou seus braços e desviou o olhar. "Acredito que alguém tão rápido não se atrasaria."

Um vento frio soprou de repente no quarto. Da janela, uma voz igualmente fria comentou, "Simplesmente prefiro me associar o mínimo possível com Neandertais como você." Hiei de repente apareceu, empoleirado na janela e olhando para Kuwabara numa atitude de superioridade. Fungou zombeteiramente enquanto saltava e fechava a janela.

"Ei!" Kuwabara começou furioso. "Não vou admitir isso!"

Kurama colocou-se entre os dois. "Agora não era para isso, vocês dois. Temos coisas mais importantes para nos preocupar."

"É," Yusuke acrescentou. "Vamos ver o que é tudo isso." ele ligou sua TV e colocou a fita no videocassete.

O rosto de um garoto bem pequeno com grandes orelhas e um chapéu onde se lia 'Jr.' piscou na tela. O garoto estava tentando parecer Sério e Importante, mas de algum modo, Yusuke achava difícil respeitar alguém que andava com uma chupeta na boca.

"Meus cumprimetos," a imagem de Koenma disse para a audiência reunida. As próximas palavras foram abafadas pelo som alto de mastigação. Yusuke olhou em redor e viu que Kuwabara agarrara um saco de batatas fritas de algum lugar, e olhava distraído para a tela da televisão. Ele agarrou o saco de Kuwabara e serviu-se.

"...um grande problema," Koenma disse. "Houve uma fuga. Somente um youkai saiu, mas ela escapou para o mundo humano. O trabalho de vocês é encontrá-la e recapturá-la."

Yusuke coçou a cabeça. Era impressão sua ou estava mesmo ouvindo o tema de "Missão Impossível" tocando de fundo?

"Essa youkai é muito perigosa," Koenma continuou. Seu rosto desapareceu, sendo substituído por uma careta de uma mulher alta, com cabelo verde curto e espetado. Um par de chifres protuiam da testa. "O nome dela é Ushiiko. É muito perigosa. Originalmente foi presa por escravizar o imperador do Japão e tentar dominar seu reino.

"Ushiiko tem poderes mentais muito fortes," Koenma explicou, reaparecendo na tela. "Sejam extremamente cuidadosos quando a encontrarem, e tentem subjugá-la o mais rápido possível. Agora ela ainda está fraca, porque fugiu recentemente. Mas se tiver tempo suficiente para fortalecer-se, recapturá-la pode se tornar impossível. O mundo humano sofreria muito."

"Por que tenho que me incomodar com isso?" Hiei resmungou. "É só um bando de humanos estúpidos em perigo."

Kurama sussurou de volta calmamente, "Lembre-se, você ainda deve a Koenma em dois pontos. Primeiro, ele te deixou ser um Detetive espiritual em vez de atirá-lo na prisão. E segundo, te contou onde sua irmã estava. Do contrário, provavelmente ainda a estaria procurando."

A expressão de Hiei suavizou-se só um pouco. Desviou os olhos. "Talvez."

"Aliás, o que aconteceu com seu braço?" Kurama perguntou, notando a nova bandagem.

"Nada."

Kuwabara coçou a cabeça. "Como vamos encontrar essa garota? Tokyo é uma cidade grande. Não acho que possamos simplesmente sair e começar a procurar."

Sua pergunta foi respondida prontamente pelo vídeo. "Yusuke," Koenma disse," lembre-se dos itens do Detetive que recebeu. Provarão ser úteis agora."

"A Bússola Espiritual?" Yusuke franziu o cenho. "Mas ela só detecta atividade espiritual dentro de cinco quilômetros. Posso fazer melhor agora, só usando meu próprio reiki. Além disso, ela quebrou quando treinar com a Mestra Genkai."

"Ah, tudo bem!" Botan chilreou. "Eu a consertei para você." Com um floreio, ela produziu algo que parecia um relógio de pulso. "Ushiiko com certeza deve estar escondendo seu poder, assim você não detect&aacu

te;-la com seus próprios poderes. A bússola certamente irá encontrá-la, se ela usar seu poder. Além disso," acrescentou, " ela foi apagada agora, você saberá se está detectando Kurama ou Hiei. Desse jeito não será distraído por eles."

Yusuke recebeu a bússola espiritual, parecendo menos do que agradecido. "Se você diz," ele murmurrou.

"Uma observação final," Koenma acrescentou, e sorriu maliciosamente em volta da chupeta. "Esta fita se auto-destruirá em dez segundos." sua imagem borrou-se na tela, sendo substituída por estática.

"Aah!" Kuwabara apertou o botão 'eject' do videocassete. A máquina mal tinha cuspido a fita quando uma fumaça começou a sair dela, e explodiu em chamas. Kuwabara gritou de novo e deixou cair a fita no chão.

"Hum, vocês têm que perdoá-lo," Botan disse, corando num tom de rosa que combinava com seu kimono. "O pai dele finalmente permitiu que ele colocasse uma televisão no seu escritório, som ambiente, sabe, e bem, as coisas têm ficado um pouco estranhas desde então."

"Certo." Yusuke socou seu punho em sua palma. "Isso não parece tão difícil."

"Bem, vamos ficar aqui o dia inteiro ou vamos atrás dessa vadia?" Kuwabara perguntou.

"Yusuke," Kurama interrompeu. "Já que Hiei e eu somos seres espirituais, podemos sentir energia espiritual também, e o jagan de Hiei pode provavelmente ver tão longe quanto sua bússola, de qualquer forma. Por que não nos separamos? Hiei e eu podemos ir agora e cuidar do lado leste da cidade e você e Kuwabara cuidam do oeste."

"Parece bom," Yusuke concordou. "Vão em frente, então. Acho que nos encontraremos quando alguém começar a soltar fogos."

"Nada ainda?" Kuwabara perguntou pela quiquagésima vez nos últimos quinze minutos.

"Não," Yusuke respondeu, um pouco irritado. "Pare de perguntar. Quando a bússola mostrar algo, eu lhe conto."

No bairro Shibuya eles caminhavam agora, as ruas tinham um toque europeu distinto. Árvores alinhadas nas calçadas, e muitos pequenos cafés, boates, e lojas de roupa aconchegavam-se ao largo. Dúzias de pessoas apressavam-se para cima e para baixo, evitando abertamente os grupos de Geração X pendurados nas esquinas.

Uma vez que era sábado, havia menos garotos do que o normal nas ruas. Um grande grupo deles estavam reunidos na esquina que Yusuke e Kuwabara estavam se aproximando agora. Rap soava de uma caixa de som, e havia uma multidão reunida ao redor de um dançarino que parecia se achar M.C. Hammer. Yusuke fez uma careta enquanto se aproximavam. "Rap - eeuuuugh."

Kuwabara, que preferia heavy metal, assentiu de acordo, e então estavam no meio da multidão. Sem surpresa, reconheceram muitos dos garotos como estudantes de sua escola. A maioria eram rapazes normais com camisetas e jeans, apesar de alguns tentarem se destacar com alguma jóia ou cor de cabelo incomum. A dupla tentou contornar a multidão, mas as pessoas continuavam movendo-se e bloqueando o caminho deles, quase como se fosse de propósito. Levou alguns segundos de empurrões determinados, e eles passaram. Quase.

Um rapaz virou-se com um olhar irritado quando eles passaram empurrando por ele. Mas seu resmungo tornou-se um sorriso falso quando reconheceu Kuwabara e Yusuke. Ele adiantou-se e desligou a música. O dançarino olhou feio para ele, e gritos de raiva imediatamente preencheram o silêncio. "Ei! Liga a música de novo, imbecil!"

"Olhe ali," o garoto apontou. "Urameshi e Kuwabara, juntos! Agora é nossa chance de pegá-los por todas as vezes que nos espancaram!"

Os gritos de raiva viraram regojizos furiosos. Yusuke e Kuwabara trocaram olhares enquanto seus colegas de clsse os rodeavam.

Kuwabara soou um grito de batalha e andou com dificuldade pela multidão, dando socos aleatórios. Yusuke juntou-se a ele, num alvoroço de socos e chutes devastadores. Por um momento, ele parou, porém - o que era aquela luz verde que ficava tremeluzindo no canto de sua visão? Dando de ombros, ele voltou sua total atenção para a luta.

Cinco minutos depois, Kuwabara e Yusuke saíam de uma pilha de corpos gravemente espancados. Ambos possuíam alguns arranhões e cortes feios, mas Yusuke pôs um grande sorriso no rosto e Kuwabara saía com um orgulho arrogante.

"Esse babacas," Kuwabara murmurou, estalando os dedos. "Como se não tivéssemos nada com que nos preocupar."

"É," Yusuke concordou. "Acha que ele aprenderão algum dia."

"Há!" Kuwabara sorriu. "Ninguém tem chance contra mim!"

Yusuke riu dele. "E eu? Você nunca conseguiu me derrotar. E Rinku? E aquele cara Rando que praticamente quebrou todos os seus ossos?"

Kuwabara olhou furiosamente para Yusuke pelo cantos de seus olhos. "Isso foi há muito tempo. E um dia desses, te derrotarei."

Yusuke riu de novo. "Só em sonhos."

Quando alcaçaram o fim do quarteirão, Kuwabara olhou pelo ombro Yusuke novamente. "Então, alguma coisa na bússola?"

Yusuke olhou furioso para ele. "Já te DISSE que diria quando houvesse algo."

"Então o que é aquilo?"

Yusuke olhou para onde o dedo de Kuwabara apontava. Uma luzinha estava saíndo da Bússola Espiritual, indicando o nordeste.

"Ei, tudo bem!" Yusuke animou-se. "Vamos!"

Não levaram muito tempo para achar seu alvo. De fato, ela os estivera observando do topo de uma boate próxima. Yusuke alcançou-a primeiro, uma figura flexível pendurada sensualmente na margem do telhado. Mesmo que para uma visão normal ela parecesse uma humana comum, Yusuke podia agora ver vagamente um par de chifres na sua testa. Ushiiko parecia bem satisfeita, como um gato lambendo suas patas após uma tigela de creme. Ela acenou para os garotos.

"Que arrogante!" Kuwabara resmungou. "Vamos até lá e chutar o rabo dela!"

Yusuke assentiu de acordo, e acrescentou, "Tenha cuidado. Lembre-se o que Koenma disse sobre seus poderes mentais."

"Que seja." Kuwabara dirigiu-se para o telhado.

Yusuke riu, e correu atrás dele.

Ushiiko cumprimentou os rapazes com um sorriso. "Foi quase um espetáculo o que vocês fizeram ali embaixo. Gosto de lutadores estusiasmados."

Kuwabara sorriu e golpeou seu punho na sua palma. "Você pode ver daqui de cima, a menos que queira vir calmamente. Você está presa."

Ushiiko riu. "Não, acho que vi o bastante à distância."

"Quer dizer que virá calmamente?" Yusuke quase que parecia desapontado.

"Ah, não disse nada disso." a youkai mudou para uma posição mais confortável e focalizou um olhar intenso em Yusuke. "Realmente me pergunto, porém, por que vocês se incomodam com isso. Quero dizer, você é humano, certo? O que vocês tem a ver com o mundo Espiritual?"

"Não é da sua conta," Yusuke rebateu. "Vai lutar ou não?"

Os olhos verdes jade de Ushiiko se desfocaram um pouco, e então ela riu de repente. "Ah, entendo agora."

"O quê?"

"Por que você está tão zangado."

"De que diabos está falando?" Yusuke olhou raivoso para ela.

A youkai apontou um dedo longo, delicado para ele. "É porque você não queria estar aqui na verdade. Vocês foram enviados por Koenma, não? Sente como se estivesse usando você. Sente-se como se ele estivesse te controlando. Não é isso?"

"Isso é ridículo!" Yusuke protestou. Ele sentiu um tipo esquisito de excitação na sua cabeça, mas afastou-a e preparou-se para atacar.

A voz de Ushiiko assumiu um tom baixo, hipnótico e sibilante. "Você pode admitir, sabe. Nunca faz bem esconder os verdadeiros sentimentos. Você é um espírito livre, Yusuke. Precisa ser livre. Submeter-se ao controle de outrém não é próprio de você. Encare isso, Koenma está manipulando-o como a uma marionete. Está lhe forçando a ser detetive para ele."

"Cale-se!" Yusuke rosnou. "Isso não é verdade!" dirigiu um chute para Ushiiko, que ela facilmente desviou.

"Não?" ela riu gentilmente. "Então como chama isso?"

Yusuke girou e atirou mais alguns ataques nela. Como uma bailarina, ela desviou-se de cada um, deixando Yusuke lutando contra o ar.

"Encare isso, Yusuke," Ushiiko provocou. "Enquanto estiver fazendo o trabalho sujo de Koenma, não será nada além de uma peça do tabuleiro dele. E acredite-me, isso é tanto quanto você significa para ele. Ele não hesitará em te sacrificar por algum 'bem maior', como ele fala."

"Isso não importa!" Yusuke protestou novamente, parando o ataque. Deu alguns passos para trás, para pegar a medida da youkai. Ela era muito rápida. Um ataque frontal não adiantava, obviamente, e... e... Yusuke balançou sua cabeça de novo. Aquela excitação entre seus ouvidos não passava e agora se juntava com algo mais - uma precipitação de energia selvagem que o fez ranger os dentes e cerrar os punhos tanto que suas unhas cortaram as palmas.

"Tem tanta certeza?" a voz de Ushiiko ecoou em sua cabeça. "Se pensar só por um instante, entenderá o que quero dizer."

E maldita seja, Yusuke de repente percebeu ele sabia muito bem o que ela queria dizer. Como governante do Mundo Espiritual, Koenma tinha que pensar no todo. Se precisasse, poria de lado todos os arrependimentos e sacrificaria Yusuke e seus amigos. Aquilo era parte das responsabilidades de Koenma. E agora, Yusuke também percebera que não estava muito satisfeito com a essa idéia. De fato, ressentia-se. Como um sobrevivente por natureza, ressentia-se bastante.

A excitação na cabeça de Yusuke intensificou-se como se estivesse alimentando-se com sua raiva. Idéias o atingiam uma atrás da outra - não só ele escondia esse ressentimento de si mesmo, como na verdade se convencera de que trabalhava para Koenma por escolha pessoal. Mas agora lembrava-se de que não houvera escolha afinal de contas. E que aquilo o deixava furioso. Se havia alguma coisa que Yusuke detestava, era ser manipulado. Aquela era a única razão pela qual sempre rebelava-se contra a Autoridade. Koenma era simplesmente a maior Autoridade por ali... e Koenma estava com certeza manipulando-o.

"Ei, Urameshi!" Kuwabara estalou os dedos impacientemente. "Vai pegar esta galinha, ou o quê?"

"E ele," Ushiiko voltou-se para Kuwabara com escárnio. "Como diabos você se misturou com esse retardado? Algo me diz que ele não é muito esperto. Como você pode escutar algum tipo de conselho que ele tenha para te dar?"

"Ei! Vou te mostrar o retardado!" Kuwabara atacou com toda força Ushiiko, que meramente saiu do caminho. Kuwabara recuou freneticamente, balançando os braços para se manter longe da beira do telhado.

Ushiiko riu zombeteiramente. "Vê o que digo?" falou para Yusuke. "Sem cérebro, só atitude. Como ele poderia entender como se sente?"

"Eu..." Yusuke balançou a cabeça, tentando clareá-la. Estava confuso. Há apenas um segundo, teria se lançado para capturar essa youkai e enviado-a de volta a prisão. Mas agora...

"Isso mesmo, Yusuke. Não tem que fazer o que lhe dizem. É só um outro tipo de prisão, não é? Koenma não se importa em nada com você, sabia? Só está te usando."

Yusuke ergueu os olhos com um brilho zangado neles. "Me usando..." repetiu. Era verdade. Tudo que Ushiiko dizia era verdade. Como ele pode convencer-se do contrário?

Kuwabara olhou confuso para seu companheiro. "Em que diabos está pensando, Urameshi?!" ele gritou. "Não vai recuar, não é?" Kuwabara correu de volta para onde Yusuke estava, agitando-se confuso. "Não a ouça, Urameshi," Kuwabara gritou bem no ouvido dele. "Ela tem poderes mentais, lembra-se?"

"EI! Pare, seu babaca!" Yusuke empurrou-o, esfregando o ouvido. " Ela está certa! Koenma só está me usando! Está manipulando a todos nós! Não dá pra ver? Ou não se importa?!"

"Pensei que você-"

Yusuke cortou Kuwabara. "Não vou mais cair nessa! Ninguém, mas NINGUÉM me usa desse jeito! Eu me demito!!"

Kuwabara agarrou os ombros de Yusuke. "Você não quer dizer isso, Urameshi. Aquela galinha fez algo com sua cabeça. Você não é assim de jeito nenhum!"

Yusuke livrou-se do agarrão de Kuwabara. "Não, ela me fez ver a verdade. Deixe Koenma cuidar de seus proprios malditos criminosos de agora em diante, ou pode fazê-lo, não me importo. Mas estou fora." levantou um dedo de aviso. "Não tente me deter. E, se você ver Botan, pode dizer-lhe para ficar bem distante de mim." Abruptamente Yusuke voltou-se, dirigindo-se para a porta de acesso ao telhado.

Freneticamente Kuwabara olhava para frente e para trás, de Yusuke indo para a youkai sorrindo falsamente e examinando as unhas. Uma expressão confusão e em pânico varreu seu rosto, seguindo-se por uma resoluta.

Kuwabara voltou-se para avançar sobre Ushiiko, invocando sua espada espiritual. A energia dourada arranhou sua mão. "O que quer que tenha feito com ele, é melhor desfazer!" ele exigiu dela.

"Não fiz nada," ela lhe informou. "Somente fiz seu amigo dar uma boa olhada em como ele se sente realmente."

"De jeito nenhum!" Kuwabara correu até ela, atacando selvagemente com sua espada. "Conheço Urameshi, e ele não desiste com facilidade!"

Ushiiko facilmente desviou dos ataques de Kuwabara. "Bem, e você? Como se sente sobre toda essa baboseira de 'detetive espiritual'?" ela estreitou os olhos, focalizando-se nele.

"Não importa como me sinto sobre isso," Kuwabara disse, chegando até ela de um ângulo diferente. "O que você fez é errado! Não pode simplesmente entrar nos pensamentos das pessoas e confudi-los desse jeito. Não deixarei você se livrar disso!"

"Você..." os olhos de Ushiiko arregalaram-se, surpresos. "Não consigo Senti-lo - impossível! É só um humano, não deveria ser capaz de-"

Kuwabara viu sua chance nesse momento de hesitação. Com um sorriso selvagem, arremessou-se com a espada espiritual. Acabou tropeçando nos cordões do sapato e aterrisou com a cara no chão. "D'OH!"

Ushiiko franziu o cenho e exibiu o canivete. "Você é muito estúpido e perigoso para eu te deixar viver. Quanta dor acha que posso tirar de você, antes de morrer?"

"Não, não vai! Solte essa faca, AGORA!" a voz de Yusuke ecoou pelo telhado. Kuwabara e Ushiiko olharam em volta, para ver Yusuke parado firmemente com seu dedo apontado para Ushiiko como uma criança segurando uma arma de mentira. "Estou te avisando. Não me importo se Koenma quer você ou não, mas NINGUÉM ameaça meus amigos!"

Ushiiko apertou o canivete. "Yusuke, você não-"

"REI GUN!" Yusuke gritou. Um raio de energia espiritual brilhante saiu da ponta do dedo de Yusuke, na direção de Ushiiko.

Ela graciosamente flutuou para trás, saindo do caminho e aterrisando a dois prédios de distância. "Ah, bem..." deu de ombros para eles. "Foi divertido enquanto durou. Vejo vocês depois...talvez." ela acenou e desapareceu de vista.

"Atrás dela!" Yusuke gritou, colocando-se atrás da youkai de olhos jade. Alcançou o ponto em que ela estivera e olhou em volta. Não parecia estar em lugar algum. "Merda!" Yusuke cuspiu, então olhou de volta para Kuwabara. O rapaz alto estava se pondo de pé e limpando sua capa branca. Parecia estar bem. Com um resmungo baixo, Yusuke verificou a Bússola Espiritual. Nada.

"Pra onde ela foi?!" Kuwabara perguntou freneticamente quando Yusuke reuniu-se a ele.

"Não sei dizer," Yusuke respondeu, frustado. "Essa droga parece só funcionar quando ela está usando seus poderes, então não saberei onde ela está até que faça algo novamente."

"Já estava na hora de você ter bom senso," Kuwabara franziu o cenho. "Pensei que teria que acabar com ela sozinho. De qualquer forma, o que ela fez com você? Estava te controlando de alguma maneira?"

Yusuke olhou fixo para o espaço entre seus pés. "Não, na verdade não. Acho..." ele começou lentamente, "Acho que ela deve ser algum tipo de gaki, como um vampiro psíquico. Podia sentir ela alimentando-se de minhas emoções. Não sentiu isso também?"

"Hum? Quer dizer, ela te fez ficar puto por ser um detetive espiritual, e então alimentou-se disso?"

"Não exatamente." Yusuke balançou a cabeça. "Acho que eu realmente tenho algum tipo de resentimento. Mas houve boas razões para trabalhar com Koenma, então não me importei muito. Pelo menos... foi o que pensei." levantou os olhos para seu amigo com uma mostra de confusão. "Mas por um instante ali, nenhuma dessas razões pareceu importar. De fato..." Yusuke parecia estranhamente pensativo. "De fato, ainda não tenho muita certeza se ainda valem a pena." lançou um olhar curioso para Kuwabara. "Aliás, como foi que ela não conseguiu te atingir?"

"Ah, bem..." Kuwabara parecia orgulhoso consigo mesmo. "Estive trabalhando com escudo psíquico, como a Mestra Genkai me ensinou."

"Hmf." Yusuke olhou fixo para seus sapatos. "Bem, bom trabalho acho, mesmo que você não a tenha pego. Espero que Kurama e Hiei tenham melhor sorte se a encontrarem." uma descoberta repentina atingiu Yusuke. "Ah, merda!"

"O que foi agora?"

Yusuke olhou fixadamente para Kuwabara. "Se Ushiiko conseguiu entrar na minha cabeça o suficiente para me fazer pensar em abandonar Koenma, o que acha que poderá fazer com Kurama ou Hiei? Ambos eram ladrões antes de se tornarem detetives espirituais. Koenma pode acabar nos mandando atrás deles."

Kuwabara balançou a cabeça. "De jeito nenhum. Os dois são muito experientes para caírem nesse jogo desse jeito. Não são?"

"Ela quebrou todas as defesas do imperador, uma vez," Yusuke murmurrou, refletindo. "Ele provavelmente tinha todos os tipos de coisas realmente poderosas o defendendo."

Ambos se encontravam correndo de repente para a parte leste da cidade. "Melhor achá-los, depressa."

Ushiiko cantorolava alegremente consigo mesma, enquanto caminhava pela cidade. Aqueles dois humanos possuíam energia rei muito poderosa, especialmente o mais baixo, de cabelo escuro. Alimentar-se das emoções deles tinha sido como beber um forte vinho, ou um hidromel delicioso. Agora ela facilmente controlava uma energia duas vezes maior do que antes de encontrá-los. A sorte estava certamente sorrindo para ela hoje.

Contudo, a aparição dos detetives espirituais significava que Koenma já estava atrás dela. Por um momento, Ushiiko se perguntou se deveria pensar em algum tipo de plano, mas então decidiu confiar no acaso. Ainda não a traíra.

Um sinal vermelho brilhante chamou sua atenção. 'ESTAÇÃO DE METRÔ' ela leu num grande kanji. Metrô. Huumm. Bem, por que não? Nunca estivera num metrô antes.

Meia hora depois e vários quilômetros adiante, Kurama e Hiei estavam de pé num telhado supervisionando as ruas. A bandana de Hiei deslizara para sua mão enquanto ele sondava a área com seu jagan. Kurama ficou esperando, perguntando-se pela milásima vez como seria ter um terceiro olho.

"Alguma coisa?" Kurama perguntou.

"Não," Hiei respondeu imediatamente.

Kurama tentou mais uma vez sondar em redor com seus próprios sentidos espirituais. Mas duvidava que conseguiriam descobrir algo, se o jagan de Hiei não o fizera. Suas dúvidas foram confirmadas. Suspirou. "Vamos andar," ele sugeriu.

Hiei não disse nada, mas passou feito um raio pelos telhados. Kurama o seguiu, acompanhando-o o melhor que podia. Hiei tinha na verdade diminuído a velocidade um pouco, por ele, do contrário ele seria deixado para trás em instantes. Desse modo, em questão de minutos a dupla estava numa seção totalmente diferente da cidade. Alguns segundos depois, estavam no topo do prédio mais alto daquele bairro. Atrás deles, vapor assoviava pela ventilação dos exaustores do prédio.

Kurama baixou os olhos para as ruas, enquanto Hiei verificava a área. Essa parecia ser uma parte comercial do centro. O tráfego do fim da tarde aumentara e trânsito estava começando a se formar. As calçadas eram um mar de pessoas. Dali de cima, porém, eles mal conseguiam ouvir algo. Parecia remoto, como se os topos dos prédios estivessem num mundo e as ruas em outro.

"Tudo parece tão pacífico daqui de cima," Kurama comentou. Apoiou os braços no peitoril do telhado e suspirou. "Sabe, às vezes queria que o mundo fosse exatamente assim. Se não tivéssimos que gastar tanto de nossas vidas lutando, teríamos tempo para coisas melhores." ele deu uma risada curta. "Ah, mas esqueci com quem estava falando. Gosta de lutar, não é?"

Hiei não deu resposta, mas continuou de pé no peitoril como uma gárgula. Seus dois olhos naturais estavam bem fechados, de modo a não distrair a Visão do jagan púpura no meio da testa. Suas sobrancelhas enrugaram-se em concentração, enquanto sondava de um lado a outro.

Um pensamento maligno passou pela cabeça de Kurama. Hiei parecia tão distraído enquanto ficava ali... Kurama teve que sufocar uma risada. Calmamente, ah-tão-calmo, ele se pôs detrás do demônio de fogo. Lentamente colocou-se em posição...firme... dedos prontos...

Rápido como um relâmpago, inclinou-se para frente e cutucou Hiei na cintura, com as pontas dos dedos.

"AAAH!" o koorime pulou virando-se, olhos arregalados, espada em mãos.

Kurama caiu para trás, contra a parede oposta, rindo até não se agüentar. "H...Hiei," he arfou. "Devia ver sua cara! O que eu não daria por uma câmer!" ele dissolveu-se numa risada incoerente.

Hiei olhou furiosa e sombriamente para Kurama enquanto embainhava a espada. "Seu idiota! Tem sorte que eu não tenha arrancado sua cabeça por reflexo!"

Kurama parou de rir, e voltou a posicionar-se ao lado dele. "Não fara isso, Hiei," ele sorriu. "Conheço você muito bem. Tem melhor controle do que isso."

"De qualquer forma, você sempre leva as coisas muito a sério," Kurama comentou. "Precisa aprender a relaxar m pouco, divertir-se às vezes. Não te matar, sabia?"

"Hn. A única coisa que vale a pena fazer é lutar, e se eu relaxar durante um combate vou ser morto. Você... desde o Torneio das Trevas, quando voltou a sua verdadeira forma por um instante... você tem ficado frívolo."

Kurama suspirou. "Não, não frívolo, na verdade. Só um pouco mais próximo ao que costumava ser."

"Hn." Hiei deu de ombros. Virou-se e continuou a sondar as ruas com seu jagan. Após alguns instantes, ele disse, "Bem ali. Acho que é ela."

Kurama olhou para baixo. Não conseguia sentir nenhum youki

na direção que Hiei apontava, e disse isso.

"Claro que não," Hiei disse. "Ela está escondendo-o. Mas olhe para a multidão ao redor dela."

Kurama o fez. Na abundante multidão nas calçadas, ele mal conseguia distinguir um indivíduo. Contudo, realmente parecia haver um 'buraco' na multidão que saía da estação de metrô. Se olhasse cuidadosamente, Kurama consiguiria distinguir um ponto único no meio daquele buraco. A multidão parecia estar fluíndo ao redor daquela pessoa, como que por mágica. Olhando ainda mais cuidadosamente, Kurama mal coseguia distinguir as cores brilhantes e linhas afiadas de uma roupa na moda vestida por um corpo feminino. Não parecia haver nenhuma razão óbvia para as pessoas a estarem evitando.

"Vale a pena dar uma olhada," Kurama concordou. Dirigiu-se para o elevador. "Eu irei. Há muitas pessoas lá embaixo para começar uma luta, então eu a distrairei para algum lugar menos movimentado, e você poderá se juntar a nós."

Quando atingiu a calçada, Kurama forçou seus poderes psíquicos, tentando ter um vislumbre da youkai. Era quase impossível. Havia muitas pessoas em volta, não importava se ela estava escondendo o poder espiritual. Silenciosamente, ele xingou baixinho. Precisa chegar num ponto mais alto para vê-la sobre a multidão.

Olhando em redor, Kurama notou que a entrada para o arranha-céu era precedida por degraus e uma varanda de concreto. Rapidamente dirigiu-se até lá, e inclinou-se sobre o corrimão da varanda, uma mão sobre os olhos, vasculhando a multidão.

Ali estava ela! Uma figura flexível com um cabelo verde curto na moda, fazia seu caminho habilmente pela multidão. Respirando fundo, Kurama saltou pelo corrimão para a calçada, e encaminhou-se até ela. Miraculosamente, a multidão separava-se enquanto ela se aproximava.

Um golpe passou pelo kitsune quando seus olhos se encontraram. Algo tinha acabado de roçar a sua mente! Um olhar astuto e reconhecedor apareceu no rosto de Ushiiko. Ela sentiu seu youki, como ele sentira o dela? Devia ser isso, porque agora ela se encaminhava direto até ele. Enquanto ela se aproximava, Kurama foi de repente atingido pelo reconhecimento do poder dela. Droga! ele xingou consigo mesmo. Uma gaki emocional! Ela devia encontrar-se na classe A agora, mas tinha potencial de subir até a classe S. Não era de estranhar que Koenma estivesse tão preocupado!

Muito tarde, Kurama percebeu que precisava se armar com defesas mentais mais fortes. Uma gaki emocional não era ninguém com quem se meter. Rapidamente educando seus pensamentos, ele removeu uma rosa detrás de sua orelha e lançou mão de um velho truque cigano. Sacudindo a rosa na direção de Ushiiko, ele se convenceu mentalmente de que o que estava para dizer era totalmente, absolutamente verdade.

"Olá," murmurrou, roçando em Ushiiko. "Será que podia falar com você?"

Ushiiko parou e inclinou a cabeça. "E quem é você?"

"Meu nome humano é Minamino Shuuichi, mas no Makai, fui conhecido como Youko Kurama." ele sorriu e entregou-lhe a rosa.

Ushiiko esgasgou. "O famoso ladrão?"

"Ouviu falar de mim, então? Ótimo."

"Ouvi dizer que desapareceu quinze anos atrás."

Kurama olhou irônico para seu corpo humano. "Um caçador atirou em mim. Eu... tive que reencarnar como humano para escapar da morte. Tenho ficado no mundo humano desde então." ergueu os olhos de novo, tomando cuidado para não olhar dentro dos olhos de Ushiiko. "Mas não é isso que queria conversar com você. Sabe. preciso de um novo parceiro. Descobri recentemente alguns objetos mágicos valiosos escondidos no mundo humano, mas já que estou atualmente preso como humano, não tenho todas as habilidades que tinha quando era um youko. Preciso de ajuda."

"Mas a calçada não é um lugar muito bom para conversar sobre isso," ele continuou, movendo-se para um beco próximo. "Vamos para um lugar um pouco mais privado."

Ushiiko assentiu e seguiu-o. "Parece interessante," ela disse, enquanto entravam nas sombras do fim de tarde. "Conte-me mais." ela sorriu delicadamente para a rosa.

"Bem, parece que há uma pérola mágica incrustada numa estátua num santuário não muito longe daqui. Há um problema, porém. Está guardado por alguns selos poderosas que não sei como quebrar."

"Sei tudo sobre selos," Ushiiko sorriu arrogantemente. "Quebrei muitos deles quando escapei da prisão no Reikai."

"Ótimo," Kurama disse. "Porém também há outro problema."

"E qual é esse?"

"Não estou procurando exatamente por um novo parceiro," Kurama disse enquanto enviava um controle mental para a rosa que Ushiiko segurava. A haste espinhenta espiralou a volta dela, cravando e marcando seus braços e pernas com filetes de sangue. As folhas da rosa cresceram e enrolaram-se em volta da youkai, embrulhando-a. "Na verdade sou um detetive espiritual, e Koenma me pediu para recapturá-la. Já que você admitiu que selos não a detém, então que tal uma rosa do Makai?"

"Deveria saber que não devia confiar num kitsune," Ushiiko silvou por trás das folhas. O pacote estremeceu violentamente, e explodiu em plantas rasgadas. A gaki voou por sobre a cabeça de Kurama e pousou atrás dele, seus olhos brilhando malignamente. "Você será o mais delicioso," ela murmurrou. Seus lábios se abriram e ela começou a cantar.

Uma onda de puro medo atingiu Kurama enquanto a canção atacava seus ouvidos. Ele voltou-se, tentando forçar-se a atacar Ushiiko novamente, mas em vez disso encontrou-se inclinando-se numa parede de tijolos pichada, os braços em volta de seu corpo trêmulo. Ushiiko pareceu crescer mais três, seis metros, enquanto sua música lamurienta o envolvia. Kurama tentou desviar o olhar, mas descobriu-se preso nos nebulosos olhos jade dela, enquanto eles pareciam ter passagem direto para a alma dele. Onde estava Hiei? a última ponta de pensamento racional de Kurama perguntou, enquanto caía de joelhos.

:Vou ensinar você a não brincar comigo!: a voz mental fria de Ushiiko introduziu-se em sua cabeça, enquanto ela continuava a cantar. :mostre-me seus segredos, kitsune! Mostre-me os lugares sombrios de seu coração!:

"N... não...," Kurama sussurrou fracamente, tentando lutar contra o ataque mental da gaki. Ele se armou com os mais fortes escudos mentais que podia dominar. Eles estremeceram no ritmo da resonância misteriosa da música, vacilou, e desapareceu num redemoinho de música enquanto a presença invasiva de Ushiiko mergulhava fundo em suas lembranças. Uma luz verde pálida preencheu o beco.

O beco desvaneceu da vista de Kurama, para ser substituído por uma escuridão total e um distante gotejar d'água. Lentamente, enquanto os olhos se ajustavam, Kurama conseguiu distinguir estalactites sobre a cabeça, e uma tranqüila poça de água negra à sua frente. Onde ele estava? Algo nesta caverna parecia terrivelmente familiar.

Rastejando até a poça, Kurama invocou uma tulipa-lanterna. Ela germinou no solo rochoso ao seu lado e lançou uma luz avermelhada fraca através de suas pétalas delicadas. Na poça, Kurama viu o reflexo de um delgado e impressionantemente belo kitsune jovem com uma cascata de cabelo prateado caindo pelos ombros. Ele estava na forma de youko, então?

Olhando por sobre o ombro, Kurama viu uma luz vermelha cintilando de uma moldeira dourada apoiada contra a parede da caverna. De repente lembrou-se. Aquele era o buraco pelo qual fugira depois que ele e seu último parceiro, Kuronue, roubaram o grande tesouro. Kuronue...

Durante a louca fuga pela floresta, o outro ladrão tinha de algum modo deixado cair seu mais precioso tesouro. Ele parou para buscá-lo e foi empalado pelos guardas em perseguição. Kurama fora incapaz de ajudá-lo, incapaz de fazer nada, a não ser observar as lanças cravando-se no corpo de seu melhor amigo. A dor em seus olhos, o medo total... Kurama não conseguia esquecer, duvidava que pudesse esquecer a agonia que Kuronue sofreu enquanto morria.

"Se ao menos..." Kurama sussurrou, enterrando a cabeça nos braços, enquanto a culpa o sufocava. "Se ao menos eu pudesse..."

De repente ele notou um brilho de energia no canto dos seus sentidos. Parecia muito familiar, se pelo menos conseguisse localizá-lo. Inimigo? Não. Amigo? Kurama só conseguia pensar em uma pessoa que chamaria de amigo. O outro ladrão tinha sobrevivido de alguma maneira, então? "Kuronue -?" sussurrou esperançoso, enquanto uma sombra negra corria para dentro da caverna.

"Kurama!" a sombra negra gritou enquanto colidia numa figura feminina que apareceu de repente à sua frente. Kurama piscou, tentando entender a mudança de cenário. Kuronue nunca usara uma katana como aquela. Nem nunca fora tão pequeno. "Hiei!" ele engasgou, de repente reconhecendo a energia espiritual.

"Recomponha-se, droga!" Hiei resmungou enquanto flutuava em volta de Ushiiko, sua katana assoviando pelo ar ao redor dela. Agilmente, ela agachava-se e desviava de cada ataque. Era como se Hiei estivesse tentando cortar água.

Kurama lutou com seus pés, tentando passar pela neblina emocional criada pela música da gaki. Ela ainda cantava, enquanto rodopiava numa louca dança da morte com o pequeno koorime. Kurama forçou-se a dar um passo, então outro pelo chão da caverna. "Cuidado, Hiei," engasgou. "Ela é mais poderosa do que parece..." Kurama dobrou um dos joelhos, enquanto uma onda de fraqueza o invadia. Droga, o que estava errado com ele? Por que não conseguia fazer nada? Convivia com essa culpa pela morte de Kuronue por mais de cinqüenta anos, então por que isso o afetava tanto agora? Seria forçado a não fazer nada de novo, enquanto assistia outro amigo morrer?

A música aguda continuava.

:Conte-me seus segredos, pequeno.: a voz mental sibilante de Ushiiko soou estranhamente desafinada no espaço cavernoso.

"O quê?" os olhos âmbar de Hiei arregalaram-se, enquanto o olhar melancólico de Ushiiko os apanhava e os prendia.

"Hiei," Kurama engasgou enquanto a caverna começou a tremeluzir em sua visão. "Lute contra ela, Hiei-! Não a deixe pegar você!" forçando-se a se por de pés, tentando esquecer a mágoa que o fazia querer arrancar o próprio coração ("Kuronue..."), Kurama apalpou o bolso, procurando por sementes para usar contra a cantora. Agora, ele sabia, não era a hora de se perder em arrependimentos.

De repente uma mão adiantou-se por trás dele e agarrou seu braço. Kurama voltou-se, espantado, para ver uma forma familiar detrás dele. Longas asas de couro espreitavam detrás de um corpo magro e musculoso, coberto com faixa e couro apertados. Um chapéu amassado inclinado anarquicamente sobre um olho, que era escondido por uma mecha de cabelo preto como um corvo. O longo a afilado rosto parecia triste. "Kurama," Kuronue disse suavemente.

O kitsune esgasgou-se. "Impossível! Você não pode estar aqui. Eu vi você morrer."

"Isso mesmo," o sombrio youkai disse gentilmente. "Sou só uma lembrança." ele amostrou um amuleto vermelho brilhante. "Lembra-se disso?"

"Claro," Kurama replicou. "Isso era seu bem mais precioso. Foi por isso que você perdeu a vida."

"Foi tolice, admito," Kuronue com tristeza balançou a cabeça. "Mas lembra-se do que me prometeu?"

Kurama pensou. "Você queria que eu desse esse amuleto para sua filha se alguma coisa acontecesse com você."

"Então por que não fez isso?"

"Teria sido suicídio voltar atrás dele," Kurama prostestou. "Os guardas o guardaram depois que você morreu, e a segurança da casa do Grande Tesouro foi triplicada por meses depois!"

Os olhos de Kuronue estreitaram-se. "Desde quando isso deteve você de ir atrás de algo que queria? Talvez sua promessa não significasse nada?"

"Não é verdade!" Kurama prostestou novamente, enquanto a música misteriosa ecoava ao redor dele, aumentando seu tom.

:Escondendo-se atrás de uma barreira de indiferença não te protegerá para sempre, sabe?:

Assustado, Kurama de repente lembrou-se da luta acontecendo atrás de si. Ele voltou-se e viu Hiei agachado numa pose defensiva, mal visível atrás da parede de fumaça translúcida que o rodeava. Sua katana balançava-se negligentemente em seu punho; parecia estar enfrentando uma luta interna. Tardiamente, Kurama também notou uma luz verde vacilante vertendo de seu próprio coração para dentro da gaki lamuriante. A cada pulsação, a luz ficava mais forte, e os joelhos de Kurama sentiram-se mais fracos. A música ficou mais afiada, perfeita para despedaçar uma alma em farrapos.

"Hiei," Kurama engasgou, enquanto a música fantasmagórica arrancava suas últimas forças. Horrorizado, ele observou a barreira de Hiei amainar-se, e finalmente desaparecer em tufos de fumaça. O pequeno koorime vacilou e caiu de joelhos. A katana deslizou e caiu sonoramente no chão.

Enquanto a caverna ao seu redor começou a dissolver-se, Kurama percebeu que enquanto o foco do ataque de Ushiiko mudava, também o fazia as lembranças dominantes controlando a cena. Aquilo sognificava que Hiei havia visto as lembranças de Kurama - e agora ele estava vendo as de Hiei!

A caverna ficou mais e mais clara, até que as estalactites derreteram-se e foram substituídas por um céu cinza gélido. O chão a frente de Kurama despedaçou-se, e ele encontrou-se olhando para uma borda rochosa, lá embaixo um rio estreito cortando a planície coberta de neve. Estranhamente, o desfiladeiro não parecia ir até o chão. Kurama engasgou. Mas o quê-?

De repente o sol espreitou-se por entre as nuvens, e um arco-íris atingiu a neve próxima ao kitsune. Voltando-se, foi momentaneamente cegado pela ofuscação do sol passando por uma espiral cristalina à distância. Arco-íris apareciam em todo lugar, pequenas faixas de cor contra a neve completamente branca. Então, rapidamente, o sol voltoupara detrás das nuvens, e Kurama deu uma boa olhada em o que o havia cegado. Quase esqueceu-se de respirar. Não muito longe, erguia-se uma magnífica cidade de de mármore e gelo! A espiral que o havia cegado estava no topo de um prédio delicado que parecia-se com um cruzamento de um pagode e uma catedral. Aconchegado ao redor deste... palácio?..estavam uma variedade de estruturas menores, mas igualmente magníficas. Era difícil dizer da onde ele estava, mas parecia que os prédios estavam decorados com ornamentos em espiral curvilíneos, quase barroco - todos cinzelados em gelo. Pináculos e torres, também de gelo, dirigiam-se para os céus. Não era de se espantar que tivesse sido cegado quando o sol tocou a cidade! Ela quase brilhava, mesmo sem o sol. Que lugar era esse??

A resposta o atingiu enquanto procurava em redor por Hiei. Esta era a cidade sobre a ilha flutuante - a legendária cidade das Koorime. Mas aquilo significava que-!

Um vento gelado passou cortante pelo kitsune enquanto ele notava uma mulher encaminhado-se para a margem da ilha à uma certa distância. Ela carregava um embrulho enfaixado. De repente o tecido mexeu-se e uma pequena cabeça com cabelo preto espetado apareceu.

O bebê olhou confuso em redor. Uma mão saiu e agarrou o cabelo desarrumado da mulher. Ela recuou enquanto ele o puxava, e gentilmente procurou soltar seu cabelo da mão do pequeno.

Com um suspiro triste, a mulher parou do lado da borda da ilha e deu uma longa olhada na criança. Rapidamente, relutantemente, ela puxou uma tira de couro de seu pesoço e colocou no do bebê. A luz cintilou vagarosamente na jóia negra presa nela. O bebê, sentindo que algo estava terrivelmente errado, começou a chorar. A mulher sussurrou algo, olhando na direção do céu. Então deu um passo a frente, e jogou o bebê no penhasco.

"Não!" Kurama não conseguiu evitar de se lançar adiante, para tentar apanhar Hiei, embora soubesse que era tarde demais. No instante que alcançou a margem, tudo que pôde ver era uma pequena cratera num monte de neve lá abaixo. saber que Hiei havia sobrevivido não fez com que o nó na garganta de Kurama se fosse.

Então a cena mudou, enquanto ele se encontrava num lado montanhoso. Pinheiros verdes empurravam a neve, arranjando-se próximo a um riacho turbulento. A cidade havia desaparecido, mas havia uma cabana visível mais adiante, com fumaça saindo da chaminé. Uma trilha mal aberta passava através dos pinheiros, na direção da cabana.

Um calmo som de passos fez Kurama voltar-se. À sua esquerda, viu Hiei esforçando-se para por-se de pé. O koorime parecia um pouco mais velho, talvez um ano, talvez menos. Estava lutando para passar pelo monte de neve, carregando um coelho morto, e os restos parcialmente comidos de outro. Ele não prestou atenção no kitsune. Kurama estava para ir até ele, quando uma mulher de aparência rude saiu detrás de uma árvore. O vento soprou e chicoteou no seu manto, revelando uma camuflagem de inverno debaixo dele.

Hiei parou e quase derrubou os coelhos. Por um instante, seus olhos se iluminaram. "Você... você é da cidade, não é?" ele perguntou. "Sabia que me encontrariam! Está aqui para me levar de volta, certo? Sabia que foi um engano!"

"Nenhum engano, garoto," a koorime mais velha resmungou. "Exceto que você é muito estúpido para morrer sozinho. Quando a patrulha da borda falou sobre você, eles me mandaram para acabar com você." ela sacou uma espada de lâmina larga debaixo de seu manto.

"Não entendo," Hiei protestou, afastando-se. "Por quê?"

"Por quê?" a outra resmungou. "'Porque você é a maldita Criança Proibida, é por isso! Koorime controlam o gelo, não fogo."

Hiei olhou para a neve, que estava começando a derreter-se a sua volta. "Mas isso não é minha cul-" foi de repente forçado a saltar, quando a espada passou silvando na direção dele. Ele usou os coelhos para aparar o golpe.

"Só desista, droga!" a outra koorime xingou. "Facilite, e morra agora. Você nunca deveria ter nascido, de qualquer forma!"

"Não!" Hiei gritou, saltando na garganta da estranha. A outra koorime foi pega de surpresa pela audácia e foi balançada. Por alguns momentos a dupla lutou no chão, chegando perigosamente perto da borda do precipício nevado. Por um instante uma aura ameaçadora cintilou ao redor de Hiei. Ambos os koorime pareceram surpresos - e então a neve transformou-se em lama. A mulher sufocou um grito de alarme enquanto seus pés deslizaram e uma perna parou no penhasco. Hiei livrou-se do aperto dela exatamente quando a outra perna deslizou também. Esticando a mão desesperado por algo, qualquer coisa, a estranha conseguiu agarrar a tira de couro em volta do pescoço de Hiei. O koorime mais jovem engasgou enquanto começava a deslizar pela borda. Olhando em volta freneticamente, ele não via nada em que se agarrar. Com um grito sonoro ambos os koorime caíram.

"Hiei!" Kurama gritou, correndo até o ponto onde eles desapareceram. Quando olhou para baixo, viu que Hiei estava segurando-se numa pequena raiz que estava saindo pelo lado do penhasco. Parecia que estava para ser estrangulado pelo peso da outra koorime, que ainda estava agarrando seu colar.

"Solte," Hiei engasgou, chutando a estranha.

"Se eu for, você vai comig-"

A tira de couro partiu-se.

Arfando por ar, Hiei observou a outra koorime cair do penhasco num redemoinho de camuflagem branca. Lenta e cuidadosamente ele fez o caminho de volta ao topo do penhasco, ignorando a mão de Kurama. Ele voltou-se e olhou para baixo, passando um dedo aonde a tira com a pérola de gelo uma vez esteve. "Nenhum engano..." ele sussurrou.

"Hiei!" Kurama balançou seu ombro. "Pare com isso! São só lembranças. Só lembranças!"

Apenas o vento gelado deu resposta, seu gemido assustador atingindo rudemente os nervos de Kurama.

Uma risada estridente, zombeteira ecoou a volta deles. :Ah, mas lembranças carregam um tipo de grande poder no universo. Afinal de contas, sem as lembranças não seríamos nada, a não ser marinheiros atirados à deriva pela tempestade num mar sem limites, sem nenhuma idéia de para onde estamos indo, sem idéia de onde estamos... e sem motivações para ir a qualquer outro lugar. Nunca despreze o poder das lembranças.:

Kuronue apareceu próximo a Kurama novamente, estranhamente discordante na neve. Ele entregou o pingente para Kurama, e suspirou, "Lembre-se. Por mim, lembre-se."

Só lembranças. Kurama enterrou o rosto nas mãos, agarrando o pingente numa delas. Não havia nada que pudesse fazer por seu antigo amigo.

"Estão ali!" uma voz familiar passou pela neblina de emoções, fazendo Kurama piscar.

"É, estou vendo!" Yusuke! E Kuwabara!

"Mas o quê-?!" Ushiiko soltou. "Vocês de novo?!" de repente os alpes gelados desapareceram, para serem substituídos por um beco estreito, pixado. A transição repentina era quase claustrofóbico.

"Yusuke, cuidado-!" Kurama gritou, lutando para por-se de pé.

"É, eu sei!" Yusuke entrou atacando no beco à toda, direto em Ushiiko. Ele colidiu nela, dando um poderoso soco no queixo. "Isso é por antes! Vamos ver você falar besteira com a mandíbula quebrada!"

A gaki livrou-se do ataque e empurrou Yusuke de lado. "Seu idiota! Absorvi poder suficiente desse dois-" ela gesticulou para Kurama e Hiei, "para me tornar invencível!"

"Sério?" Kuwabara zombou. "Você ainda não me derrotou!" uma barreira brilhou a sua volta, enquanto ele se armava com os melhores escudos mentais que dominava. Sua espada espiritual apareceu em sua mão.

"Hmph," Ushiiko bufou. "Você eu posso derrotar de mãos nuas." ela assumiu uma pose de luta, zombando de Kuwabara.

"Todo mundo!" Yusuke gritou, atacando novamente. "Ataquem! Agora não é hora de disputas mano-a-mano!" ele abaixou-se sob os balanços erráticos de Kuwabara, lançando mais alguns socos. Rindo, Ushiiko desviou-se de todosl.

"Certo!" Kurama olhou em redor, procurando por algo... ah! Havia uma hera saindo do lado de um dos prédios. Não tinha certeza se tinha energia bastante para isso, mas ele se concentrou de qualquer maneira. Em alguns instantes, a hera explodiu na direção da. "Afastem-se!" ele gritou para Yusuke e Kuwabara.

"Hum?" Ushiiko voltou-se na hora de ser pega pelo aperto da hera. Yusuke pulou fora do caminho, mas Kuwabara não teve tanta sorte. Em instantes, ele estava tão preso quanto Ushiiko.

"Apresse-se, Yusuke," Kurama engasgou, caindo de joelhos novamente. "Não posso fazer mais nada."

Yusuke plantou-se firmemente em frente da gaki. Apontou o dedo na cara dela.

"Tolo," Ushiiko riu. "Esse pequeno ataque não pode me ferir."

"Talvez não," Kuwabara disse, finalmente conseguindo sair da hera. "Mas e se nós dois atacarmos você ao mesmo tempo?" ele sorriu malignamente, enquanto impulsionava sua espada espiritual adiante.

Simultaneamente, Yusuke gritou "REI GUN!", e um raio de energia azul bateu no rosto dela.

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p>Quando a fumaça amainou-se, uma pilha de hera morta espalhava-se pelo chão do beco. Em cima da pilha, Ushiiko estava deitada, quase morta.

Yusuke inclinou para trás, contra a parede, soltando um suspiro de alívio. "Peguei ela," murmurrou.

"O que aconteceu com o anão?" Kuwabara perguntou. "Percebi que ele foi derrotado com algumas pancadas também."

"Hiei?" Kurama olhou em volta, de repente perguntando-se a mesma coisa. O que acontecera com Hiei? Finalmente, após alguns momentos, ele finalmente notou o pequeno koorime. Ele estava num canto escuro do beco, quase invisível nas sombras. Kurama se pôs de pé mais uma vez, e foi vacilando até ele. "Hiei? Por que não atacou?"

Hiei estava enroscado no canto, olhando inexpressivamente para todos. Sua mão cerrava-se sobre o peito, exatamente aonde Kurama vira o jovem usando a tira de couro com uma pérola de gelo.

Kurama esticou a mão e tocou no seu ombro. "Hiei?"

De repnte os olhos de Hiei entraram em foco. Ele assustou-se, deu uma olhada em Kurama, e desapareceu em pleno ar.

"O que foi isso tudo?" Kuwabara perguntou-se, coçando a cabeça.

Kurama inclinou-se e apanhou uma pérola negra lisa esquecida no concreto.

"Uma jóia de lágrima koorime?" Yusuke meditou.

Kurama colocou-a no bolso, franzindo o cenho.

Botan chegou logo depois, para escoltar Ushiiko para um lugar especial para criminosos no mundo espiritual. Mas enquanto ela removia a youkai inconsciente, ela sentiu que algo estava incomodando Yusuke. "O que é, Yusuke-chan?" ela quis saber. Yusukefraziu o cenho, e então exigiu ver Koenma para negociar os termos do acordo deles. Após um momento inicial de surpresa, Botan concordou em escoltá-lo até o mundo espiritual. Yusuke agarrou-se no remo voador de Botan, e num instante eles se foram.

De início Koenma recusou-se a negociar. Afinal de contas, Yusuke e seus amigos haviam se tornado uma das maiores propriedades de Koenma para enfrentar os crimes espirituais. Além disso, tinha sido justo, não? Não tinha dado todo tipo de ajuda a Yusuke? Não tinha forçado Yusuke até que o garoto fosse cinqüenta vezes mais poderoso do que seria do contrário? Meu Deus, ele não havia ressuscitado Yusuke pra começar?

Infelizmente, Yusuke não parecia mais ver as coisas desse modo. De fato, ante a primeira recusa de Koenma, Yusuke marchou adiante e quebrou a televisão. Sem mais Missão Impossível! Koenma não gostou. Mas finalmente, após algumas regateações intensas e pertubadoras, Yusuke ganhou o direito de não aceitar missões. Para recuperar a televisão, Koenma decidiu enviar Botan para pegar a de Yusuke. Era justo, afinal de contas.

Koenma suspirou e pensou em todos os novos papéis que esse novo acordo iria exigir. Estar a frente do Mundo Espiritual com certeza não era brincadeira!

Kurama não esteve tão preocupado desde que sua mãe esteve doente. Ele ficou atrás de Hiei nas docas, onde finalmente o achara, observando os navios saindo do porto. A brisa fria do oceano ondulava o cabelo de Kurama. Ele ficou parado ali por meia hora. Hiei não falara um só palavra com ele. Simplesmente ficara ali, como uma pequena estátua de si próprio, olhando friamente no espaço e ignorando o mundo.

Enfim, Kurama não conseguiu mais agüentar. Gentilmente, ele tocou o ombro de Hiei, esperando por algum tipo de resposta - qualquer tipo. "Hiei?" nem mesmo uma hesitação. "Hiei, se precisa conversar..."

Uma voz baixa, tensa finalmente respondeu. "Nada aconteceu."

Kurama balançou a cabeça. "Negar não vai ajudar-"

"Nada aconteceu." a voz baixa cortou as palavras de Kurama, impedindo qualquer discussão.

Não importava o que tentasse, Kurama não conseguia mais resposta de seu amigo. Enfim, ele desistiu e simplesmente sentou-se ali, silenciosamente oferecendo qualquer apoio que fosse aceito. No primeiro instante em que desviou o olhar, Hiei desapareceu.

Traduzido por Rechan // Título Original: A Far Country - Minotaur in Labyrinth


xx março 2004
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