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Passado Presente e Futuro
por Wong Siew Lee

Passado - Memórias
Capítulo 10: Recupere as Lembranças, Recupere o Amor

O sino do palácio do Reikai tocou onze vezes, assinalando a hora de ambos se irem. Koenma e Misuko soltaram suas mãos e ergueram os olhos. Ao longe, parecia-lhes terem ouvido uma velha coruja assoviando pesarosamente. Koenma levantou-se e ajudou Misuko pôs-se de pét.

"Não é uma bela noite?" comentou Misuko suavemente.

"É, adorava olhar a lua do Ningenkai, sabe; mas raramente tenho chance de fazê-lo," respondeu Koenma, caindo em outros de seus modos poéticos. Bem, um de seus bem raros modos poéticos.

"Quando era pequena, sempre pensei que havia um coelho na lua. Que havia uma bela fada como sua dona; com uma amoreira. Claro que isso era só minha imaginação, proveniente de livros de histórias. Bem, também gosto das estrelas brilhando forte no céu escuro. Já notou as duas estrelas brilhantes que sempre aparecem no meio de Setembro? Sempre tão separadas..." disse Misuko, sorrindo enquanto pensava no velho conto de fadas. Pessoalmente, ela adorara aquela história... Tão romântica, e mesmo assim, tão triste.

"Hum... Sim..." respondeu Koenma, ocupado olhando para lua.

"Parece que elas estão sempre tentando alcançar-se, mas nunca se tocando; apenas podem ver uma a outra à distância..." Misuko ficava com lágrimas nos olhos sempre que lia esta história. Era uma velha lenda... Dois amantes separados pelo céu e mortalidade... Era muito triste. Existiu uma vez um homen que cuidava do gado. Sim, ele era pobre, mas ainda assim contente com sua vida. Um dia, passou por um rio e viu algumas belas ninfas brincando na água. Roupas de seda e faixas estavam nas rochas... Curioso, ele pegou uma faixa e ficou com ela. O resto das ninfas voltou quando passou-se um tempo, mas naturalmente uma garota simplesmente não conseguia encontrar a sua faixa.

Enfim, a garota descobriu que um mortal pegara sua faixa. Sem ter sua faixa, ela não poderia voltar aos céus, assim suplicou ao homen para devolvê-lo... O homen não o devolveu; em vez disso, eles se apaixonaram. Sim, eles se casaram e até mesmo tiveram dois filhos; mas a garota tornou-se mais e mais impaciente enquanto o tempo passava-se - ansiava por voltar aos céus. Num fatídico dia, ela finalmente encontrou sua faixa. Enrolou-a sobre os ombros, pretendendo voltar após uma breve visita aos céus... mas ela nunca mais voltou. Foi proibida de descer a Terra mais uma vez...

Dizem que o Imperador de Jade finalmente deixou ambos encontrarem-se, mas apenas uma vez por ano, durante o equinócio de outono. Duas estrelas buscando uma a outra, a Tecelã e o Pastor. O amor proibido era sempre amargo...

Koenma deu-lhe um abraço e palmadinhas nas costas. "Na próxima vez em que estiver livre do trabalho, apreciarei a lua e as estrelas com você. Sério."

"Espero que tenha tempo de fazer isso também," respondeu, encostando sua cabeça no ombro de Koenma. "Sinto-me tão cansada, afinal de contas tudo isso aconteceu tão rápido."

"É, eu também. A idéia de atacar alguém não é exatamente muito atraente para mim," disse Koenma.

"A propósito, você aprendeu artes marciais?" perguntou Misuko. O simples pensamento de Koenma quebrando um pedaço de madeira com as mãos nuas f6e-la rir.

"Sim, quando estava em treinamento para o título de Príncipe Coroado, fui posto sob os cuidados de um velho para algum tipo de treinamento estúpido. Eu deveria saber como usar espada, pelo menos. Só dominei isso e larguei o treino. Nunca gostei pessoalmente de artes marciais," disse Koenma, sorrindo ao pensamento de seu treino. Situações embaraçosas sempre aconteceram, porém.

"Só gostaria que tudo ficasse bem e os três mundos fossem pacíficos e harmoniosos. Algumas pessoas simplesmente adoram violência," disse Misuko, falando em voz alta seus pensamentos, mas ela sentiu uma ponta de culpa. Talvez ela não devesse ser salva. O que Yamaro e Murashi fariam ao Ningenkai?

"Quem sabe um dia, possamos ver isso acontecer," disse Koenma, apertando mais o braço de Misuko.

De mãos dadas, voltaram aos seus quartos no Andar 3. Trocaram beijos nas bochechas para um simples boa noite. Pouco antes de fechar a porta, Misuko esticou a mão e sussurrou no ouvido de Koenma. "Até amanhã." Então, a porta fechou-se, deixando Koenma ali.

Koenma deu uma rápida olhada em seu relógio de pulso. Mostrava 23 horas, mas o ponteiro dos minutos tinha atingido os cinco minutos.

"Ah não... Otoosama vai ficar mesmo zangado desta vez," gemeu Koenma. Pensamentos contorciam-se em seu cérebro. Deixando Yamaro e Murashi ir, pegado de calças curtas com Misuko em seu quarto... Enma-Daiou tinha realmente boas perguntas para ele desta vez.

Koenma suspirou amaguradamente. Como aquilo tudo aconteceu ainda estava tão vívido em suas lembranças... Koenma fechou seus olhos e parou de correr. Ele inclinou-se contra a parede do corredor e lentamente escorregou até o chão. Subconscientemente, aproximou suas pernas de seu peito e passou os braços ao redor deles. O que fazer? Sempre pensara que seu pai estava a frente de todos os seres, youkai ou ningen; mas aprendera a terrível verdade. Enma-Daiou quis seu amigo morto!

Koenma suspirou melancolicamente desta vez. Seu pai não bem o que ele pensava. O incidente de Sensui o fizera perceber a realidade colocada ante ele. Seu pai não era nada mais do que um tirano louco por poder, nunca se importando com o que ele sentia. Como um quebra-cabeça, a figura estava finalmente completa. Desde que Enma-Daiou causou indiretamente a morte de Misuko, Koenma começara a suspeitar de seu pai; seu pai estava fazendo isso pelo bem do Reikai, ou era meramente para limpar a própria cara? Se fosse o último, Enma-Daiou era muito egoísta, nunca pensando nenhuma vez quanta mágoa causaria em Koenma; simplesmente porque aquilo estava no caminho que Enma-Daiou tinha escolhido para ele.

Era totalmente injusto.

Koenma pensou no seu amigo, Yusuke. Ainda não conseguia acreditar que Enma quisesse a vida de Yusuke... Koenma sabia que Yusuke não faria nada para ferir o Ningenkai e Makai, mas Enma...

Koenma abriu seus e forçou-se a se levantar. O que estava feito, estava feito. Ele não conseguiria olhar para trás e arrepender-se. Com passos rápidos, Koenma meio que correu para a sala de estudos no térreo. Fortaleceu-se e respirou fundo. Lenta e cuidadosamente, ele bateu na porta com uma das aldravas de latão.

"Entre." uma voz trovejante chamou-o. Uma gota de suor correu pela testa de Koenma.

Koenma empurrou a porta e ela abriu-se com um rangido. Empurrou um pouco mais para revelar um lugar confortavelmente mobiliado e fracamente iluminado. As quatro paredes do aposento estavam alinhadas com muitos livros e documentos. Havia uma imensa mesa, com uma igualmente imensa cadeira. Enma-Daiou estava ali, olhando e escolhendo alguns papéis espalhados pela escrivaninha. Enma-Daiou ergueu os olhos e viu Koenma.

"Sente-se." Enma gesticulou para uma cadeira em frente a ele. Koenma adiantou-se e fechou a porta detrás de si. Rigorasamente, ele sentou-se na cadeira dirigida a ele, preparado para o pior. Sua mente estava num estado totalmente confuso.

"Koenma, meu filho. Na verdade há um bom número de coisas que gostaria de discutir com você. Antes de chegar no tópico importante, há uma pergunta que quero realmente fazer," começou Enma.

"Sim, otoosama," respondeu Koenma calmamente, quase um sussurro.

Enma inclinou-se na direção de Koenma e perguntou, "Você tem uma namorada?"

"Hã... não," respondeu Koenma lentamente e enguliu em seco.

"Então pode me explicar por que havia uma garota vestida somente com uma toalha com você semi nu no seu quarto de tarde? pensei que tivessemos chegado a um acordo sobre nenhuma garota no Reikai sem minha permissão? Especialmente no seu quarto?" inquiriu Enma, um sorriso sinistro iluminando seu rosto largo.

"Bem, é o seguinte. Ela acompanhou Yusuke e os outros. Já que ela veio aqui depressa, ela esqueceu de trazer mudas de roupa, então ela veio me pedir isso," explicou Koenma depressa.

"Pode dizer o que quiser, mas a verdade é que te peguei de calças curtas. Lembre-se, nenhuma garota na próxima vez sem minha aceitação. Aliás, aquela garota me parece bem familiar. Onde já a vi antes..." perguntou-se Enma.

"Otoosama, você se lembra de uma promessa que me fez cerca de um século atrás?" aventurou-se Koenma cuidadosamente. O temperamento de Enma-Daiou devia estar bom hoje.

"Que promessa...?" perguntou Enma.

"Misuko. Um nome. Lembra-se?" perguntou Koenma novamente.

"Hum... o nome dela também parece familiar," replicou Enma.

"Otoosama, há mais de um século, você nos proibiu de ficarmos juntos - o nome dela é Misuko. Você me prometeu que poderia tê-la se a conseguisse encontrá-la de novo," explicou Koenma, tremendo.

"Ah, sim! Aquela garota lembra mesmo Misuko." disse Enma Daiou enquanto coçava a cabeça maravilhado. "Como você encontrou uma garota tão parecida?"

"Ela *é* Misuko," replicou Koenma suavemente.

Enma-Daiou pensou por um instante, tentando lembrar-se de todas as suas palavras. "Tudo bem, manterei minha promessa. Quando quer noivar?" perguntou Enma-Daiou.

"Ainda não. Obrigado, otoosama. Contarei a você quando quiser," disse Koenma, obviamente radiante. Levantou-se da cadeira e dirigiu-se para porta.

"Antes de ir, tenho outra pergunta e é muito importante para todos nós," disse Enma.

"Sim?" disse Koenma curiosamente, mas uma úlcera em seu estômago pareceu aprofundar-se. O ele mais temia tinha chegado. Yamaro e Murashi...

"Fontes internas e relatórios me confimaram que você libertou Yamaro e Murashi. Você sabe que gastei muito de meu reiki e tempo para capturá-los. Qual foi sua razão para isso?" inquiriu Enma friamente.

"Eles tinham razões e prisioneiros com eles. Ameaçaram matar os reféns se eu não os lebertassem. Como sabe, sempre pus a vida acima de qualquer outra coisa," respondeu Koenma de uma só vez, embora só houvesse Misuko. Otoosama explodiria se soubesse disso.

"Foi você quem libertou-os, então você é o responsável pela destruição que eles possam causar, seja direta ou indiretamente. Não me importo como fará isso, peça ajuda ao seu time de Investigadores ou faça o trabalho sujo você mesmo. Só tenha certeza de que eles não faram nada para ferir o Makai, Ningenkai, e o mais importante de tudo, Reikai," disse Enma sério.

"Sim," prometeu Koenma, engulindo em seco nervosamente.

Koenma assentiu enquanto dizia aquilo e saiu pela porta. Os olhos de Enma-Daiou o seguiram intensamente, balançando a cabeça preocupado.

*Espero que ele saiba se cuidar.* pensou Enma. "Por outro lado, ele é adulto. Talvez não devesse mais tentar controlar a vida dele. Filhos..."

Koenma passou do corredor para o elevador, e então para o terceiro andar, onde todos os dormitórios localizavam-se. A porta do elevador abriu-se e Koenma entrou. Apertou o botão vermelho marcando três no painel de controle.

Ainda estava confuso sobre seus sentimentos mais profundos. Devia estar muito feliz, já que Enma concordara com sua promessas e desejos; mas agora ele não sentia quase nada, exceto uma ponta de culpa? Talvez fosse o vazio.

*Misuko ainda tem algum sentimento por mim? Ela perdeu todas as lembranças do passado, totalmente... Por outro lado, estou em dívida com ela. Eu trouxe para essa confusão. Primeiro, a fiz cometer suicídio. Segundo, indiretamente a torturei quando Yamaro e Murashi raptaram-na... Não deveria tê-la procurado no jardim aquela noite,* pensou, depressivo, arrependendo-se de suas ações no passado.

O sinal do elevador soou e aberta abriu-se novamente, para o corredor do terceiro andar. Koenma saiu antes que a porta fechasse de novo e lentamente andou com dificuldade pelo longo corredor reto. Parou em frente ao quarto de Misuko e olhou fixo para a porta de madeira. Ergueu uma mão para bater, mas não conseguia decidir sobre o que fazer. Koenma soltou um suspiro de frustação e enterrou o rosto nas mãos, procurando desesperadamente alguma iluminação para seu dilema. Inclinando-se contra a porta, deslizou para o chão e sentou-se.

*Yamaro e Murashi. O que devo fazer com eles? O youki e reiki de Yusuke e dos outros combinados não é suficiente para derrotá-los. Talvez tenha sido um erro libertá-los desde o começo. Um erro conhecer Misuko. Agora, otoosama concordou com Misuko mas ainda sim, por que me sinto tão vazio? Misuko precisa voltar ao Ningenkai. Não posso ser tão egoísta. Estou confuso por causa das emoções. Ela realmente gosta de mim? Ou os sentimentos dela são de pena? Ainda gosto dela de verdade? Ela pareceu mudar um pouco, ou foi o rosto dela que me fez perder a cabeça?* pensou Koenma miseravelmente.

Perguntas e dúvidas pipocavam na sua cabeça e sobre ele, como ondas sem fim o inundando. Naquele instante, a cena do jardim parecia tão perfeita, exatamente como ele sonhara e esperara por todos aqueles anos. Não o era agora. Estragada por emoções sombrias, pensamentos e emoções negativas.

Koenma passou os braços em volta das pernas e sentou-se ali, no silêncio da noite.

A lua crescente no céu escuro emitiu uma leve luz prateada e a serenidade do céu azul escuro estava encantadoramente bela para a alma. O coração de Misuko não estava ali para apreciar. Jogou-se na cama. Voltou sua cabeça para olhar para o reflexo da lua na superfície lustrosa do pingente que se encontrava no criado mudo.

Gentilmente, pegou-o e o estudou. Ela tocou-o suavemente e sentiu a sensação fria que passava pelas pontas dos dedos. Agora, Koenma tinha lhe dado a pedra. Como fora dela, assim como agora. Koenma realmente a amava? ainda havia uma pergunta incomodando-a. Como Koenma sentia-se em relação a ela agora? Ele parecere bem sincero; mas aparências podem enganar. Ou fora seu rosto que o atraíra em primeiro lugar?

*Saberei.*

Misuko levantou-se e encaminhou-se para porta. Ouviu um som de fricção na porta. Girou a maçaneta cuidadosamente e deu uma espiada. Uma figura caiu pela porta e aterrisou nos seus pés. Misuko esgasgou-se surpresa, mas parou quando percebeu que era Koenma. Koenma levantou-se rapidamente e arrumou-se.

"Por que está sentado do lado de fora?" perguntou Misuko, tentado a todo custo não rir.

"Err... Estava só pensando em algo," respondeu Koenma de modo desanimador. Certas coisas não deviam ser ditas em voz alta. Se assim o fossem, corações seriam partidos.

Misuko fechou a porta. Fez Koenma sentar-se no sofá. Koenma aceitou e sentou-se com uma expressão preocupada.

"Pode me contar seu problema agora. É por causa de seu otoosama?" perguntou Misuko enquanto colocava uma mão confortadora no ombro de Koenma. Koenma suspirou de novo.

*Misuko tem o direito de saber. Não um problema só meu,* pensou Koenma em silêncio. Após um instante, ele falou.

"Misuko, na verdade tenho pensado sobre esse problema no nosso relacionamento. Um grande problema." começou Koenma. Respirou fundo e continuou.

"Estava pensando sobre você e eu. Ainda somos os mesmos de antes? Quero dizer, você mudou... Eu... Eu não acho que ainda te ame," disse Koenma para Misuko, afastando a dor. Koenma baixou os olhos, enquanto Misuko olhava fixo para ele com uma expressão tão dolorida. Misuko sentiu-se como se o céu houvesse caído sobre ela. Sim, ela não sabia como expressar seus sentimentos como antes, mas dava o melhor de si. *Esse idiota do Koenma não sabe quão sérios meus sentimentos são...* pensou Misuko, seu peito apertando-se consideravelmente pela raiva.

Mas talvez fosse melhor assim; ficaria livre do passado! Um tumulto emocional começou a atacar sua consciência novamente; deveria dar o passo final.

Misuko ouviu as palavras e elas entraram no mais profundo de sua alma. Nunca esperara que Koenma fosse tão cruel com as palavras. Lentamente, ela levantou-se. "Quero fazer qualquer coisa." terminou a frase e saiu correndo do quarto enquanto espantava as lágrimas que saíam sem controle.

Koenma deu uma olhada nela e deitou-se no sofá. Sentiu uma apunhalada de culpa de vez em quando.

"O que fiz será bom para todos, incluindo você. Não posso me envolver com você. Misuko, você ainda tem uma vida no Ningenkai. Não posso ser egoísta. Desculpe..." pensou Koenma tristemente. Ele caiu num sono inquieto, cheio de sonhos e pesadelos.

Misuko saiu direto para o corredor. Estivera pensando sobre isso há um bom tempo, desde sua prisão pelos dois vilões. parou em frente a um quarto, esperando que estivesse se lembrando corretamente. Bateu na porta.

Cinco minutos se passaram. Misuko bateu novamente e desta vez um Kurama parecendo sonolento atendeu a porta.

"Kurama-san, desculpe por incomodá-lo tão tarde da noite. Ouvi de Botan que você é perito em plantas e remédios. Quero pedir sua ajuda," disse Misuko num tom determinado. Uma vez decidida, não havia volta. Nenhuma volta para como arrependimento.

"Ah, claro, se estiver dentro de minhas capacidades. Então qual é o problema?" apesar de Kurama não gostar de se acordado no meio da noite, ainda assim matinha seus modos gentis. Se alguém pedia por ajuda, com certeza ajudaria. Sem dúvidas.

"Quero recuperar minhas lembranças do passado," disse Misuko lenta e corajosamente.

"É muito perigoso," respondeu Kurama, estudando a garota a sua frente. "Tem certeza de que quer tentar?"

"Por que é perigoso?" perguntou Misuko curiosamente.

"Sempre há a possibilidade de que algo dê errado. Não foram poucos os que ficaram loucos depois de usar esse tipo de droga. Também foram documentados efeitos colaterais como tonteira, azia e sono. Na verdade, este tipo de comprimido é feito de plantas do Makai, então não tenho certeza se funciona em humanos," explicou Kurama em detalhes.

"De quanto é a possibilidade? Quero dizer, da chance de ter sucesso," perguntou Misuko ainda mais séria desta vez.

"Cerca de... 40 por cento." respondeu Kurama. "Para que você quer? Pensei que já soubesse de tudo."

Misuko ficou quieta. Kurama soltou um pequeno suspiro e retirou para dentro de seu quarto. Minutos depois, voltou à porta novamente; desta vez mostrando um pequeno comprimido vermelho. Com a mão tremendo levemente, ela pegou o comprimido da mão de Kurama.

"Quer realmente tentar?" perguntou Kurama novamente, sua voz mostrando preocupação. Sabia que muitos acidentes poderia acontecer...

Misuko não respondeu porque estava muito ocupada com seus próprios pensamentos. Quebrou o comprimido na metade e enguliu uma parte. A outra metade ela guardou no bolso da calça. Tremulamente, disse obrigada a Kurama e voltou para seu quarto.

*O que ela está tentando fazer?* pensou Kurama com medo, enquanto observava a figura que desaparecia.

Misuko alcançou seu quarto e fechou a porta. Uma onda de tontura a atingira e ela foi direto para o chão. Vozes e imagens começaram a atacá-la conscientemente. Todos os tipos de sons e imagens começaram a fluir dentro dela. Ela tentou reunir um pouco de força para levantar-se novamente mas toda a energia parecia drenada dela.

*É o comprimido que está produzindo esses efeitos colaterais em mim...*

Misuko tentou pressionar seus olhos fechados, mas seu olhar encontrou-se com uma cena. A dor em seu estômago, sua mão agarrando com força uma faca... O líquido pegajoso e quente que saía lentamente de sua roupa...

Passou rapidamente, mas a dor era tão real, tão excruciante.

O sorriso no seu rosto quando encontrou Koenma pela primeira vez num canto recluso do jardim... A sensação quente em suas bochechas quando corara...

Não havia mais necessidade de negar a verdade.

Misuko levantou-se novamente depois voltou a desmaiar. Sua mente parecia apagar num tom preto. Antes que a última ponta de consciência se fosse, conseguiu juntar um pouco de energia e bradar:

"Koenma-sama!"

Koenma estava com pertubado. Havia sido quem Misuko mudara ou somente ele mesmo? Koenma inclinou-se na poltrona. De qualquer forma, para onde Misuko tinha ido? Estava muito cansado para se importar. A sonolência o superou. Sonhos de resentimento.

Depois de cerca de 15 minutos, ele ouviu um baque surdo na chão. Primeiro, achou que fosse uma alucinação, mas ainda assim abriu os olhos e baixou-os. Viu Misuko caída ali, esparramada.

*Talvez tenha sido muito duro com ela. Pela reação dela, devo ter soado muito cruel...* suspirou Koenma suavemente.

Koenma ajudou Misuko a ir até a cama, meio que a carregando, meio empurrando-a. Ele arregalou os olhos e olhou em redor, procurando um cobertor. Encontrou um e cobriu-a com ele. Empurrou uma cadeira e sentou-se ao lado de Misuko.

*O que ela fez?* Koenma pensou consigo mesmo.

*Talvez só esteja dormindo.*

Koenma tentou cham

á-la suavemente algumas vezes, mas em vão. Os olhos de Misuko continuavam fechados. Koenma entrou em pânico. Misuko levantou uma mão para sentir sua testa e soltou um gemido. Koenma suspirou aliviado.

"Misuko, você está bem?" perguntou Koenma gentilmente.

"Koenma-sama, não vá..." murmurrou Misuko fracamente.

*Ela me chamou de Koenma-sama! Ela não me chama de Koenma-sama desde aquele dia fatídico em que a encontrei na loja de ramen de Keiko; mas o que ela fez de modo a recuperar essas lembranças?* pensou Koenma freneticamente.

Misuko estava completamente acordada então. Koenma olhou para ela amavelmente.

"O que você fez? Por que me chamou de Koenma-sama?" perguntou Koenma rapidamente.

"Recuperei as lembranças do meu passado." procurou em seu bolso e mostrou a Koenma a outra metade que não tinha engulido Koenma.

"Deveria ter tomado todo o comprimido, mas queria minhas lembranças no Ningenkai também; assim, só comi a metade," continuou Misuko.

"Não sabia que isso é muito perigoso? A droga para recuperar lembranças pode custar a vida e provoca efeitos colaterais," replicou Koenma preocupado.

"Não se preocupe comigo. Estou bem." Misuko disse aquilo e uma onda de tontura a atingiu. Estrelas dançaram na frente de seus olhos e ela balançou a cabeça para clareá-la.

Misuko levantou uma palma aberta para segurar um remo que materializou-se em pleno ar. "Voltei agora e irei trabalhar como sempre com você no escritório do Reikai."

"Você... Você voltou! Mas por quê? Por que fez isso?"

"Queria minhas lembranças do Reikai e de você."

"Obrigado... Obrigado por tudo que fez por mim." disse Koenma, seus olhos brilhando com as lágrimas.

"Queria você de volta," disse Misuko. Uma lágrima já rolava pelo rosto.

A boca de Koenma curvou-se para cima e ele passou os braços em volta dela. Misuko devolveu o abraço, apreciando as lembraças do passado e do presente - e talvez do futuro.

Lembranças foram recuperadas, e também o amor.

Traduzido por Rechan // Título Original: Past Present Future


xx março 2004

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