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Um País Distante
por Amanjaku

Capítulo 4 - A Música da Encruzilhada

Kurama acordou com um pressentimento estranho. Ele fixou o olhar na cabana por um instante, tentando se orientar. Onde estava? Levantou-se do futon sobre um cotovelo e olhou em torno. O luar brilhava fracamente entre uma pilha organizada de potes, panelas e chaleiras no canto oposto a ele. Isso mesmo, ele fizera aquilo ele mesmo, antes, não tinha, já que Koji não arrumara a bagunça? O cheiro forte de ervas vinha da lareira (orelha de bode, caudas de minhoca, trevos e menta, ele reconheceu inconscientemente). Misturado com o cheiro pungente das ervas havia o aroma forte e fumarento dos carvões que queimavam em brasa. Ainda estavam liberando calor. Kurama parou para se perguntar: Por que Koji, um koorime com youki baseado no frio, queria um fogo e uma lareira? Era só para cozinhar, ou ele realmente gostava do calor? Koji era mesmo um dos youkai mais estranhos que Kurama já encontrara e em quatrocentos anos, Kurama conhecera muitos youkai.

Um som abafado chamou a atenção de Kurama. Reconheceu como sendo o mesmo que o acordara, e olhou em volta. Seus olhos pousaram em Hiei, que se espreguiçara na frente da lareira como um gato para dormir. O jovem koorime estava se contorcendo e pequenas chamas negras rastejavam pelo seu braço direito. Kurama franziu o cenho. Esperava que Hiei não pussesse acidentalmente a casa em chamas. Talvez fosse melhr acordá-lo?

Subitamente, os instintos de Kurama lhe disseram para voltar a ficar debaixo das cobertas e fingir estar adormecido. Confiando nisso, aninhou-se no futon e observou Hiei com olhos semi-cerrados.

Foi bem na hora. Hiei de repente sentou-se como um raio, com um imenso arquejo e olhar de puro terror. Sentou-se ali por alguns instantes, engolindo ar e fitando o espaço. Em mais alguns minutos, ele recuperou o controle e olhou em torno para ver se alguém notara. Kurama ficou perfeitamente parado e concentrou-se em aparentar estar dormindo. Koji mexeu-se num canto, roncando suavemente. Aparentemente satisfeito de que não fora pego, Hiei pôs-se de pé e, calmo como um gato, saiu pela porta.

Kurama esperou por cerca de cinco minutos, então embrulhou-se no casaco e saiu atrás dele.

***

Ele encontrou Hiei um pouco mais acima da montanha, parado sobre uma rocha que emegia da neve e fitando o céu. As nuvens finalmente havia se ido e as estrelas faíscavam acima como bilhões de diamante num mar anil.

As botas de Kurama fizeram sons crocantes suaves através da neve, enquanto subia atrás do amigo. Quando alcançou a margem da rocha, deteve-se e fitou as estrelas também, soltando pequenas nuvens de vapor frio ar noturno. Ficaram parados daquele modo por alguns minutos.

Finalmente, Kurama quebrou o silêncio. "Belas, não são?"

"Hum."

"Sempre adorei olhar as estrelas. Elas me lembram de que a algo maior do eu, algo que continuará para sempre. Quando era mais jovem, e sentia saudades do Makai, costumava sair e olhar as estrelas. Era quase como se fitasse as estrelas daqui e se desejasse com força, elas iluminariam o caminho para mim."

"Como vagalumes..." Foi quase um sussurro, quase inaudível.

Kurama espantou-se. Era estranho Hiei ser tão poético. O silêncio estabeleceu-se por mais uns intantes. Então, Kurama perguntou, "Hiei...? Quem é Koji? Como o conhece?"

Quando Hiei não respondeu, Kurama decidiu deixar o assunto morrer. mas, para sua surpresa, Hiei finalmente respondeu numa voz baixa e hesitante. "A primeira coisa de que me lembro é estar sendo carregando por uma colina nevada por uma mulher. Era a primeira vez que estava do lado de fora e achava que tudo parecia muito brilhante e fascinante. Não tinha idéia de o mundo era tão grande."

"... Mas então... então paramos na borda da ilha e..."

Kurama assentiu, compreendendo. Graças a Ushiiko, ele vira o acontecera em seguida.

A voz de Hiei foi ficando menos relutante, mais firme, enquanto a história aumentava. "Não lembro muito dos dias seguintes, exceto que estava perdido e com muita foma. Não entendia o que acontecera, então vagava por aí, procurando um caminho lá para cima. Não havia nenhum, então ficava andando. Acho que lembro de pegar insetos nas árvores e comê-los, porque era a única coisa que conseguia achar e apanhar. Então, um dia, vi uma grande coluna de fumaça subindo os céus. Segui-a, e achei a casa de Koji."

"Ele o abrigou?"

"Por um tempo. Até que tivesse idade suficiente para partir para sempre."

"Então é por isso que ainda não o matou." Kurama sorriu.

"Ainda." a voz de Hiei enfatizou.

Kurama assentiu. Ele sabia o quanto Hiei odiava ser humilhado, mesmo se devesse a vida ao velho. Também estava surpreso e mais do que satisfeito, que Hiei tivesse se incomodado em lhe contar tudo isso.

"É um milagre não ter morrido na queda."

"Hum." Hiei deu de ombros. "Aterrissei num monte de neve fundo. Sorte, acho." Sua voz carregava um tom fracamente amargo. "De qualquer forma, voltaremos para o Mundo Humano amanhã. Volte lá para dentro e durma. É melhor estar pronto para viajar."

"Acho um desperdício vir até aqui e voltar agora," Kurama apontou.

Hiei voltou-se para Kurama com exasperação. "Você é idiota, ou não entendeu ainda? Ficar aqui é perigoso demais - para ambos. Elas o matarão também, por estar comigo."

'Não, eu entendo,' Kurama pensou. 'Entendo que o perigo real não é ir adiante, mas voltar. Se der as costas agora, nunca voltará aqui de novo, e seu passado vai destrui-lo de dentro para fora.' Em voz alta, ele disse, "Pense um pouco sobre isso. Talvez mude de idéia."

Hiei bufou. "Sem chances. Você é mesmo meio idiota."

Kurama riu suavemente. "Talvez. Volte comigo. Também precisa dormir."

Hiei deu de ombros. "Posso agüentar."

"Ah, não, não pode. Se não, terei que explicar a Genkai porque não cuidei de você."

Hiei lançou um olhar maligno para Kurama. "Não preciso de cuidados." Ele se plantou firmemente na rocha.

Kurama suspirou. "Certo, ótimo. Mas não me culpe se estiver caindo de sono amanhã." Ele se voltou e dirigiu-se para a cabana de Koji.

Dois minutos depois, ele voltava, parecendo preocupado. "Acabei de encontrar algumas pegadas novas que não são nossas. Estavam indo para a casa de Koji."

A cabeça de Hiei levantou-se depressa. "De quem?"

"Não sei. Mas achei que gostaria de um aviso."

"De que direção elas vêm?"

"Por ali," Kurama apontou para o crepúsculo púrpura. "Não consigo imaginar como passariam por nós sem que notássemos."

Hiei franziu o cenho profundamente. "É a direção da cidade. Tem alguém atrás de nós. Pode ser aquela mulher de novo."

"Koji pode estar em perigo?"

"Duvido," Hiei disse de forma zombeteira.. "Pense."

Kurama suspirou. "Bom, ainda assim temos que verificar. Sentiria-me mal se ele se ferisse por nossa culpa."

"Tanto faz." Hiei saltou suavemente da rocha e desapareceu na direção da casa. Kurama o seguiu de perto.

As pegadas levavam direto para a porta, que estava ligeiramente aberta. De forma cuidadosa, o kitsune espiou em torno, mas só viu uma pequena seção da parede cheia de utensílios de cozinha. O ronco rítmico de Koji enchia o aposento. Kurama começou a abrir mais a porta, quando de repente o ronco se tornou um resmungo soluçante de surpresa. Atirando o cuidado aos ventos, Kurama abriu a porta e entrou com tudo.

A visão de uma mulher alta, inclinada sobre Koji fez com que ele tirasse uma rosa de seu cabelo. "ROSE WHIP!"

Hiei dardejou à frente deles, espada empunhada, e estancou. "Você-!" O cheiro de cerejeira encheu o lugar.

A mulher virou-se, olhou Hiei direto nos olhos e deu um sorriso. "Então, é verdade. Você está aqui. Preferia achar que aquela guarda estava viajando, quando nos contou o que ouvira."

Kurama segurou firme seu chicote. "Hiei? Você a conhece?"

O jovem koorime estudou a mulher diante dele. O cabelo longo e violeta estava em sua maior parte reunido num coque, preso por inúmeros grampos, com o resto do cabelo caindo pelas costas. A cor dele combinava com o violeta e preto do kimono, o qual, julgando pelo modo como se movia, escondia uma figura flexível. Um par de olhos dourados piscaram para Hiei através de longos cílios. Ela era bela, de uma beleza felina.

"Não acho que ele se lembraria de mim-," ela começou.

"Você sentava-se num canto e tocava uma flauta, enquanto minha irmã e eu nascemos," Hiei interrompeu, com uma expressão esquisita no rosto.

A mulher pareceu surpresa. "A maioria das crianças não se lembra disso. Do que mais se lembra?"

"Acho que uma pergunta melhor é, que diabos está fazendo aqui?" Hiei resmungou, levando a katana na direção dela. "Se está aqui para me matar, então vai entrar pelo caminho errado. Ou, está só nos espionando? De qualquer modo, não sai daqui viva."

Koji pôs-se de pé atrás de Hiei e o golpeou na cabeça. "Gafanhoto! O que eu lhe disse sobre ameaçar os convidados?"

"Acho melhor você se explicar," Kurama disse a ela suavemente, ainda segurando o rose whip em prontidão.

A mulher koorime curvou-se formalmente. "Sou Eiyou, uma menestrel. Às vezes tenho o provilégio de tocar para certas casas de respeito na cidade koorime. Hoje cedo, fui convidada para uma casa em particular e ouvi uma conversa entre uma guarda da cidade e uma filha da casa. Perguntei-me se era verdade, então vim para ver."

Koji bufou e secou os óculos com a barba. "Política, política. Vá em frente e admita - foi mandada aqui."

Eiyou sorriu gentilmente, nem confirmando nem negando a acusação. Ela olhou para Hiei, como se o avaliasse. "Acho que a filha daquela casa ficaria mais do que interessada em saber como vai seu filho."

Se não fosse um assunto tão importante, Kurama teria caído na risada ante a expressão confusa de Hiei. Assim, ele conseguiu esconder seu sorriso guardando o chicote.

"Olha, lembro-me de você agora," Koji saltitou, apontando para Eiyou. "Peguei você espiando nos jardins de gelo atrás da Sala Principal alguns anos atrás. Ou foi há algumas décadas?" ele se perguntou, coçando a cabeça. "Ah, bom. Acho que não importa agora."

Recuperando a compostura, Hiei apertou sua katana ainda mais. "Está mentindo. Hina morreu. Vi o túmulo há tempos."

Eiyou sorriu gentilmente. "Não, não morreu. Aquilo foi uma isca para fazê-lo ir embora. As anciãs temiam - e ainda temem - você." Ela pôs a mão dentro da manga do kimono e tirou um cristal de quartzo do tamanho do punho. "Isto é de Hina, para provar que sou de boa fé." Ela o ofereceu a Hiei.

O pequeno koorime lhe lançou um olhar sombrio e agarrou o cristal. No momento em que o tocou, uma pequena luz azul começou a pulsar nas suas profundezas. Enquanto olhava, a luz pulsava ainda mais, e um raio fino saiu dele, através da testa de Hiei. Ele arfou.

Kurama moveu-se para ir até ele, mas foi detido por uma mão gentil em seu ombro. "Está tudo bem," Eiyou assegurou-lhe, com um ligeiro balançar de cabeça. Os olhos dourados dela carregavam um sorriso secreto. "Deixe o garoto em paz. O cristal só carrega a energia de Hina, nada mais."

Em alguns instantes, o raio desfez-se, deixando Hiei com uma expressão espantada. Sua katana e o cristal caíram das mãos e reverberaram no chão.

"Hiei?" Kurama pôs uma mão no ombro dele e balançou-o ligeiramente. "Está tudo bem?"

O olhar distante rapidamente se desfez dos olhos do koorime. Ele abaixou-se depressa para pegar sua katana e embainh´-la, mantendo as costas voltadas para Kurama. O kitsune notou o punho fechado com força em volta da empunhadura da espada, tornando as dobras dos dedos brancas.

"Talvez eu deva fazer um pouco de chá," Kurama sugeriu. "Devemos nos sentar e conversar sobre isso."

"É uma boa idéia," Eiyou concordou, sentando-se no chão. "Acho que seu amigo deveria usar algo para se eqüilibrar, antes que caía no chão, de vido ao choque."

***

Alguns minutos depois, os quatro se postaram próximo ao fogo re-aceso com lenha à frente dele. Eiyou provou o chá, e ergueu uma sombracelha. "Que sabor estranho é esse? Nunca o provei antes."

"Canela," Kurama respondeu. "É uma especiária encontrada só no Mundo Humano. Passei a gostar muito dela."

"É muito bom," ela concordou. "Contudo," ela disse, abaixando a caneca, "Não vim aqui para discutir chá." Ela fixou seu olhar felino dourado em Hiei. "Diga-me, o que o traz à sua terra natal? Deve uma circunstância marcante, com certeza."

"Primeiro me diga por que está aqui," Hiei exigiu. "Koorime normais não devem descer da ilha. Por que desobedeceu as regras?"

"Foi por causa de sua mãe - e não estou dizendo que ela me enviou." Eiyou suspirou. "Não é a primeira vez que saio da ilha, entende. Sua mãe... ela me contou histórias maravilhosas sobre como o mundo aqui embaixo era. Ela falou sobre rios tortuosos e cachoeiras trovejantes, e árvores com agulhas afiadas e flores, esquilos com caudas grandes e felpudas... coisas que simplesmente não existem em nossa ilha. Sua mãe tem a voz dos bardos. Ela me fez querer ver as coisas por mim mesma. Então, procurei até achar um caminho para passar, invisível às guardas que patrulham a cidade."

"Guardas?" Kurama levantou a cabeça, curioso. "Por que precisam de guardas? Achei que dependessem do isolamento na ilha flutuante para ficarem a salvo?"

Eiyou assentiu e bebericou o chá. "Na maioria dos casos, é. Contudo, algumas criaturas podem voar. E..." sua voz suavizou-se um pouco, "às vezes precisamos de proteção contra nós mesmas. Gostamos de ter segurança extra... só em caso." Ela fitou distraída sua caneca, como lesse a sorte.

"A ranger?" Kurama perguntou.

Eiyou piscou os olhos e ergeu os olhos. "Mais proteção. Nossa ilha flutua por aí, mas por causa dos padrões do clima, fica num circuito regular. As rangers patrulham as fornteiras deste circuito."

"E vocês não tem medo que...?" Kurama fitou Hiei de esguelha.

Eiyou corou um pouco. "Não. Antes de se tornar uma ranger, a pessoa é... ahem... impossibilitada de ter filhos."

"Ah," Kurama disse. "Entendo." Ele sentiu uma pontada de raiva e percebeu que Hiei o olhava furioso. O fogo na lareira estalou e lançou uma nuvem de faíscas para o ar.

Eiyou tirou algumas brasas ardentes da manga do kimono e voltou-se para o jovem koorime. "Bom, e então? Confia em mim agora? Vai dizer algo?"

"Hum." Hiei estudou a lareira, observando as chamas douradas deslizarem entre os carvões. Sombras brincaram por sua face, criando imitações de emoção.

"Dizem que você se tornou um dos guerreiros mais perigosos do Makai," ela disse. "Veio se vingar?"

"Se tivesse, você já estaria morta," Hiei replicou sucintamente. "E toda cidade com você."

"Ele??" Koji piou. Ele riu. "Vingança? Só pode estar brincando! Ele não consegue nem mesmo me derrotar." Ignorando o olhar furioso que Hiei lhe lançou, Koji desatinou. "Grande guerreiro!"

O homenzinho levantou-se de um salto e cruzou o aposento para parar diante de um sustentáculo para espadas, onde havia uma katana e uma wakizashi. A katana, uma bela criação vermelha, negra e dourada, deslizou para sua mão coriácea. Ele voltou-se para encarar Hiei e brandiu a espada, o divertimento estampado nas linhas do rosto. "Lembra desta espada, Gafanhoto?" ele perguntou com um grande sorriso cheio de dentes.

"Hum." Hiei deu de ombrons novamente.

Koji deslizou a katana de volta a sua bainha e pôs a mão dobrada ao lado da boca. Com uma piscadela, sussurrou de modo conspirador para o resto do grupo, "Na primeira vez que mostrei a ele esta espada, ele ficou todo excitado, ficou sim. Agarrou-a de uma só vez - do lado da ponta! Acabou cortando as próprias mãos! Sangue por todo lado! Mas não digam a ele que lhes contei."

"Hiei??" Kurama ergueu a cabeça para o amigo, descrente, tentando reprimir um sorriso.

O jovem koorime de repente estava fervendo. "Isso foi há muito tempo," ele murmurou.

"Guerreiro perigoso, humpf!" Koji continuou, ajustando os óculos. Ele sorriu para Kurama. "Não acho que cheguei a lhe contar sobre a primeira vez que ele saiu para caçar coelhos?" Quando Kurama balançou a cabeça em negativa, Hiei ficou ainda mais vermelho. Koji voltou a sentar-se e tomou um gole barulhento de chá. "Ele constriu uma armadilha, uma coisinha com corda e varinhas - gastou um tempão nisso, gastou sim, colocando tudo do modo que eu mostrava. Então eu disse a ele para sair e voltar depois. Mas ele estava tão determinado a pegar um coelho que não me escutou. Passou a maior parte do dia acocorado numa árvore, desse jeito-" Koji curvou-se como uma bola, "-observando aquela armadilha como um falcão. Bom, é claro, os coelhos o sentiram ali e não se aproximaram. Então veio a noite, ele finalmente se entediou e saiu para perseguir borboletas, ou algo assim."

"Estava caçando os coelhos," Hiei murmurou.

"DE QUALQUER FORMA, depois de um tempo, ele ficou andando por aí e assustou um grande coelho. Começou a persegui-lo e claramente se esqueceu da armadilha." Os olhos do velho se iluminaram com risos, enquanto acrescentava, "Umas duas horas depois, ouvi ele gritando e quando fui olhar... lá estava ele, pulando com um pé, andando em círculos. Pego na sua própria armadilha!" Ele piscou para Hiei. "Acho que isso lhe ensinou a olhar aonda ia, heim?"

Kurama teve que esconder seu riso com um gole de chá. Sabia que era melhor não rir - ele quase podia ver o vapor saindo das orelhas de Hiei.

O jovem koorime levantou-se com raiva. "Não tenho que aceitar isso." ele se virou na direção da porta.

"Espere um instante, Hiei," Kurama disse. "Você não pode sair. Eiyou veio até aqui para conversar com você. Não quer saber o que ela vai fazer com o que descobrir?"

"Provavelmente é uma armadilha," ele resmungou. "E, de qualquer maneira, tudo que ouço são histórias estúpidas e inúteis. Quem se importa?"

Eiyou sorriu gentilmente. "Sua mãe." Ela deu um tapinha no lugar vago no chão ao seu lado. "Volte e sente-se, conte-me sobre você. O que quer que eu diga a Hina-sama?"

Hiei se enrijeseu. "Não me importo," ele disse, mas não fez mais nenhum movimento na direção da porta.

"Hiei!" Kurama encorajou-o. "Quando terá essa chance de novo? Pense antes de fazer algo de que se arrependerá."

Depois de alguns instantes, o jovem koorime vegarosamente voltou-se e sentou de novo perto do fogo. "Devo estar biruta," ele murmurou.

"Conte-me algo de que gosta," Eiyou encorajou. "Qualquer coisa."

"Primeiro vai me dizer algo," Hiei replicou numa voz baixa, quase um resmungo. "Como diabos passou por mim sem ser notada?"

"É parte da minha natureza, e parte do meu poder. Sabe o que meu nome significa?" Eiyou perguntou.

Hiei deu de ombros ligeiramente.

O fogo estalou novamente, fazendo as sombras entrarem num redemoinho momentâneo. "Meu nome significa 'Sombras Dançando'," ela disse. "A Sombra Que Dança, sou eu. Caminho sem ser notada entre as Casas e pelos territórios, uma sombra tremeluzente no canto do olho. Sou só uma atriz, uma cantora e tocadora de instrumentos, sem ser digna de nota. Assim, pode estar em qualquer lugar que escolha. É o poder do meu nome."

"Você deve saber os poderes que os nomes têm," Eiyou continuou, gesticulando para Hiei. "Um nome é um espelho que reflete sua imagem no mundo. Ou, se quiser, é um filtro através do qual o mundo o vê. É algo que deve saber, Hiei... O Fantasma Voador. Ou devo chamá-lo de Criança Proibida?"

O jovem koorime parecia pensativo de repente.

"Quem era aquela outra mulher que veio aqui anteriormente?" Kurama interrompeu. "A ranger?"

Koji coçou a careca enquanto sentava-se de novo. "Quem? Não consigo me lembrar de ninguém mais ter estado aqui hoje?"

Eiyou suspirou. "Deve estar se referindo a Shinrai. Ela é a capitã das rangers. Deve tomar cuidado com ela," a menestrel alertou. "Ela é o Coração do Trovão. É rápida para se irritar e ainda mais para lutar. Seu ódio para com Hiei já está ressoando nos corredores das Casas da cidade. Irão sento-lo logo, a menos que sejam espertos."

"Droga," Kurama disse suavemente. "Então ela já alertou todo mundo."

"Todo mundo, não," Eiyou corrigiu. "Só aquelas em altas posições. Elas não têm desejo de causar pânico." Suavemente, quase como se para si própria, ela acrescentou, "O eqüilíbrio do p

oder já está se desfazendo."

"O quê?" Kurama perguntou.

Eiyou balançou a cabeça. "Nada. Não preste atenção. De qualquer forma, a verdadeira pergunta agora é, o que pretendem fazer? Por que estão aqui?"

"Não é da sua conta-" Hiei começou a retorquir, mas Kurama interrompeu-o.

"Estávamos atrás de uns ladrões que roubaram o Reikai," Kurama contou-lhe com seu melhor sorriso no estilo 'confie em mim'.

"Mesmo?" Uma sombracelha delicada ergueu-se. "Será que nossas rangers descobriram algo sobre eles?"

Kurama deu de ombros. "A nevasca de ontem nos tirou da pista. Pode ter escondido os bandidos das suas batedoras também."

"Provavelmente," a menestrel assentiu, de acordo. "Então, vocês realmente só estão de passagem?"

"Estávamos, mas agora que estamos aqui...." Kurama inclinou-se para frente, quando a cabeça de Hiei levantou-se bruscamente na direção dele.

"Nem mesmo-" o koorime começou.

"Pergunto-me se não há uma chance de que Hiei possa ter uma palavrinha com a mãe?" Kurama inclinou-se contra a parede com um sorriso, os braços cruzados atrás da cabeça. "Já que estamos aqui."

Hiei pôs na frente dele em um nanosegundo, agarrando a túnica do kitsune com força com um único punho. "Como OUSA??!!" ele rosnou. "Seu maldito intrometido!! Eu vou-"

Eiyou disse algo, mas foi abafado pela tagarelice de Hiei. O pequeno koorime engasgou-se e soltou Kurama. Voltou-se para encarar a menestrel. "O-o que disse?"

"Eu disse, é possível." Eiyou alisou o kimono.

Hiei resmungou, revelando seus caninos. "Não brinque com isso."

"Eu não brinco," Eiyou disse, levantando-se graciosamente. "Já que você claramente não entende as questões delicadas de negociação, terei que ser direta. O ermitão está certo quanto a Hina-sama ter me enviado aqui. Ela realmente deseja saber como você está, e, se possível, se encontrar com você."

"Como vou saber que isso não é uma armadilha?" Hiei resmungou. "Você pode estar tentando me atrair para uma emboscada. Provavelmente está tentando achar um meio de me matar."

"Suponho que não saberá," Eiyou concordou. "A escolha é sua. Não tem que concordar."

Abruptamente, Hiei adiantou-se e agarrou Eiyou pelo cabelo. Com uma mão, soltou a faixa na testa e com a outra, empurrou a cabeça dela para baixo, de modo que a forçou a fazer contato visual com seu jagan. Os olhos da menestrel se arregalaram e ela arfou, enquanto Hiei silenciosa e brutamente sondava seus pensamentos.

Depois de um curto período, ele soltou-a e se virou, os ombros ainda numa linha rígida. Eiyou caiu no chão, esfregando a cabeça cuidadosamente. Ela parecia bem pálida.

Quando Hiei não disse nada, Kurama ergueu-se e dirigiu-se até ele. Pôs a mão do ombro do amigo, mas o pequeno koorime afastou-a.

"Bem?" Kurama perguntou gentilmente.

"Ela está dizendo a verdade," Hiei disse, numa voz quase inaudível.

"Então," Eiyou disse, prendendo as mechas solta do cabelo de volta. "o que quer fazer? Irá vê-la?"

Hiei girou para encarar a menestrel, um fogo repentino ardendo nos seus olhos âmbar. "Sim," ele silvou. "Sim, eu irei." Seus caninos piscaram na luz do fogo, enquanto um olhar sombrio tomava conta de seu sembante.

Pela primeira vez, Kurama começou a se perguntar realmente se seu plano fora uma boa idéia.

***

Shinrai bateu na porta do escritório da comandante.

"Esperar??" ela rugiu. "Esperar!!? Que diabos aquela comandante biruta acha que sou, afinal? Ela tem um parafuso solto se acha que vou ficar sentada e esperar que o conselho decida o que fazer com aquele bastardozinho!"

A capitã estivera em seu quarto, polindo as espadas, quando recebera uma convocação da comandante. Acabou se mostrando ser instruções, que incluiam não só Shinrai, mas também a capitã da guarda da cidade.

"As membros do conselho foram avisadas da situação," a comandante informara-lhes, "e estão reunidas agora para decidir o que fazer."

"Qual é o maldito problema?" Shinrai perguntara. "É só irmos lá e matar o bastardo. Problema resolvido."

"Não é assim tão simples," a comandante dissera com um franzir de cenho irritado. "E se for uma armadilha? Ele pode querer atrair as melhores guerreiras para longe da cidade e enviar alguém por trás para nos invadir."

"Não vi ninguém com ele, a não ser aquele ermitão e quem quer que seja aquele amigo alto dele," Shinrai retorquiu. "Que invasão conseguiria com três pessoas?"

"Quem sabe que tipo de truques ele tem nas mangas?" a comandante dissera. "Pelo que sabemos, ele pode ter seus aliados. Não sabemos ainda."

Shinrai socara a mesa, espalhando papéis. "Ótimo! Voltarei lá e descobrirei que diabos está acontecendo."

A comandante franzira o cenho para a mão espalhando tinta nos seus relatórios recentemente escritos. "Não, Capitã, não irá. Disse-lhe antes de você ir visitar o ermitão pela primeira vez de que não agiria a despeito que achasse. Não me escutou e voltou com feridas para provar. Por sua causa, a Criança Proibida agora sabe que nós sabemos que ele está aqui, e ele ficará ainda mais paranóico. Você arruinou a melhor chance de pegá-lo. Não, Capitã, vai ficar na cidade por enquanto, até que o Conselho decida o que tem que ser feito."

Uma mão firme no ombro de Shinrai evitou-a de saltar para cima da comandante e estrangulá-la. A Capitã Tetsukabe da Guarda Municipal afastara-a da mesa. "Cuidado," ela sussurrou no ouvido de Shinrai. "Não quer perder seu posto de novo, quer?"

Shinrai acalmou-se e parou de olhar feio para a comandante. Seus pulsos fecharam-se com tanta força que as dobras dos dedos ficaram brancas. "Se não fosse por aquele maldito ermitão, não TERÍAMOS um problema agora. Quase acabei com aquele moleque. Gostaria de ver mais alguém por aqui que poderia dizer isso."

A comandante suspirou. "Sim, Capitã, eu sei. Você é a melhor batedora que temos e é exatamente por isso que não quero perdê-la. Por favor, entenda. Temos uma única chance de um esforço coordenado. Se estragarmos isso, então estaremos com problemas de verdade. O conselho decidirá o quer faremos, mas até que cheguem num acordo, não tomaremos nenhuma medida." Ela voltou-se para a capitã da guarda municipal. "Capitã Tetsukabe, você dobrará a patrulha em torno do perímetro da cidade. Se a Criança Proibida tentar entrar na cidade, irá afastá-lo. Enquanto isso, deve ser relatar à Câmara do Conselho para manter um olho nos procedimentos. Capitã Shinrai, você ordenará a suas rangers para evitar a Criança Proibida. Não queremos piorar o problema antes de estarmos prontas para enfrentá-lo. Até que algo seja decidido, você esperará antes de tomar qualquer curso de ação." A comandante sentou-se pesadamente atrás da mesa. "Isso é tudo. Dispensadas."

"Esperar??" ela rugiu. "Esperar!!? Que diabos aquela comandante biruta acha que sou, afinal? Ela tem um parafuso solto se acha que vou ficar sentada e esperar que o conselho decida o que fazer com aquele bastardozinho!"

"Estou com você," uma voz rouca atrás dela concordou. Shinrai não se incomodou de olhar; ela sabia que era a Capitã da Guarda.

"Bom ouvir isso," Shinrai disse com um resmungo. "Pelo menos mais alguém aqui tem a cabeça no lugar."

A Capitã Tetsukabe trotou pelos degraus ao lado de Shinrai, seu casaco branco flutuando a sua volta. "Escute," ela disse suavemente. "Se a Criança Proibida realmente tentar entrar na cidade, bem provavelmente haverá combate. Acidentes acontecem."

Shinrai parou. Um sorriso horrível estampou-se no seus lábios. "Acontecem. Pode confiar em alguém na sua guarda?"

"Apostaria minha vida nela," Tetsukabe respondeu. "E, é claro, não dá para evitar que patrulhas regulares saiam. Os tempos estão tensos. Pode acontecer que uma de suas rangers visse um movimento repentino enquanto patrulham e confundam-se com um monstro." As duas mulheres trocaram olhares e assentiram em compreensão. De um modo ou de outro, a Criança Proibida morreria.

***

Nuvens escuras pairavam ameaçadoramente no céu quando a noite seguinte se aproximou. Era apropriado, Kurama pensou, quando foi até a mesa atrás de uma maça, dando uma olhada em Hiei. As nuvens combinava com a que pairava sobre seu amigo o dia todo.

Ele tentara conversar com Hiei mais cedo, à tarde. "O que acha que acontecerá quando vê-la de novo?" ele perguntara, inclinando-se contra o tronco da árvore que Hiei estava encarapitado.

"Hum." Hiei dera de ombros. "Não sei."

"Está nervoso?"

Outro dar de ombros.

Kurama tentou outra tática. "O que acha que ela fará quando o ver?"

Hiei fixara um olhar ilegível em Kurama. "Eu não sei e não me importo. Só vou continuar nisso para que você não me arraste para cá de novo."

"É isso?" Kurama perguntara suavemente.

"Hum."

Uma pequena brisa passou, atirando algumas mechas de cabelo ruivo nos olhos de Kurama. Ele afastou-as e pensou sobre a reação de Hiei na noite anterior. "Talvez você estava pensando em se vingar."

"Parei de pensar nisso quando deixei o Makai," Hiei retorquiu bruscamente e desapareceu na floresta. Kurama quase fora procurá-lo, mas decidira deixá-lo em paz. Sabia que Hiei não sumiria - não agora que dera sua palavra.

O koorime realmente reaparecera pouco antes da hora do jantar, carregando a carcaça de um urso gigante de aparência horrível atrás dele. Nesta época, Kurama tinha se recuperado totalmente no veneno, de modo que conjurara algumas frutas frescas enquanto Koji ajudava Hiei a tirar a pele e a preparar a carne. Seria um bom jantar, mas Koji era o único apreciando.

Kurama estava preocupado demais com o que aconteceria. Não conseguia se livrar da imagem de Hiei parado diante da lareira noite passada, com o olhar de um vulcão em erupção brilhando nos olhos. Ficou se perguntando - Hiei estava pensando em vingança, afinal de contas?

Quanto ao jovem koorime, ele só dera algumas mordidas e então abandonara a carne e fora até a janela. Ficara fitando por ela por quinze minutos, imóvel, observando o céu ir do azul ao anil. Um vento suave soprara e as nuvens escuras afastavam-se lentamente. A vista à noite estava espetacular.

Esperavam por Eiyou. A menestrel decidira que o curso mais seguro era que ela retornasse à cidade e tentasse arranjar um encontro com Hina. Seria difícil. De acordo com Eiyou, Hina geralmente ficava sob vigilância o todo tempo agora, para se certificarem de que não sairia da cidade de novo. Então, é claro, a única opção era contrabandear Hiei para dentro.

"Tem certeza?" ele perguntara.

"É a única maneira," ela replicara. "Tem que entender, sua mãe está numa situação delicada. A família dela... sua, tende a cair na opinião pública, então toda ação tomada deve ser vigiada. Isso se aplica ainda mais a Hina-sama, por causa de suas indiscrições... passadas." Ela enfatizou a palavra suavemente. "Contudo, se alguém invisível cruzar seu caminho - alguém tipo um criado ou ator - então isso não seria questionado."

"Não," Hiei disse, cruzando os braços. "Não usarei truques. Se minha mãe quer me ver, então me verá como eu sou. Não como um escravo."

"Mas-"

"Não."

Eiyou suspirou. "Tudo bem. Quem sabe eu consiga arranjar um buraco entre as patrulhas das muralhas. Se puder enfiá-lo na cidade, quem sabe você conseguisse se esconder até que Hina tenha uma chance de ficar a sós com você."

"Assim é melhor ."

"Espere um instante ," Kurama interrompeu. "Como você entra e sai?"

"Sou praticamente invisível, lembra-se?" Eiyou lembrou-o. "Hiei não. Todavia, farei o que puder. Amanhã a noite voltarei, e ajudarei Hiei a entrar na cidade. Isso será mais difícil do que meu plano original, já que a guarda está em alerta agora, mas -"

"Eu vou também." Kurama cruzou os braços, desafiando-a a desafiá-lo.

Os dois koorime fitaram-no. "Impossível," Eiyou disse.

"Idiota," Hiei soltou. "É perigoso demais. Só vai chamar atenção desnecessária."

Kurama estreitou os olhos para a dupla. "Não se esqueça, fui um ladrão muito bem sucedido antes mesmo de você nascer, Hiei. Sou perfeitamente capaz de ficar escondido e vocês precisarão de alguém para vigiar a retaguarda. Isso não é uma viagem em território selvagem, com alguns monstros, quem sabe, se esgueirando. Estamos falando de uma cidade inteira, cheia de koorimes, a maioria das quais o abateria alegramente se o vissem. Mesmo você não conseguiria derrotá-las todas. Então, não discuta. Eu vou."

Hiei fitou-o por um momento, depois deu de ombros. "Ótimo. O funeral é seu."

"Muito bem." Eiyou rendera-se com uma reverência formal. "Voltarei atrás de vocês dois amanhã à noite. Preparem-se."

Traduzido por Rechan // Título Original: A Far Country - The Music of Crossroads


09 abril 2004

A Rua das Ilusões, cap. 02
Um País Distante, cap. 04

Devido à Páscoa - e a problemas pessoais - só estes dois capítulos serão atualizados está semana. Dia 16/04 haverá mais.

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