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Um País Distante
porAmanjaku

Capítulo 2 - Na Trilha do Curinga

Passo. Passo. Para um lado. Para o outro. As tábuas de madeira do templo de Genkai chiavam enquanto um par de pés caminhava pelo chão, de um lado parao outro novamente. O aposento era esparsamente mobiliado com uma televisão num canto e uma mesa de madeira baixa em outro. O aroma claro e confortante de incenso e mirra avançava pelo ar vindo de diferentes palitos de incenso queimando, mas o odor não fazia nada para acalmar o coração daquele que ocupava o quarto.

"Continue assim, e vai furar o chão," uma voz irônica comentou na porta.

Kurama espantou-se, então corando - coincidentenmente, combinando com o cabelo da pequena velha senhora que estava observando-o com um brilho divertido nos olhos.

"Então," Genkai disse. "O que o traz aqui? Parece preocupado."

"Eu estou," Kurama admitiu.

"Bem, vamos para a cozinha. Farei um pouco de chá e você pode me contar sobre isso."

Alguns minutos depois, Kurama e Genkai sentaram-se um de frente ao outro, numa mesa baixa no estilo japonês. Dois copos de chá estavam de frente a eles, junto com um prato de biscoitos. Genkai deu uma bebericada no chá, suspirou, e voltou sua total atenção para o garoto à sua frente. "Tudo bem. Qual é o problema?"

Kurama cruzou as mãos e descansou a cabeça nelas. "É Hiei."

Genkai esperou pacientemente que ele continuasse.

"Semana passada, houve um tipo de... contratempo. Talvez você tenha ouvido falar de uma youkai que fugiu da prisão no Mundo Espiritual?" Genkai assentiu. "De qualquer forma, nós fomos enviados para recapturá-la. Bem, acabamos descobrindo que era uma gaki empática. Ela era mesmo forte. Quase não conseguimos."

"Acho que entendo aonde quer chegar," Genkai comentou. "Ela estava brincando com os sentimentos de alguém, certo?"

Foi a vez de Kurama assentir. "Quase de todos, na verdade. Mas atingiu mais Hiei, porque ele não está muito acostumado em lidar com as emoções." ele removeu a jóia de lágrima negra e posicionou-a na luz do sol. A pérola refletiu muito pouco da luz, como se nada pudesse tocá-la. "Pelo menos, não o tipo de emoções que a gaki lhe mostrou."

"Hummm. Não é de se surpreender, se parar para pensar," Genkai comentou. "O garoto é uma ferida ambulante, e se recusa a admitir isso. Era apenas uma questão de tempo que algo o atingisse. Então, como estão as coisas agora?"

"Não tenho certeza," Kurama admitiu, girando sua xícara entre as mãos. "Ele não vai falar comigo. Na verdade, está evitando todo mundo. As poucas vezes que consegui achá-lo, ele me ignorou completamente. É como se eu não estivesse lá. Ninguém mais conseguiu chegar perto dele."

"Talvez ele só precise de algum tempo para si, para pensar. Já pensou nisso?"

Kurama assentiu. "Claro. Mas ele nunca... O que está me preocupando é que ele está se fechando de novo, pior do que antes. Eu estava tão perto de fazê-lo superar isso, e agora..." Kurama ergueu os olhos da xícara. "Se algo não for feito logo, não haverá chance nenhuma."

"Por que se importa tanto?" Genkai perguntou. "Se Hiei não quer companhia, por que força o assunto?"

"Eu..." os olhos de Kurama desfocaram-se enquanto ele procurava pelas palavras. "Eu não sei," finalmente admitiu. "Só sei que preciso." escondeu sua incerteza bebericando o chá.

"Então o que se propõe a fazer?"

"Bem..." Kurama cerrou a pérola na mão. "Dei uma boa olhada nas lembranças que o machucaram. E posso dizer que alguns assuntos têm que ser resolvidos, de um jeito ou de outro. Acho que para solucionar o problema, temos que voltar a fonte. Vai me ajudar?"

Várias horas depois Kurama estava caminhando por uma trilha numa reserva silvestre fora de Tokyo. O sol estava abaixando no horizonte, e ele teria que pegar o trem de volta logo. Afinal de contas, havia escola amanhã, e trabalho de casa para terminar esta noite. Mas por agora, ele continuou a busca.

Ele sabia que Hiei estavaem algum lugar próximo. Podia sentir a energia sombria do koorime fervendo calmamente, tentando esconder-se. Mas trabalhavam juntos há tanto tempo, que passaram a conhecer a energia um do outro muito bem. Com certeza Hiei sabia que Kurama estava ali também, procurando por ele. A questão era, ele se permitiria ser achado?

De algum modo, esse lugar lembrava Kurama de seu lar no Makai. As árvores eram assim, densas, se bem que não tão altas. Às vezes sobrepunham-se entrelaçavam-se, como que lutando sob a luz do sol. A maioria das folhas já havia caído, deixando o céu cinzento visível através dos galhos estendidos. Aqui e ali uma alta sempre-verde protestava pela chegada do inverno. Talvez esta floresta não se sentisse tão velha quanto as do Makai, mas certamente sentia-se lúgrube.

Continuando pelo caminho, Kurama concentrou-se em tentar determinar de que direção a energia de Hiei vinha. Quase conseguia vê-lo em sua mente - um pequeno vórtex negro no meio de uma turva tapeçaria de luz que era a floresta. O vórtex estava em nenhum lugar próximo à trilha. Destemido, Kurama mudou de direção, para dentro das árvores fechadas.

O som de água corrente tornou-se audível enquanto Kurama chegou mais perto de seu alvo. Ele relembrou daquilo como um pequeno rio que corria pela seção oeste da preserva, e sorriu. Estando ali frequentemente, Kurama conhecia a maior parte do território. Suspeitava que sabia exatamente aonde Hiei estava.

Estava certo.

O rio dava uma curva um pouco acima, e corria sob um grupo de árvores que esticavam seus largos galhos por sobre a água borbulhante. Cipós longos e faixas de grama tombavam sobre o aterro do rio. Musgo crescia em grandes rochas que delimitavam a margem. De modo geral, era o tipo de lugar perfeito para se sentar e pensar.

Hiei estavawas empoleirado próximo a ponta de um fino galho sobre o rio, observando fixo a correnteza. Seu casaco agitava-se em outro galho, onde ele aparentemente o descartara. Kurama passou pelo casaco, até a margem do aterro, e ficou parado, esperando para ver se seria notado.

Cinco minutos se passaram. Hiei nunca ergueu os olhos.

Kurama pigarreou. Sem resposta. "Hiei?" Kurama aventurou-se. Havia apenas o som de água corrente e roupa agitando-se ao vento. Finalmente, Kurama não conseguiu agüentar mais. Saltou na árvore e dirigiu-se ao galho de Hiei. Ele rancheu ante o peso extra. "Hiei, temos que conversar. É importante. Temos outro serviço." Após alguns segundos a mais de silêncio, Kurama continuou. "Na verdade, até agora só eu vou, porque Yusuke não quis ir e Koenma quis que Kuwabara ficasse e estudasse para as provas. De qualquer forma, existe uma estátua especial que devo pegar de volta para o mundo Espiritual. É muito poderosa, e foi roubada por alguns ladrões. Koenma acha que foi uma dupla de Karau, e que fugiram para a parte nordeste do Makai. Mas nunca estive tão ao norte antes, e não sei andar por lá. Já que é seu território natal, esperava que me ajudasse."

Hiei suspirou e voltou seu olhar por sobre o horizonte. Ainda não dera nenhum sinal de que ao menos soubesse que Kurama estava ali.

"Olhe, estou indo, com você ou não. Genkai já me prometeu abrir um portal para mim amanhã à noite no templo." Kurama balançou a cabeça. "É território selvagem, e preferiria não ir sozinho, mas irei se precisar."

"Você é um idiota," Hiei disse suavemente, neutro.

Kurama soltou um suspiro de alívio. Reconhecimente, enfim! "Virá comigo?"

Houveram alguns momentos de silêncio. Um corvo grasnou e voou. Finalmente, veio a resposta mal audível. "Irei pensar."

As sombras do fim de tarde esticaram-se por sobre o telhado do templo. Kurama sentou-se na varanda, calmamente apreciando a vista da montanha. Um bando de pombos causou confusão no pátio à sua frente. Ele sorriu e atirou-lhes um outro punhado de migalhas de pão. Eles eram divertidos de se assistir, todos balançando-se com as cabeças subindo e descendo e saltitando um sobre os outros. Se ao menos o mundo pudesse sempre ser desse modo, pensou.

O piso rangeu atrás de Kurama, e uma sombra curta caiu sobre ele. "Algum sinal dele?" Genkai perguntou.

"Ainda não," Kurama balançou a cabeça.

"Vejo que já descobriu os mascotes de Yukina," Genkai comentou com um sorriso irônico.

"Quais, os pombos?"

Genkai asquiesceu enquanto agachava-se ao lado do rapaz ruivo. "Ela os alimenta desde que começou a ficar aqui. Fico dizendo a ela que se não tiver cuidado, acabará atraindo os pombos daqui até Tokyo. Ela apenas ri e diz que seria maravilhoso." ela bufou e balançou a cabeça. "Koorime."

Kurama riu. "Sabe o que consegue se ficar alimentando pombos? Pombos gordos." ele atirou o último punhado de migalhas e limpou as mãos. "Espero que esses fiquem bem gordos. Detesto pensar que Yukina vai voltar ao Makai a qualquer hora."

"Hmph. É assim que deve ser," Genkai disse abrupta, cortando o assunto. "O que pretende fazer se aquele teimoso lhe der o bolo e não aparecer?"

Kurama deu de ombros. "Eu não sei. Pensarei em outra coisa, porém. Talvez Koenma queira me ajudar. Ou talvez eu possa achar outro meio de passar pela barreira dentro do Makai. Entendo que alguns tipos de mágica gaijin possam ser úteis para isso. Não sei. Mas de um jeito ou de outro, vou levar Hiei para casa."

A pequena senhora bufou. "É um plano tremendamente tolo, se quer saber. Mas, boa sorte. Vai precisar." ela voltou-se na direção da entrada do templo. "Tenho algumas preparações de último minuto a fazer, assim estarei no dojo quando precisar." com isso, ela se foi.

Kurama observou-a desaparecer dentro do templo e balançou a cabeça. Genkai estava certa, ele sabia. Ele estava pronto para pisar em terreno perigoso. Um passo em falso acabaria com o plano. De fato, tudo já poderia ter terminado. Até onde Kurama soubesse, Hiei poderia ter estado escondido numa árvore próxima e escutado toda a conversa com Genkai. Não seria uma graça? Mas, não. O youki de Hiei não estava próximo dali. Kurama soltou um suspiro de alívio. Por enquanto o plano estava a salvo.

A sombras haviam se esgueirado mais alguns milímetros sobre a varanda quanfo Kurama juntou-se a uma delicada garota carregando uma vassoura. Ela sorriu para ele, e começou a varrer metodicamente as folhas mortas que se estabeleceram no pátio. "Yukina." Kurama cumprimentou-a.

"Boa tarde, Kurama-san," ela disse educadamente. "Está um belo dia, não?"

Kurama assentiu. "Sim, apesar de estar um pouco frio."

"Ah. Não tinha notado. É por isso que você está todo agasalhado?"

"Não, não é por isso," Kurama pôs de pé e limpou as migalhas de pão de suas calças. "Estou para ir a um lugar mais frio do que aqui, assim que Hiei chegue."

"Ah." a curisidade queimou no seu rosto, mas desviou o olhar e se absteve de perguntar.

Kurama teve pena dela. "A Mestra Genkai vai fazer um portal para nós, assim poderemos ir ao Makai."

Yukina olhou para ele em dúvida. "Makai? Mas... por que vocês simplesmente não vão? Por que precisam da Mestra Genkai?"

"Acho que você não sabe, já que é só de classe B. Mas depois do Torneio das Trevas, os deuses colocaram uma barreira entre o Makai e o Mundo Humano, para evitar que os youkai classe A ou mais fortes passasem entre os dois mundos. Isso foi feito para proteger os humanos, mas para aqueles que já estavam no Mundo Humano, significa que estamos presos aqui. Só podemos atravessar coma a ajuda de alguém que seja mestre de."

"Ah," Yukina disse novamente. Ela parou de varrer e corou. "Hum... você... você está indo ao Makai nordeste?"

Kurama Sentiu o roçar de youki negro à margem de seus sentidos. Ele sorriu consigo mesmo em alívio enquanto respondia. "Sim, é exatamente para onde estamos indo."

"Então..." a garota desviou o olhar. "Poderia... isto é eu poderia... Ainda estou procurando por meu irmão, entende, e... posso ir com vocês? Acho que ele deve estar lá, em algum lugar, porque onde mais estaria?"

Onde mais, de fato? Kurama pensou, reparando o youki sombrio que ainda flutuava a vários metros adiante. Para Yukina, ele disse gentilmente, " Não acho que seria uma boa idéia, Yukina-chan. É muito perigoso para onde estamos indo." e não é só para você. "Tenho certeza que encontrará seu irmão. Ele pode estar mais próximo do que imagina."

A garota koorime suspirou desapontada. "Eu sei. É que já o procuro há tanto tempo. E, mesmo a Mestra Genkai sendo tão gentil, não posso ficar para sempre. Qualquer dia desses, terei que sair e começar a procurar de novo."

Kurama não conseguiu reprimir um relampejo de raiva contra Hiei. Tentando não mostrar, ele disse, " Não desista ainda, Yukina. Espere um pouco mais. Quem sabe o pode acontecer? Talvez ele esteja procurando por você também."

Yukina iluminou-se. "Acha mesmo?" Então seu rosto entristeceu-se. "MAs... como ele saberá que deve me procurar no Mundo Humano? Hum... Kurama-san, se por acaso vir meu irmão no Makai, poderia por favor dizer-lhe onde estou?"

"Claro," Kurama prometeu. "Como irei reconhecê-lo, se o encontrar?"

"Ele é uma Criança Proibida," Yukina disse. "Você saberá." ela suspirou. "Quando encontrei Hiei-san pela primeira vez, pensei que talvez ele fosse meu irmão. Mas ele nunca disse nada, então acho que não é ele."

"Se eu vir seu irmão, direi a ele o que fazer," Kurama prometeu com um franzir de cenho zangado.

Yukina curou-se profundamente. "Muito obrigada, Kurama-san." ela agarrou a vassoura com ambas as mãos. "Eu... acho que é melhor voltar para dentro e começar o jantar. Boa sorte na viagem!" ainda agarrando o cabo da vassoura, ela voltou ao templo.

Quando ela se foi, Kurama ouviu botas caindo sobre a calçada, e sentiu youki aproximando-se dele por trás. Sem olhar em volta, ele disse, "Suponho que seria muito problemático demais contar a ela que é você quem ela procura."

"Cuide de seus assuntos," Hiei retorquiu friamente enquanto passou por Kurama na direção do templo.

"Não acha que é um pouco cruel mante-la esperando deste jeito?" Kurama perguntou, seguindo-o. "Estou muito tentado a contar-lhe, eu mesmo."

Hiei voltou-se para ele. "Ela não precisa ser associada com alguém como eu. É melhor para ela, deste modo. Então, se você contar-lhe, raposa, matarei você."

Kurama suspirou e desistiu por um instante. "Tudo bem, então. Mas ainda acho que é cruel e ela poderia se meter numa grande encrenca."

Hiei deu de costas e caminhou para o templo. Após um instante, Kurama o seguiu.

Da direção do dojo, o múrmurio de um canto baixo quebrou o silêncio.

Eles saíram do portal no meio de um vasto campo gelado, quebrado apenas por um pequeno rio fluindo bem a esquerda deles. Kurama olhou em volta, a respiração gentilmente fumegando a frente de seu rosto. "Acho que estamos certos. Esse parece ser o lugar certo." ele vltou-se para encarar o norte. "Suponho que devamos começar a procurar por pistas, ou por alguém que possa ter visto os ladrões."

"Hn." a neve já estava começando a derreter-se em volta de Hiei. Com um bufar irritado, o pequeno demônio de fogo saiu da lama de neve derretida e começou a ir na direção que Kurama indicara.

Várias horas silenciosas depois, eles se encontraram finalmente alcançando o fim do campo. Até então, não haviam encontrado nenhuma pegada a não ser as próprias. A luz dourada do sol fustigou sobre seus ombros debaixo do horizonte, destacando os penhascos logo a frente.

Kurama apontou para eles. "Deve haver acampamentos lá em cima."

Hiei balançou a cabeça.

"Não? Mas é o lugar perfeito," Kurama argumentou. "Estes penhascos são um bom abrigo."

"E são... para os monstros que vivem nas cavernas dentro dos penhascos." Hiei olhou em torno, protegendo os olhos. "Devemos encontrar um abrigo logo, porém. A noite está chegando."

"Cavernas?" Kurama meditou. "Talvez possamos achar um canto lá dentro, só para a noite. Preferiria estar lá dentro do que aqui, ao relento."

Hiei franziu o cenho. "É muito perigoso-" começou.

"Alguns de nós não são a prova de frio," Kurama lembrou-lhe. "E além disso, o vento está aumentando. Não quero acordar como um cadáver congelado."

"Que seja," Hiei deu de ombros. Desembainhou a katana e começou a dirigir-se para as cavernas.

Kurama trotou atrás dele, rindo. "Está planejando andar pela caverna deste jeito? Seu braço vai ficar cansado daqui a pouco."

Crunch. Crunch. Pés em botas pretas caminhavam pela neve. Kurama deu de ombros. "Tudo bem, então. Como quiser."

Alcançaram a caverna em pouco tempo. O buraco estava perto do penhasco, sob um peitoril rochoso coroado de neve. Kurama pôs a mão no cabelo e tirou uma longa semente amarela, e num instante estava segurando uma planta longa que parecia com um narciso bem grande. No centro da flor amarela, uma luz amarela brilhante brilhou calorosamente. Pisando na caverna com a lanterna assim criada, Kurama esgasgou em espanto.

O raio da flor brilhante revelou um amplo espaço. O teto esticava-se por algumas centenas de metros sobre eles, e estava salpicado com formações de cristal como bola de neve. Aquilo se esticava em caminhos regulares até as paredes, mas mais próximos ao chão, as linhas de minério cintilavam entre as camadas de rocha comum. Aqui e ali, estalactites e estalagmites saíam da rocha como remanescentes dos dentes de uma velha. O chão era uma série irregular de degraus, fendas e cascalho. A escuridão pairava fora do raio da flor, uma presença esmagadora e quase palpável. Não havia som; apenas o silêncio mortal.

Os passos deles ecoavam pelas cavernas quando entraram.

Apesar da piada anterior, Kurama estava mesmo contente que Hiei tivesse de espada em punho. Estavam entrando num território perigoso, se alguma daquelas lendas que Kurama ouvira era verdade. Agora que pensava nisso, lembrou-se de ouvir histórias sobre uma grande rede de cavernas na região nordeste do Makai. Supostamente, ela se prolongavam pela fronteira nordeste, interligando os penhascos que definiam o território koorime. Histórias estranhas falavam de aranhas gigantes sugadoras de sangue, fungos venenosos e coisas ainda piores habitando aquelas cavernas. Kurama achou certo conforto em saber que pelo menos iam pela direção correta. Se escutara bem, então em algum lugar além destas cavernas estava a fictícia cidade flutuante das koorime.

Claro, Hiei estava certo; as cavernas eram lugares perigosos. Elas se tornavam abrigos terrivelmente convenientes, assim coisas tendiam a viver nelas. Se havia um aposento, aquelas eram coisas muito grandes. Kurama deu uma olhada em redor nervosamente. Pelo que conseguia ver, este era um sistema de cavernas muito grande.

Caminharam por alguns minutos, pisando o mais silenciosamente que podiam. Melhor não criar nenhum eco, se possível. A luz da flor era péssima, mesmo que seu brilho evitasse que tropeçassem em alguma fissura. De repente, Hiei parou bem a sua frente. Kurama parou também. O que era aquele barulho? Algo logo a frente estava... rosnando. Cuidadosamente, Kurama apontou o narciso para escuridão a frente.

Dois olhos cintilaram de volta.

A coisa rugiu e partiu para cima deles. Uma imensa massa de pelo branco e garras arranhou as pedras de gelo, dirigindo-se para a fonte de luz que a cegava. "Kurama!" Hiei gritou enquanto o kitsune saltou para fora do caminho.

Um segundo depois, o monstro desgrenhado estava sem todos os quatro membros. Hiei parou sobre suas costas, dando o golpe final.

Kurama inclinou-se para direita, brilhando a luz atrás da pilha sangrenta. O pelo daquele monstro parecia tão suave e felpudo. Se ele estivesse certo - "Hiei! Atrás de você!!"

A mãe da criatura golpeou o pequeno koorime. Uma imensa pata, quase do tamanho de Hiei, varreou-o das costas do filhote e enviou-o voando para a parede distante. A espada deslizou da sua mão e aterrissou com um ruído em algum lugar na escuridão.

"Hiei!" Kurama gritou. Puxando uma rosa de seu cabelo, ele pulou na frente da Mamãe Monstro. "ROSE WHIP!!" a flor transformou-se numa arma mortal e Kurama chicoteou com ela. A haste espinhenta enrolou-se em volta dela. Com toda força, Kurama puxou com força o chicote para fazer os espinhos cravarem-se mais fundo.

Ela não parecu n

otar. Com uivo raivoso, o monstro atacou Kurama novamente, arrancando o chicote das mãos dele. "O pelo!" ele engasgou enquanto pulava fora do caminho. "É tão grosso, deve ter protegido-a dos espinhos!" Desperadamente, ele iluminou os olhos do monstro novamente quando ela voltou-se para fazer outro ataque. Ela berrou. Uma procura rápida em seu bolso por uma semente e num instante Kurama estava segurando um longo bambu afiado. Segurou-o como a uma lança quando o ataque veio.

O monstro rugiu de dor quando a lança atravessou seu ombro. Ela se pôs de pé, levantando as mãos e caiu de novo no chão, perdendo Kurama por pouco. Novamente ela voltou-se para encará-lo, dentes a mostra. Atacou novamente, e desta vez Kurama mandou um feixe de grama, afiados como adagas, mirando os olhos. Eles atingiram, mas novamente, o monstro não pareceu prestar muita atenção neles. O que mata essa coisa? Kurama pensou enquanto desviava de novo.

A resposta veio de sua direita. "ENSATSU KOKURYUUHAAAA!!" um dragão feito puramente de fogo negro veio rasgando a caverna na direção do monstro. As estalactites despedaçaram-se, chovendo escombros pelo chão. Quando o dragão colidiu com o monstro, Kurama cheirou pelo queimado, e então carne queimada. O monstro foi carregado pela caverna nas mandíbulas arreganhadas do dragão, e colidiu nas paredes rochosas. A caverna retumbou e mais escombros cairam, enquanto o dragão empurrou o monstro através da parede. Um berro zangado marcou a morte da criatura. E então... então havia apenas o dragão. Ele rugiu e girou para direção de Kurama, indo direto para ele. Pouco antes de alcançá-lo, ele sacudiu como se algo o tivesse segurado e mudou de direção. Um instante depois, o dragão desapareceu num dissipar de fogo negro, rodeando Hiei.

"Hiei," Kurama arfou, e trotou até seu amigo.

O koorime estava com seu braço estendido, os pés unidos contra a rajada. As bandagens que normalmente mantinha em volta do braço direito tinham se queimado, revelando uma tatuagem de serpente negra rastejando pelo braço.

"Você está bem?" Kurama perguntou a ele.

"Hn." Hiei voltou-se. Ele tropeçou levemente enquanto movia-se para encontrar sua espada.

Kurama o seguiu. "Aquilo não foi um pouco perigoso? Toda caverna poderia ter desabado sobre nós."

"Certo," Hiei replicou com a voz tensa. "Da próxima vez, deixo você morrer."

Kurama suspirou. "Tudo bem, escute. Eu sei que o Kokuryuuha consome muito de você. Por que não encontramos o covil daquela coisa e acampamos? Já que nada mais está nos atacando, aposto que não tem nada para habitá-lo agora."

Não houve resposta, enquanto Hiei encontrava e embainhava a espada.

"Hiei?"

Finalmente veio uma resposta, baixa e tensa. "Que seja."

Um pequeno fogo crepitou na pequena caverna. Esta caverna ramificava-se da principal, e como Kurama descobrira, o covil estava desabitado. Uma vez que eles limparam os ossos, tornou-se um lugar aconchegante para acampar. Uma pilha de lenha agora estava no lugar dos ossos, graças a Kurama. Hiei estava muito cansado para argumentar quando o kitsune começou o fogo.

Agora Kurama sentava-se acochegado próximo às chamas quentes. Calmamente ele observava seu amigo, que estava dormindo pelo efeito do Kokuryuuha. Não brincara a respeito de gastar muita energia. O Kokuryuuha era uma técnica proibida, por um bom motivo. Para ativá-lo, o usuário tinha que invocar um dragão de energia, usando seu próprio youki como isca. Então tinha que conseguir controle mental daquele dragão, para direcionar o movimento e evitar que ele incinerasse tudo que quissese. Mais de um youkai morrera no passado, tentando dominar a técnica. Muitos mais morreram pelo capricho de um Kokuryuuha descontrolado, até que a técnica foi finalmente banida. Hiei era a única pessoa que ignorara o banimento e conseguira dominá-lo.

Kurama se perguntou brevemente por que a caverna não se arrebentara sobre suas cabeças mais cedo. A única pista era que o dragão que Hiei mandara atrás do monstro parecia menor que o normal. Além disso, houvera apenas um dragão, ao invés de três. Era possível que Hiei houvesse conseguido o verdadeiro controle sobre o nível de poder do Kokuryuuha, agora? E por que ele não desmaiara imediatamente após liberar o dragão? Kurama resolveu perguntar-lhe quando acordasse.

Em todos os seus quatrocentos anos, Kurama nunca encontrara ninguém como Hiei antes. Com um sorriso gentil e respeitou o pequeno koorime, estendido exausto, ao lado do fogo. Tanto espírito para guardar dentro de um corpo tão pequeno! pensou.

Hiei mexeu-se e murmurrou algo no sono. Kurama franziu o cenho. Hiei nunca falara dormindo.

O céu estava prateado. Não estava? O que eram aqueles pequenos grãos de luz que cintilavam na frente de seus olhos? Ele piscou, mas não se foram. Em vez disso, um desceu e caiu no seu nariz. Espirrou e ele saiu novamente, flutuou um instante, e zuniu. Ah, eram vagalumes. Pestinhas irritantes.

Espere um instante. Por que diabos ele estava deitado no chão? Correndo uma mão por seu cabelo preto espetado, ele sentou-se e olhou em redor. Parecia estar deitado no banco de um lago congelado. A luz refletida era o que tinha emprestado ao céu seu brilho prateado. Não havia neve. Mas haviam vagalumes, dançando em padrões engraçados sobre o lago. Muito estranho.

Ele caminhou pela margem do lago e baixou os olhos, esperando ver seu reflexo. Em vez disso, decobriu que a surperfície do lado não de gelo, mas de vidro, e que podia ver através dele, até as profundezas. Havia pequenos peixes nadando ao redor em cardumes e peixes maiores ondulando em volta numa atitude predatória. Plantas brilhantes ondulavam com as correntes. Os vagalumes voavam entre eles.

Hum? Ele ergueu os olhos, mas os insetos não estavam mais flutuando sobre o lago. Mas o quê-? Olhou novamente para baixo. Os vagalumes ainda estavam lá embaixo, e agora podia ver que estavam dançando ao redor das torres de uma bela cidade submersa. Era a visão mais impressionante que já tivera. De algum modo, sabia que se pudesse chegar naquela cidade, tudo ficaria bem. As pessoas que viviam ali fariam toda dor, toda solidão, ir embora. Era o lugar mais bonito no universo.

Hesitante, ele esticou a mão para lá embaixo. Ousaria? Eles aceitariam uma pessoa como ele na cidade? Com uma mão trêmula, tocou a superfície do lago.

De repente, descobriu-se submerso. Aconteceu tão rápido, devia ter caído. Bem, não importava. Se pudesse chegar à cidade no fundo do lago... Ele mergulhou mais fundo, procurando pelos vagalumes. Eles iluminariam o caminho, não? Claro que iriam. Vagalumes. Eles tinham que estar em algum lugar por aqui, e... e...

Nada. Nao havia nada aqui a não ser peixe, peixe e plantas e e ele próprio. A cidade se fora e ele estava rapidamente ficando sem ar. Claro. Era bom demais para ser verdade, repreendeu-se. Esperar as coisas não era bom. Nunca foi bom. Nadou de volta à superfície, desprezando sua fraqueza.

Uma luz brilhante cintilou acima da superfície do lago. A cidade não se fora! Estava lá em cima, flutuando acima do lago! A esperança cintilou no seu coração novamente, mesmo se dizendo que era estupidez. Mas não conseguia evitar. Desperadamente, ele nadou para a superfície, enquanto seus pulmões começaram a reclamar por ar. Para cima, para cima, para cima... nadando mais rápido, mais ansioso, os pulmões começando a queimar, está quase dentro do alcance...

THUD. Ele atingiu a superfície do lago - literalmente. Era vidro, como antes, e ele não conseguia quebrar para conseguir ar. A cidade flutuava sobre ele, simplesmente fora de alcance. NÃO! Não era justo!!

Furioso, desesperadamente ele golpeou o vidro, seus pulmões gritavam por oxigênio. Nada bom, não estava funcionando, mesmo quando colocava toda sua força nisso. Há tempo apenas tempo suficiente para uma última tentativa. Melhor fazer valer a pena. A água começou a ferver ao redor de seu braço direito enquanto ele o apontava para o vidro congelado. A escuridão enrodilou-se pelo braço e condensou-se num ameaçador dragão negro, enquanto ele o invocava... ENSATSU KOKURYUUHAAAAAAAAAAAA!!!! O dragão saiu na direção do vidro...

...e espatifou-se em pequenas fagulhas negras.

O vidro ainda estava ali.

Seu peito parecia como se fosse explodir enquanto seu corpo tentava reflexivamente respirar e encontrou apenas água. Sua visão estreitou-se num pequeno túnel que ficou mais e mais menor. Amargamente, ele xingou a brilhante cidade acima dele, antes que a escuridão finalmente o tomasse e ele derivasse entre a sujeira do lago.

"Hiei!" Kurama choacoalhou o amigo pelo ombro, tentando evitar as pequenas línguas de fogo que lambiam os braços do koorime. "Acorde!"

Hiei sentou de um salto, arfando. Seu punho dirigiu-se para Kurama, que o evitou por pouco. "Ei!" Kurama exclamou. "Sou eu!"

"Isso... isso foi estúpido," Hiei arfou. "Sabe que é melhor não me acordar deste jeito!"

"Desculpe," Kurama desculpou-se. "Mas você parecia que estava tendo um pesadelo." ele apontou para o osso que Hiei tinha usado como travesseiro. Metade dele estava em cinzas. "Quer conversar?"

Hiei corou, o primeiro sinal real de emoção que Kurama tinha visto nele ultimamente. "Não é nada da sua conta."

Kurama plantou-se na frente de Hiei. "É da minha conta, uma vez que estou dependendo de você para cuidar de mim por aqui. Você não pode fazer isso apropriadamente se estiver ferido. E além disso," acrescentou, mais gentilmente, "isso já foi longe demais."

"Ferido? Do que diabos está falando?" Hiei perguntou.

"Pare de negar, Hiei," Kurama o reprovou. "Fisicamente, você está bem... mas emocionalmente, você está sangrando."

"Não estou! Pare de tentar inventar suas fantasias."

Kurama esticou a mão e pegou Hiei pelos ombros. "Olhe, ambos sabemos que aquela youkai trouxe a tona algumas lembranças dolorosas para você uma semana atrás. Fugir delas e fingir que não sente nada não vai solucionar o problemas."

"Não sei do que está falando." Hiei teimosamente estudou o chão entre eles.

"Sim, você sabe." Kurama pôs um dedo sob o queixo de Hiei e levantou a cabeça dele para olhar diretamente dentro dos seus olhos. "Desista de tentar fingir que nada te incomoda. Não se esqueça, eu estava lá. Vi o que aconteceu. Você nunca recuou numa luta antes, pelo menos desde que te conheço. Hiei, esteve fugindo de seus sentimentos por muito tempo. Está na hora de parar e encará-los. Tem que por um fim ao seu passado."

Hiei saltou para fora do alcance de Kurama. "Então é sobre isso!" ele cuspiu. "Você não tem nada aqui - está só tentando me fazer voltar para a cidade koorime, não está, seu filho da mãe!? Bom, suma daqui! Não vou chegar mais perto daquilo! Elas não me querem, e eu não preciso deles!" Hiei voltou-se e começou a trilhar seus passos de volta pela caverna.

"Temia que dissesse isso," Kurama falou por detrás dele. "E é por isso que eu trouxe uma garantia."

Com suspeita, Hiei olhou por sobre o ombro. Kurama parado ao lado do fogo, segurando alguns grãos vermelhos.

"Tenho certeza de que já ouviu falar dos grãos sagrados, " Kurama contou-lhe. "E, tenho certeza e que sabe que elas são bem venenosas." com um movimento rápido, Kurama enguliu-as. "E, " Kurama acrescentou, "Eu não tenho o antídoto."

Hiei parou petrificado. "Você - seu IDIOTA!!! Para que DIABOS fez ISSO?!!!"

"O que acha?"

"Está querendo morrer?"

"Porque ALGUËM por aqui tem a cura." Kurama apontou pelas cavernas, na direção da cidade koorime.

Hiei olhou furioso para Kurama. "O que te faz pensar que eu simplesmente não te deixarei aqui?"

Kurama não disse nada, mas cruzou os braços e devolveu o olhar furioso de Hiei com um olhar calmo e firme.

Hiei ficou ali, tremendo de raiva - e talvez, com algo mais? "Seu maldito FILHO DA MÃE," resmungou. "ODEIO você."

Traduzido por Rechan // Título Original: A Far Country - On Joker's Path


xx março 2004
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