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Sombras & Mentiras
por Sionna Klassen e Kristin Huntsman
Capítulo 1
Yusuke acordou e não sabia onde estava. Sentou-se e olhou em
torno. Estava sobre um chão de madeira, as tábuas aquecidas pelo
sol que entrava por uma janela aberta. Uma brisa suave que cheirava
a verão entrava e brincava curiosa com seu cabelo. O aposento
não continha mobília. Kuwabara, Kurama e Hiei estavam todos espalhados
pelo chão, inconscientes.
Yusuke ergueu-se e dirigiu-se para janela. Olhou para fora, tentando
ter alguma noção de onde estava, mas tudo que via era uma campina
aberta que era bordejada por uma floresta que começava a algumas
centenas de metros da casa. Nada se movia no seu campo de visão,
exceto a grama soprada pelo vento. Nuvens felpudas navegavam pregüiçosamente
no céu perfeitamente azul.
"Onde diabos nós estamos?" Yusuke murmurou.
Girou o corpo, quando ouviu um pequeno barulho. Hiei se movia e
erguia-se, olhando em torno. Sua faixa branca se soltara e deslizou
para o chão, revelando o terceiro olho na testa. Hiei resmungou e
pegou-a, rapidamente. Fitou Yusuke.
"Onde diabos nós estamos?"
"Estamos com o mesmo problema." Yusuke deu de ombros e cutucou Kuwabara.
"Ei, acorde."
Kuwabara gemeu, "Mais cinco minutos..."
"Vamos, idiota! Isso é sério!"
Kuwabara finalmente abriu os olhos sem vontade, então acordou totalmente,
quando registrou o ambiente não-familiar. "Mas o quê...?"
"Não pergunte; não sei onde estamos," Yusuke disse de modo cansado.
Ele olhou para Kurama, que acordou instantaneamente, depois que Hiei
o cutucou. Ele ergueu a cabeça e tirou o cabelo ruivo da frente dos
olhos. Olhou em volta também, depois se levantou e olhou para fora,
através da janela. "Bem?" Yusuke perguntou. "Não vai perguntar?"
"Perguntar o quê?" Kurama parecia distraído.
Yusuke perguntou, "Você bateu a cabeça, ou quê? Não notou que aqui
não é extamente Tokyo?"
Kurama cheirou o ar. "Não," ele concordou. "Não é Tokyo. Na verdade,
não acho que estejamos nem mesmo no Japão."
"O quê?" Kuwabara exiguiu, tropeçando em si mesmo, de repente.
"Como sabe disso?"
Kurama deu de ombros. "Só posso dizer. Além disso..." Sua voz diminuiu
e ele franziu o cenho. "Este local me parece de algum modo familiar."
Ele se afastou da janela. "Acho que a pergunta mais importante é,
o que fazemos agora?"
***
Depois de uma exploração completa da casa e da campina adjacente
(ninguém quis se arriscar entrando na mata ainda), todos os
quatro se encontraram de novo no quarto que originalmente estavam.
Kurama ainda parecia estar agindo de modo estranho, como se não estivesse
bem focalizado no presente. Mas quando Yusuke perguntava quanto a
isso, ele sorria rapidamente e insistia que estava bem. Não parecia
haver nada que Yusuke pudesse fazer quanto a isso, então ele deixou
o assunto morrer.
"Então... O que descobrimos?"
Yusuke perguntou.
Hiei ergueu os olhos castanhos escuros. "A casa está totalmente
vazia," ele disse. "Nenhum pedaço de mobília, sem provisões, nada.
Certamente não poderemos ficar aqui."
"Fui até o telhado," Kuwabara informou. "Não consegui ver nenhum
limite, em nenhuma direção. Pelo que pude ver, é só floresta se esticando
por milhas. Acho que esta é a única clareira."
"Droga, isso não faz sentido!" Yusuke disse. "Por que há uma casa
no meio do nada? É loucura!"
Kurama disse suavemente, "Estabelecemos que não podemos ficar -
mas se partimos, para onde iremos? Não há nada do lado de fora, como
Kuwabara disse. Poderíamos viajar por meses e ainda assim nunca ver
um sinal de civilização."
Hiei deu de ombros. "Não passaremos fome. Caçaremos para comer."
"Como você sabe se há caça?" Kuwabara perguntou.
Hiei rolou os olhos. "É uma floresta, idiota. Tem que ter animais
nela."
Kuwabara estava para soltar uma réplica raivosa, mas Yusuke a impediu
batendo a mão no chão. "Vocês dois vão parar com isso? Disputas não
vão nos ajudar a decidir nada!"
Olhando furiosos de um para o outro, ambos se acalmaram. Hiei disse,
de mau humor, "O que você sugere?"
"Bom, temos que comer. Por que não saimos para
caçar? Mas é melhor não nos afastarmos muito da casa, e marcar o
caminho para não nos perdemos."
"Isso também permitirá a qualquer um seguir nossos rastros," Hiei
constatou.
"Quem nos verá?" Kuwabara interrogou, antes que Yusuke pudesse dizer
algo.
"Vamos lá. Já estou com fome." Levantando-se, todos eles sairam
da casa.
***
Hiei achava que tentar caçar sem uma arma melhor do que uma espada
era tolice, mas não tinha alternativa. Se fossem ficar lá por tempo
sufuciente, ele tentaria fazer para si um arco e flechas. No meio
tempo, se esgueiraria pelas árvores, procurando por animal grande
o bastante para ter carne. Não viu nenhum. Na verdade, não vira animais
em parte alguma. Ouvia pássaros cantando, mas só. Procurou em buracos
no chão, que funcionariam como tocas e não viu nenhum também.
Não conseguia nem mesmo ver os pássaros. Toda floresta parecia quase
sem vida. Ou congelada. Droga, o que eu faço agora?
***
Yusuke parou bruscamente, quando Kurama estacou do nada. Ainda estavam
a 15 metros do início nas árvores, mas a luz do sol parecia já estar
minguando, enquanto se aproximavam da mata verde escura. Yusuke olhou
curioso para Kurama, então viu a expressão no rosto dele e sentiu-se
repentinamente preocupado.
"O que foi?"
Kurama fitava as árvores. Ele parecia assombrado,
o que era extremamente raro, na realidade. Ele piscou ante a voz
de Yusuke e balançou a cabeça.
"Nada, nada."
Ele avançou de modo hesitante e deu mais alguns passos na direção
das árvores. Mas era como se estivesse se forçando a ir para frente,
tentando se forçar a fazer algo que não queria.
"Kurama..."
Kurama parara de novo e estava rígido na grama alta com suas mãos
fechadas em punho. Suas costas estavam voltadas para Yusuke e ele
fitava as árvores como se esperasse que elas se movessem.
Estava tremendo.
"Kurama, o que foi?"
"Não posso," Kurama sussurrou. "Não posso entrar na floresta."
"Por que não?"
"Eu não sei." Ele voltou-se, para olhar para Yusuke, seus olhos
verdes arregalados. Algo selvagem e não muito são espreitava nas
suas profundezas. "São só árvores! Qual é meu problema?" Ele olhou
novamente para a floresta. "Sinto-me como se estivessem me afastando."
Yusuke tentou não parecer protetor. "Você não precisa entrar," ele
disse. "Pode voltar para a casa... o resto de nós voltará quando
tivermos comida suficiente para jantar."
Kurama estava furioso de repente. "Não vou deixar um bando de árvores
me assustar..." ele se adiantou a passos largos e desapareceu nas
sombras. Yusuke correu para alcançá-lo.
"Kurama! Espere!" Yusuke tropeçou ao estancar dentro da floresta,
precisando permitir que seus olhos se ajustassem à fraca luminosidade.
Olhou em torno, mas não havia sinal de Kurama. Droga! Para onde ele
foi?
***
Kurama voltou-se e olhou para trás, na direção da convidatitava
campina iluminada pelo sol, só para descobrir que ela se fora. Só
tinha dado dois passos dentro da floresta, e ainda assim estava rodeado
por todos os lados de troncos de árvores cobertos de musgo. Ele deu
voltas, procurando uma rota de fuga, mas a floresta pressionava a
seu redor. De repente ele ouviu um barulho atrás dele e correu. Perguntava-se
porque corria mesmo quando tentava acelerar seus passos ainda mais.
Do que estava fugindo? Provavelmente era só Yusuke. No que estava
pensando? Por que estava entrando em pânico sem razão? Era tolice!
Tentou desacelerar, mas acabou correndo ainda mais rápido. Os sons
atrás dele estavam chegando mais perto. Tentou forçar os pés para
uma velocidade ainda maior, saltando sobre um tronco caído e e sobre
um córrego. Quando aterrisou num banco de areia, algo se rachou à
distância e ele reconheceu como sendo um tiro, embora soasse mais
como trovão. No momento seguinte a bala atingiu seu coração. Ele
caiu na lama, deslizou para o chão e terminou de cara enterrada no
córrego. A água congenlante carregou seu sangue na correnteza.
***
Kuwabara ouviu um barulho e estava pronto para atacar, mas era
Yusuke que transpunha os arbustos. "Ei, o que você acha que está
fazendo?" Kuwabara interrogou. "Vai espantar a caça!"
"Temos que achar Kurama," Yusuke disse. "Tem algo errado."
"Lá se vai o jantar," Kuwabara murmurou, enquanto seguia Yusuke.
***
Hiei estava completamente perdido. Era ridículo. Estivera se orientando
pelo sol e por cada marca que aparecia, mas, de alguma maneira,
ele se perdera. As marcas de que se lembrava, como pedras de formatos
estranhos ou árvores retorcidas, simplesmente não estavam onde
deveriam. Era como se a floresta tivesse mudado, para confundi-lo.
Uma idéia o atingiu e ele avaliou as árvores com suspeita. Então
saltou sobre os galhos e escalou até o topo da árvore mais próxima.
Por causa de seu pequeno corpo, até mesmo galhos finos sustentavam
seu peso com facilidade. Logo não conseguia mais subir, mas havia
uma árvore mais alta por perto. Ele não passara pela cobertura ainda.
Pulara para a outra árvore e escalara rapidamente. Era uma imensamente
alta, reta e de casca avermelhada e quase macia. Tinha camadas grossas
de agulhas verde-escuras, ao invés de folhas. Não se parecia com
nenhuma árvore que Hiei conhecia, mas a maioria da flora da floresta
era de um tipo que não reconhecia.
Ele escalou até uma altura que lhe permitia ver tudo sobre as árvores
e verificou todas as direções. Notou a clareira rapidamente e certificou-se
em que direção ficava. Era estranho, mas ela parecia tão distante,
que ele devia estar se afastando dela o tempo todo. O que tinha certeza
que não fizera. Esta floresta é um labirinto! Hiei franziu o cenho.
Certas suspeitas na sua mente estavam começando a se moldar em algo
mais certo. Decidira que seria melhor achar o caminho de volta à
clareira pelas árvores, ao invés de no chão. Era muito fácil se confundir.
Ele desceu e se lançou para outra árvore assim que notou um galho
que o sustentaria. Saltando e escalando como um esquilo, ele fez
seu caminho de volta para a clareira e a casa.
***
Uma sombra líquida destacou-se do tronco de uma árvore e deslizou
pelo chão. Parou na margem do córrego, então esticou-se sobre a
água, fazendo um arco, para aterrisar como um borrão oleoso no
ombro de Kurama. Parou, como se meditasse. Então se moveu até as
costas de Kurama e desapareceu no buraco feito pela bala. Quando
a escuridão desaparecu, não havia sinal de ferida. Kurama de repente
estremeceu e puxou com força sua cabela para o alto, fora d'água.
Tossiu a água e olhou em torno, de forma perplexa, incapaz de se
lembrar onde estava ou como chegara ali. Levantou-se e saiu do
córrego, sentando-se no banco de areia e fitando a floresta desconhecida
com sua profusão de pau-brasil e samambaias. A casa. A clareira.
Kurama pôs-se de pé.
***
"Isso é loucura! Nunca o acharemos aqui!"
"Bom, não vou desistir!" Yusuke explodiu.
"Não é possível que ele tenha simplesmente voltado para a casa?"
"Sem que eu o visse?" Mas Yusuke pensou nisso. Kurama deveria dado
a volta e voltado para a casa, enquanto Yusuke estava procurando
na mata. O último lugar que Kurama queria estar era nesta floresta.
Quanto mais pensava nisso, mais provável parecia que ele simplesmente
tivesse perdido Kurama por azar. "Talvez você esteja certo. Vamos
voltar. Mas se ele não estiver lá--"
"Voltaremos e procuraremos, okay? Vamos." Kuwabara gesticulou e
começou a caminhar.
Yusuke pausou. "Kuwabara - não viemos *dali*?"
"Diabos, não. Qual o problema com você? Eu me lembro de ter passado
por essa pedra."
Yusuke franziu o cenho e balançou a cabeça. Poderia jurar que a
clareira era para a esquerda. Mas deu de ombros e seguiu Kuwabara.
***
Hiei abriu a porta da frente da casa e entrou, colidindo com Kuwabara
e Yusuke, que saíam.
"O que vocês dois estão fazendo?" ele perguntou.
"Temos que achar Kurama," Yusuke disse. "Ele está perdido."
"Perdido?" Hiei inquiriu. "O que aconteceu?"
"Eu não sei!" Yusuke reclamou. "Desapareceu na floresta!"
Hiei bufou de escárnio. "Provavelmente queria caçar sem vocês no
caminho. Ele voltará."
"Não, não é isso. Ele não queria entrar na floresta de forma alguma.
Acho que estava com medo dela."
"O quê?" Hiei ficou irritado então. "Está biruta? Por que Kurama
teria medo das árvores?"
"Não sei!" Yusuke disse novamente, quase gritando.
"Por que estão gritando?" Kurama perguntou pacificamente, detrás
de Hiei.
Hiei girou e fitou Kurama, perguntando-se como ele conseguira se
esgueirar até eles daquele jeito sem ninguém notar.
"Kurama! O que aconteceu?" Yusuke interrogou. Kurama estava ensopado
até a pele e tremendo de frio.
"Caí num córrego," ele admitiu.
"Está tudo bem com você?" Hiei perguntou.
Kurama sorriu. "Não seja tolo. Estou bem."
E desmaiou.
Traduzido por Rechan //
Título Original: Shadows &
Lies
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